combate

Arquivo da LCI, do PSR e da APSR, secção portuguesa da IV Internacional, e da sua imprensa, 1973–2013

Insustentável desenvolvimento

julho de 2003 · Jornal · 578 palavras

Combate, julho de 2003, edição em linha

A recente avaliação de Portugal no relatório anual do PNUD (Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento) para um 23º lugar em 175 países deve ter deixado com um sorriso nos lábios muita gente que assim pode ver confirmados os anúncios do governo de que a retoma será uma realidade e que depois da vacas magras virá uma época de esplendor para a qual nos temos de preparar. Com este relatório, referente a dados de 2001, o nosso país abandona a cauda da União Europeia, ultrapassando a Grécia, que há muito nos disputa o primeiro dos últimos lugares.

Naturalmente discutíveis, os critérios de classificação e avaliação deste relatório centram-se no índice de desenvolvimento humano (IDH) definido através do rendimento por habitante, esperança média de vida, alfabetização e bem-estar dos cidadãos. Seja como for, uma apreciação menos apaixonada pode bem justificar que o sorriso se transforme em desconsolo e angústia: a) Somos o país da UE com maior desigualdade entre ricos e pobres. Os dez por cento mais ricos têm um rendimento 15 vezes superior aos dez por cento mais pobres. b) Temos 48% da população classificada como funcionalmente analfabeta (iliteracia) e simultaneamente somos o país europeu com menor investimento em investigação e desenvolvimento. Apesar de em cada mil pessoas haver 774 telemóveis... c) Só somos ultrapassados pela Rússia e Estónia na quantidade de adultos infectados com HIV e temos a medalha de ouro da UE para o número de casos de tuberculose.

Claro que também há motivos de orgulho: a diminuição da mortalidade infantil, a percentagem de partos assistidos por técnicos de saúde, o aumento da esperança de vida.

Relatórios à parte, podemos garantir que em Setembro haverá mais desempregados do que agora (13 novos casos em cada hora que passa), que o desenvolvimento do país, a existir, será em benefício de cada vez menos pessoas com cada vez mais. Que os subterrâneos onde se forja a pobreza e a exclusão estão já praticamente concluídos apesar de poderem ser pouco visíveis – a sociedade pratica formas de integração dos desempregados mais imaginativas do que os técnicos de finanças alguma vez serão. A economia informal, o biscate e a necessidade de sobrevivência falarão sempre mais alto, numa primeira fase, atenuando as tragédias e camuflando os resultados sociais de uma política económica e social desastrosa. Até quando?

No Bairro da Torre, em Camarate, um miúdo cigano é alvejado e morto por uma bala "disparada para os pneus do carro". Uma vez mais não conseguimos perceber nada da história: porque é que a família cigana estava a ser perseguida pela polícia? Como é que o rapaz é alvejado? Porque é que a assistência médica demorou uma hora a chegar ao local? Uma vez mais a vida nos bairros pobres não vale nada. A verdade nunca interessa que venha ao de cima, a punição dos responsáveis fica algures determinada em uns dias de suspensão e de trabalho de secretária na esquadra. Por esta e por outras também vamos ocupando lugares cimeiros nos relatórios da Amnistia Internacional.

120 agentes da GNR vão partir para o Iraque. Talvez encontrem as armas que serviram de argumento para a guerra... Talvez dêem um empurrãozinho ao José Lamego ou ao António Vitorino, desejosos de servir a nova ordem mundial em tempo de saque no Iraque. Talvez tenham que defender a própria vida sem qualquer honra ou glória. Talvez para alguns este sacrifício dos geninhos seja mais um sinal, modesto mas significativo, do desenvolvimento do país.

João Carlos

Texto da edição em linha do jornal (1999–2003), recuperado das cópias do Internet Archive e do Arquivo.pt.

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