combate

Arquivo da LCI, do PSR e da APSR, secção portuguesa da IV Internacional, e da sua imprensa, 1973–2013

Contratempos: Música, cinema, poesia e internet

julho de 2003 · Jornal · 1.651 palavras

Combate, julho de 2003, edição em linha

Blogs, a nova febre

Está em curso uma revolução silenciosa na Internet portuguesa. Em poucas semanas, a febre dos weblogs instalou-se na rede. Com a mediatização proporcionada pela adesão ao fenómeno de algumas personalidades da cena política e cultural, a virulenta explosão de blogues nacionais ultrapassa, em larga medida, a capacidade diária de assimilarmos o muito que se vai fazendo. Paralelamente à extrema facilidade com que qualquer um pode criar um blogue, a ilusão da cobertura mediática estimula o narcisismo da produção de conteúdos, breves notas e comentários sobre inquantificáveis temas, assuntos, interesses. E que fidelizam, diariamente, milhares de leitores.

A avidez com que os blogues se vêm manifestando explica-se, em muitos casos, pelo «carimbo». Os chats, as listas de discussão e os fóruns aglutinam uma participação indistinta, anónima. Os blogues assinam-se – o que marca toda a diferença. Logo, por ora será prematuro discutirmos a blogosfera. Porque as euforias perante as novas tecnologias, estimuladas pelo maior ou menor arroubo do momento, esmorecem rapidamente. Em breve, uma selecção natural das experiências em curso criará um espaço próprio para os que permanecerem no núcleo de interessados, para além do divertimento de circunstância. Até porque, na blogosfera, algumas semanas parecem anos. O que cansa e desencanta.

Todavia, um dos mais interessantes aspectos que caracteriza a blogosfera lusitana é a sua clarividente clivagem entre Esquerda e Direita. Uns mais anónimos do que outros, políticos ou não, toda uma massa exercita, pelo posicionamento ideológico, uma das marcas de água dos blogues. Com uma total liberdade de escrita e com polémicas muito próprias, a discussão política nos blogues é uma constante, inaugurando novos espaços para inflamadas tertúlias. E, reconhecidamente, com um nível intelectual que não vemos noutros locais.

Mais recentemente, a crescente tematização de conteúdos dos blogues despersonaliza aquele seu carácter mais tribuno: projectos exclusivamente centrados num tema específico têm vindo a aumentar consideravelmente a qualidade da nossa blogosfera, permitindo um trabalho mais dialéctico e dinâmico do que nos tradicionais websites. Com quem os blogues, longe de competirem, modelam a ponte de um complemento.

De resto, lançando pistas de investigação, notas de rodapé, observações e reflexões, os blogues perspectivam-se ainda como um estimulante suporte de apoio à pesquisa e investigação nas ciências sociais. Em alguns países do norte europeu, diversas universidades adoptaram há muito os «blogues de investigação» como uma ferramenta imprescindível de trabalho. Por cá, alguns indícios tímidos apontam nesse sentido.

Temos, pois, um novo mundo que se expande pela Internet numa onda de choque. Ainda volátil e provisória, é certo, mas já a certeza que doravante teremos de actualizar o léxico. Talvez, permito-me, começando pela célebre sentença de um determinado ideólogo marxista: que mil blogues floresçam!

Sugestões de leitura

http://aviz.blogspot.com

http://blog-de-esquerda.blogspot.com

http://blogosocialportugues.blogspot.com

http://cruzescanhoto.blogspot.com

http://estudossobrecomunismo.blogspot.com

http://socioblogue.blogspot.com

http://1936-1939.blogspot.com

Tiago Barbosa Ribeiro

Matrix Reloaded

Porque tem tido tanto sucesso um produto como Matrix, porque atrai tanta "gente de esquerda", porque suscita tantas reflexões e discussões? Este é já o segundo Matrix que, tal como o primeiro, segue a metáfora do jogo, da rede e da "matriz", uma malha que cobre tudo o que existe, ou quase tudo. A Matrix é o "sistema". Nada escapa a esta rede, nem sequer os que se julgavam "resistentes". O filme é um jogo, e o jogo é a metáfora do social, ou da totalidade do que existe. Totalidade totalitária, pois claro, e a um ponto tal que tudo o que acontece está dentro da Matrix. Não há "fora" de jogo.

Esta visão do mundo como um jogo, em que há regras definidas (questionáveis ou não) e em que toda a acção é uma "jogada", é cara a muitos filósofos, sobretudo os que habitualmente se metem na gaveta do "pós-modernismo". O problema de Matrix é que é um jogo demasiado fechado. Perante o Big Brother tecnológico que é, no filme, esmagador e totalitário, não há resposta possível que não seja ilusória, porque também ela fica presa nas redes do sistema. Mas o mundo não é assim. Por mais total que seja o controlo, sobra sempre mais do que a resposta individualista/mística que se propõe no primeiro Matrix. A fuga individualista, mesmo que seja ironizada no filme (o herói é "The One"), parece ser a única hipótese de resposta num sistema em que tem de se desconfiar de todos, ou confiar apenas num qualquer Amor com letra grande.

O jogo de vídeo, que ainda mantinha alguma ironia e invenção no primeiro filme (kung-fu num espaço vazio e figuras a desviarem-se das balas), é agora previsível e, tirando a sequência dos Smiths reproduzindo-se em massa que consegue ser divertida por excesso, a ironia perde-se e o jogo empobrece-se.

O filme cria uma imagem do sistema para se adaptar a essa imagem às mil maravilhas. Tudo "funciona", como num jogo de vídeo, mas as jogadas sucedem-se sem darem lugar a nada de novo. A precisão milimétrica da tecnologia torna-se, ela própria, uma imagem totalitária (completa, fechada, violenta, sem fuga) do totalitarismo. O jogo entra mesmo num círculo interminável em que já não se sabe o que é realidade (nada nunca foi "real" afinal, isto é só um filme...) e o que é Matrix, nem isso interessa já. Se a resistência organizada é toda fantasia e "faz parte do sistema", o que sobra é uma liberdade abstracta e individualista, próxima de algum pensamento anarquista, mas recheada de uma tralha idealista de "valores" tradicionais ou conceitos difusos (a Equipa e a Competição, Maus e Bons, o Amor, a Família, o Futuro, o Sistema) que tornam o filme, desculpem-me os fãs, abertamente reaccionário. Mas as "teses" de Matrix assentam sobretudo num ecletismo inteligente, com mil e uma referências, citando de Baudrillard a Heidegger, namorando tanto os que se colocam politicamente contra este sistema (e não um sistema-jogo abstracto!) como os que defendem um "tu faz o que te apetece dentro do jogo que te oferecemos". O movimento pelo movimento, sem confrontos nem objectivos, é esse o apelo "jovem" e falsamente "livre" de Matrix. Enquanto nos suborna com truques e computadores.

Matrix Reloaded, de Andy e Larry Wachowski

Pedro Rodrigues

Breve tributo a Ted Joans (1928-2003)

Não pretendendo transformar esta coluna num mero desfiar necrológico, também não queria deixar de lado, impávido e sereno, o registo de mais uma baixa nos meios artísticos e culturais deste planeta.

É a Ted Joans, falecido no passado dia 12 de Maio, que se faz este breve tributo. Nascido a bordo de um barco, a 4 de Julho de 1928, em Illinois, bem cedo foi posto fora dele. Aos doze anos, o pai deixava-o em Memphis com um trompete nas mâos.

Depois de alguma errância, licenciou-se em Artes na Universidade de Indiana. Mudando-se para Nova Iorque, acabou por se juntar à boémia literária de Greenwich Village, em 1951.

Fez parte da "Beat Generation" - corrente contra-cultural que marcou a vida artística no final dos anos cinquenta e princípio dos anos sessenta - com Jack Kerouac, Ginsberg e Amiri Baraka.

Ted Joans era um pintor, trompetista e poeta de jazz, cujo trabalho foi marcado por uma forte consciência negra e uma linguagem musical estreitamente associada ao blues e ao jazz de vanguarda.

O estilo de Ted Joans, além de ter raízes na tradiçâo oral afro-americana foi influenciado por pintores e escritores surrealistas. Um dos seus quadros mais conhecidos "Bird Lives" (dedicado a Charlie "Bird" Parker) encontra-se no Museu DeYoung em São Francisco.

Foi considerado uma figura influente na literatura norte-americana e afro-americana e a sua carreira tivera recentemente algum ressurgimento com a publicação da antologia "Teducation".

Da sua obra escrita fazem parte:

Beat Poems

All of T.J. and No More

The Truth

The Hipsters (a book of collages)

Afrodisia

A Black Pow Wow of Jazz Poems

Funky

António José André

A Diáspora

Tropeçar num disco às vezes faz-nos redescobrir um interesse esquecido. Assim me aconteceu uma destas noites com os Klezmatics. Voltei a procurar notas sobre eles e soube muito bem voltar a ouvi-los.

Nos últimos vinte e cinco anos surgiu um redobrado interesse por uma recuperação da cultura judaica. Por parte das segundas e terceiras gerações de judeus americanos, ansiosos por ultrapassar uma série de tabus e recordações que os patriarcas emigrados da Europa tentavam a todo o custo esquecer.

No campo da música, uma série de artistas, de variadíssimas tendências musicais, vasculharam já as suas raízes judaicas. Steve Reich, John Zorn, com o seu projecto Masada, são bons exemplos. Uma das áreas a explorar era a da música tradicional dos judeus que habitavam na Europa Central e Oriental - o Klezmer.

Estas danças tradicionais, usando tonalidades pouco ortodoxas e ritmos entrecruzados, possuía um alinhamento semelhante ao das primeiras bandas de jazz. Quase desaparecido do habitat natural devdo às emigrações em massa e ao Holocausto, a música Klezmer acabou por ressuscitar nos Estados Unidos, para onde foi levado nos anos 20.

É neste contexto que surgem os Klezmatics. Formados em 1987, os seus elementos dedicaram-se a um grande trabalho de recolha no instituto judaico de Nova Iorque, onde se guardam milhares de gravações originais de música Klezmer. A todo este trabalho de arquivo juntou-se toda uma nova sensibilidade - não só estes músicos interpretam as canções por se identificarem com elas, mas também não deixam de lhes aplicar a sua própria visão do mundo, essencialmente preocupada com os problemas contemporâneos. É importante notar que estes músicos são abertos, sem preconceitos, cultos e pacifistas.

Basta atentar no eclético percurso do maestro Frank London, que àparte do seu curioso projecto pessoal com a Misérable Brass Band, passa também por participações ao vivo com Brian Wilson e David Byrne e em estúdio com os They Might Be Giantes. Curioso é também o exemplo de violinista Alicia Svigals, que cresceu a ouvir Led Zeppelin e agora ataca genialmente melodias Klezmer.

Como afirmavam os próprios Klezmatics "somos judeus, estamos nos anos noventa e esta é a nossa música!".

Klezmatics

Discografia seleccionada:

"Shvaygn = Toyt",

Piranha (s/data)

"Rhythm + Jews",

Piranha, 1990

"Jews With Horns",

Piranha, 1993

Sandy Gageiro

Texto da edição em linha do jornal (1999–2003), recuperado das cópias do Internet Archive e do Arquivo.pt.

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