Novos sucessos, novos desafios
V Fórum Social Mundial · Combate n.º 282, março a maio de 2005, pp. 44–46
Revista Combate2005Hugo DiasHugo dias * fotografia: Marcos mesquita
2005 - Regresso a Porto Alegre
Após a realização do 4ª FSM em Mumbai na India, o movimento dos Fóruns regressou à cidade que lhe viu dar origem. A Usina do Gasómetro (antiga fábrica convertida em monumento histórico da cidade) foi o centro de operações do denominado Território Social Mundial, que se estendeu por 11 kilómetros ao longo da Orla do rio Guaíba.
Segundo os dados fornecidos pela organização este foi sem dúvida o maior de sempre. Na marcha que marcou o início do Fórum, estiveram presentes mais de 200 mil pessoas. No total foram 155 mil participantes inscritos, 35 mil dos quais integrantes do Acampamento da Juventude e 6823 comunicadores. Cerca de 6872 organizações de 151 países estiveram presentes envolvidas em 2500 actividades, distribuídas pelos 11 espaços temáticos espalhados pelo Território Social Mundial. Estima-se ainda que nos dias de maior movimento (29 e 30) tenham passado pelo Território Social Mundial cerca de 500 mil pessoas.
Continuidade não significa imobilidade. Mumbai representou um momento de mudança na história do Fórum Social mundial. O regresso a Porto Alegre beneficiou disso. O 5º FSM representou portanto uma abertura em muitos aspectos. Fisicamente: ao sair das instalações da PUC (Pontifícia Universidade Católica) e se instalando em tendas à beira do rio, mais próximo de centro da cidade e da população local. A nível geracional: pela colocação do Acampamento da Juventude no centro do Território Social Mundial e não na sua periferia. Em termos de prática política: tendo em consideração questões ambientais na concepção do espaço, recorrendo a pequenos produtores de alimentos, usando software livre, entre outros aspectos. Ainda, em termos organizativos a prioridade foi dada a iniciativas autogeridas. A nova metodologia adoptada pelo 5º FSM abandonou o modelo de anos anteriores em que pontuavam as grandes Conferências da responsabilidade do Comité Organizador simultaneamente com as workshops propostas pelas organizações. Neste ano todas as actividades realizadas foram da responsabilidade das organizações proponentes sendo auto-geridas por estas.
O programa foi elaborado a partir de um processo amplo de consulta das diversas organizações. Definiram-se assim 11 eixos temáticos, de modo a assegurar a visibilidade a temáticas fundamentais. Todos os movimentos foram convidados a aferir da possibilidade de reagrupar as suas iniciativas, de forma a reforçar o diálogo e a colaboração, num processo denominado de aglutinação.
Os temas em debate reflectiram a diversidade das causas e dos movimentos presentes: desde sindicatos, movimentos estudantis, movimentos contra a guerra, ambientalistas, a partidos políticos; desde organizações de direitos humanos, feministas, a organizações LGBT; desde os movimentos indígenas, camponeses, sem terra, até ao movimento Dalit, uma casta de 200 milhões de pessoas discriminada pelo sistema de estratificação social Índiano.
Agenda de mobilizações
O sucesso do 5º FSM implica um esforço permanente de articulação dos movimentos sociais, debate de alternativas e de coordenação das mobilizações. Neste momento as mesmas políticas neoliberais e anti-democráticas estão a ser aplicada pelas instituições internacionais numa escala mundial: de Este a Oeste, de Norte a Sul, somos confrontados com idênticas politicas de desregulação, de privatização, de expansão selvagem do capitalismo, com os mesmos ataques às liberdades políticas e cívicas. Neste cenário urge o reforço de uma frente internacional de resistência e de propostas alternativas.
Apesar de não fazer parte do programa do FSM, a Assembleia dos Movimentos Sociais é um momento importante para a definição de uma agenda de mobilizações conjunta. No dia 31 de Janeiro, sob o lema “Globalizemos a luta, Globalizemos
a esperança” foi aprovado o apelo dos movimentos sociais para a mobilização contra a guerra, o neoliberalismo, a exploração e exclusão por outro mundo possível.
Desta declaração constava, o apelo para a realização de um dia acção global contra a ocupação do Iraque a 19 de Março; o lançamento de uma campanha pelo cancelamento da dívida externa, nomeadamente aos países gravemente afectados pelo Tsunami; apoio às iniciativas da Marcha Mundial de Mulheres que se iniciaram a 8 de Março em S. Paulo finalizando a 17 de Outubro no Burkina Faso; construção de uma rede global de movimentos sociais comprometidos com a defesa dos migrantes, refugiados e deslocados; apoio à luta do povo palestiniano e dos activistas israelitas pela paz, entre muitas outras reivindicações.
A agenda política será marcada por diversos eventos internacionais dos quais se podem destacar: mobilização contra a cimeira dos G8 de 2 a 8 de Julho; Cimeira dos Povos das Américas na Argentina em Novembro; mobilização a 17 de Novembro, dia internacional dos Estudantes, em defesa da educação pública, contra a privatização e transnacionalização da educação; em Dezembro, mobilização contra a reunião da OMC em Hong Kong.
A Comissão Internacional organizadora do FSM propôs que, em 2006 o FSM seja descentralizado e que o FSM 2007 se realize em Africa. Esta decisão resulta da perspectiva de tentar alargar e enraizar consistentemente o “movimento dos movimentos” a partes do mundo ainda sub-representadas neste processo. Assim o próximo ano será marcado por um conjunto de iniciativas temáticas e regionais descentralizadas, enquanto que o objectivo fundamental é o da realização em 2007 de um FSM em África, um continente tragicamente afectado pelas políticas neoliberais.
A esquerda e o poder
O FSM foi marcado pela multiplicação de debates sobre a Esquerda e as questões do poder. Esta situação resulta de vários factores. Em primeiro lugar pelo facto de essa questão se colocar de forma premente no contexto da América Latina. A chegada ao poder via eleições de diversos governos de esquerda suscita acesos debates de análise da sua actuação governativa e de como a esquerda se relaciona com o poder de Estado com vista a projectos de transformação social.
Assim para além dos muitos debates que percorrem todas as edições do Fórum nomeadamente a questão se é possível mudar o mundo sem tomar o poder ou Reforma e revolução, o que se abordou foi fundamentalmente um balanço crítico à governação Lula e discussão de alternativas de esquerda à sua actuação.
Numa realidade política em grande convulsão as diversas críticas de esquerda tiveram presença visível no FSM. Desde o PSTU defendendo a necessidade de rompimento com os movimentos sociais historicamente ligados ao PT, nomeadamente a CUT e a UNE (União nacional de Estudantes) procurando respectivamente a criação da CONLUTAS e da CONLUTE; ao recentemente criado P-SOL (Partido Socialismo e Liberdade) fundado pelos Senadores expulsos do PT, Heloisa Helena, Bábá e Luciana Genro, resultante da saída de muitos militantes do PT; até a tendências de esquerda dentro do PT como a Articulação de Esquerda e Democracia Socialista que lançaram a 1ª versão da carta aos Petistas, documento de crítica à actuação governativa e que procura agrupar à sua volta uma plataforma que dispute as lideranças nacionais e estaduais do PT.
Este cenário de aceso debate e disputa política foi marcado por duas presenças nos dois únicos “grandes” eventos do FSM: a presença de Lula e de Hugo Chavez no Gigantinho. Ambas não passaram despercebidas, mas com reacções de sentido contrário. Se a recepção de Hugo Chavez, presidente da Venezuela foi apoteótica Chavez, a de Luís Inácio Lula da Silva foi tudo menos pacífica.
Em 2003, Lula pouco após a sua eleição discursou ao ar livre no Anfiteatro pôr do Sol perante muitos milhares de activistas entusiastas. No dia 28 de Janeiro de 2005 Lula marcou presença no Gigantinho, um ginásio coberto com capacidade para 12 mil pessoas, sob um grande aparato de segurança: muita polícia e um rigoroso controlo das entradas no espaço com vista a impedir o acesso de “elementos perturbadores”. No exterior alguns milhares de manifestantes, de onde se destacavam membros do P-SOL e PSTU, gritavam palavras de ordem contra a reforma da previdência. Causa para protesto foi ainda o facto de, logo após o seu discurso, ter viajado imediatamente para o Fórum Económico Mundial de Davos onde participou no lançamento de um simbólico plano de combate à pobreza no Mundo.
* Hugo Dias é sociólogo e invetigador [email protected]
Texto extraído do PDF da revista que o combate.info publicou; as citações em destaque e as legendas foram omitidas.