combate

Arquivo da LCI, do PSR e da APSR, secção portuguesa da IV Internacional, e da sua imprensa, 1973–2013

Neocons à conquista do mundo

João Romão · março de 2005 · Revista Combate · 1.299 palavras

Combate n.º 282, março a maio de 2005, pp. 47–49

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A RECOMPOSIÇÃO do governo norte-americano após a reeleição de George Bush trouxe novos protagonismos a alguns dos mais destacados membros do movimento neo-conservador, que marcam posição em importantes organismos de cooperação internacional, muito pouco tempo depois de terem inspirado e liderado a guerra no Iraque.

“Se pudesse alterar o Conselho de Segurança hoje, só ficaria um membro permanente, porque esse é o reflexo real da distribuição do poder no mudo”, dizia há 5 anos, na National Public Radio, o agora nomeado Embaixador dos Estados Unidos na ONU. John Bolton tinha sido sub-secretário de Estado no primeiro governo de Bush e “Renunciar ao Estatuto de Roma para o Tribunal Penal Internacional foi o momento mais feliz do meu serviço no governo”, declarou em 2002 ao Wall Street Journal. Passados mais três anos, os Estados Unidos continuam a não estar integrados no Tribunal Penal

Texto de João Romão * ilustração de nuno neves

Internacional, evitando, entre outras coisas, que esta instituição se pronuncie sobre os crimes de Guerra praticados (e assumidos) pelo exército dos Estados Unidos em Guantanamo após a ocupação do Iraque.

John Bolton foi nos últimos anos um dos colaboradores de Donald Rumsfeld na Defesa dos Estados Unidos e no ataque frontal à Organização das Nações Unidas: “As Nações Unidas não existem. Existe uma comunidade internacional que ocasionalmente pode ser liderada pelo único poder existente no Mundo, os Estados Unidos, quando isso for do nosso interesse”, declarou em 1994 na Global Structures Convention, em Nova Iorque.

Do Pentágono ao Banco Mundial

Poucos dias depois da nomeação de Bolton, George Bush viria a propor Paul Wolfowitz para a presidência do Banco Mundial, justificando a escolha com o facto de Wolfowitz estar “envolvido na gestão de uma grande organização, o Pentágono” e de se tratar de “um diplomata experiente, que trabalhou no Departamento de Estado em cargos de alta responsabilidade e foi embaixador na Indonésia”. Wolfowitz, um dos mais relevantes teóricos do movimento neo-conservador, foi também um dos inspiradores da doutrina da “democracia imperial”, que conduziu à guerra do Iraque. Um dos seus mais próximos colaboradores, Zalmay Khalilzad, tinha sido nomeado embaixador dos Estados Unidos no Afeganistão após a instalação das tropas americanas. Khalilzad, nascido no Afeganistão, tem conhecidas ligações a grupos extremistas islâmicos, incluindo os taliban, e foi durante mais de dez anos “analista de risco” no grupo petrolífero Unocal, internacionalmente criticado por negociar com os regimes mais repressivos do Médio Oriente.

O Banco Mundial reúne 184 estados e tem como missão a promoção do desenvolvimento económico global e a redução da pobreza no mundo. Após um encontro com os governadores europeus do Banco, Wolfowitz manifestou a intenção de ter uma equipa multinacional a gerir a instituição: “Tenciono procurar os melhores talentos em todo o mundo. Há grandes talentos aqui na Europa. Há pessoas impressionantes nos países em desenvolvimento e precisarei de toda a ajuda possível”.

Wolfowitz teve a necessária ajuda dos europeus para ser empossado como Presidente do Banco Mundial, apesar da perplexidade generalizada que a sua nomeação causou. Nas

suas edições online, CNN e Al-Jazeera promoveram inquéritos aos cibernautas sobre a adequação da nomeação de Wolfowitz e, em ambos os casos, mais de 80% dos votantes consideraram a escolha errada. Na Europa (que detém 30% dos votos na administração do Banco Mundial, para 16% dos Estados Unidos) prevaleceu o pacto não oficial entre Washington e Bruxelas para que os Estados Unidos indiquem a presidência do Banco e a Europa a do Fundo Monetário Internacional.

Com Wolfowitz na sua recente visita à Europa, onde se confirmou a sua nomeação, Armand De Deckers, Ministro do Desenvolvimento belga, considerou o novo Presidente do Banco Mundial uma pessoa “modesta e prudente, de forma alguma arrogante”, enquanto o Comissário Europeu Olli Rehn declarou que “estava satisfeito com tudo o que ouviu do senhor Wolfowitz sobre livre comércio, redução da pobreza e política de desenvolvimento”.

Uma das tarefas do Banco Mundial será a reconstrução do Iraque, continuando o processo de “intervenção” de Wolfowitz no Médio Oriente: primeiro criou o modelo teórico da “Guerra Preventiva”, depois definiu o alvo, o chamado “Eixo do Mal”, mais tarde programou e dirigiu a intervenção militar a partir do Pentágono e agora lidera a entidade que vai financiar e gerir a reconstrução. Na conhecedora opinião de Wolfowitz, “estamos a lidar com um país que pode financiar a sua reconstrução relativamente depressa”.

Future Combat System

O movimento neo-conservador tinha-se consolidado nos Estados Unidos ao longo dos anos 90 e assumiu grande influência no primeiro governo de Bush, principalmente na área militar. Em 1996, Richard Perle (conselheiro do Pentágono com Wolfowitz), Douglas Feith (sub-secretário da Defesa dos EUA) e David Wurmser (assistente especial de John Bolton) tinham preparado um documento para o governo de Israel (na época liderado pelo Likud) onde se propunha uma “clara ruptura” em relação “às políticas de negociação com os palestinianos e à troca de terras pela paz”, sugerindo-se que “Israel pode alterar o seu enquadramento estratégico através do enfraquecimento e da contenção da Síria” e que “este esforço deve ser orientado para a retirada de Saddam Hussein do poder no Iraque”. [ver Combate de Março de 2003]

Passados quase dez anos, Saddam Hussein foi afastado do poder e capturado para julgamento. O Médio Oriente vive um período de grandes turbulências e transformações, iniciadas,

de resto, com a ocupação do Afeganistão, ainda antes da invasão do Iraque. O assassinato de ex-primeiro ministro do Líbano, Rafik Hariri, fragilizou a Síria, que mantinha presença militar em território libanês. Isolada politicamente (a Embaixada dos EUA em Damasco foi encerrada), a Síria receberia da Rússia a disponibilidade para o fornecimento de mísseis. No Líbano, quinze anos depois da guerra que se prolongou entre 1975 a 1990, Beirute já tinha sido reconstruída e era agora destino de viagem para milhares de turistas árabes. Apesar da presença síria, o Líbano tinha voltado a ser um território de tolerância entre divisões étnicas (drusos, cristãos, xiitas, sunitas) até voltar à instabilidade violenta actual.

A guerra que desencadeou este ambiente no Médio Oriente tinha começado com uma mentira: a da existência de provas de que o regime de Saddam Hussein estava em condições de utilizar “Armas de Destruição Massiva”. Em Março passado, a Comissão Presidencial que analisou os relatórios dos serviços de espionagem aceitou que o governo dos Estados Unidos estivera “totalmente enganado”. Essa Comissão - criada por George Bush no ano passado para avaliar os erros dos serviços de informação - recomendou que haja alterações substanciais nos serviços de espionagem, uma vez que estes erros “continuam a ser comuns” na “avaliação dos programas de armamento” de outros países.

Os novos instrumentos de espionagem internacional que os Estados Unidos pretendem utilizar estão a ser desenvolvidos há mais de dois anos, sob liderança de Donald Rumsfeld, o Secretário da Defesa que criou e dirige a “Linha de Apoio Estratégico”, um serviço de informação independente da CIA na área da “Inteligência Humana”, conceito que permite incluir tarefas como a definição de objectivos em tempo de guerra ou o interrogatório a prisioneiros, até agora executadas em locais como o Afeganistão, Somália, Iémen, Indonésia, Filipinas ou Georgia.

Aparentemente em vias de se reformar, Rumsfeld parece querer deixar aos neocons, agora devidamente enquadrados nas instâncias internacionais, os instrumentos necessários para uma rápida “democratização imperial” do planeta. Um dos exemplos conhecidos é o FCS (Future Combat System), um sistema que utiliza soldados humanos, robots, veículos armados (pesados e ligeiros) e aviões (alguns dos quais robotizados) ligados por sofisticadas redes de telecomunicações. Este é um dos 70 novos sistemas que Rumsfeld pretende implementar, apesar de o seu custo ser superior a 1,3 biliões de dólares. A despesa com a Defesa cresceu mais de 40% em cinco anos e actualmente os Estados Unidos gastam nessa área mais do que todos os outros países do mundo juntos.

* João Romão é dirigente do BE/Algarve. [email protected]

Texto extraído do PDF da revista que o combate.info publicou; as citações em destaque e as legendas foram omitidas.

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