Governo envergonha o país
GNR&mentiras · Combate, setembro de 2003, edição em linha
Jornal2003Luís BrancoBastaram duas semanas para o mundo se confrontar com o resultado mais evidente da ocupação norte-americana do Iraque: nasceu um novo barril de pólvora na região. Na mesma altura em que o número de soldados mortos no pós-guerra ultrapassou o das baixas em combate antes de Bush decretar o fim das operações militares, dois atentados assassinaram os eventuais protagonistas de um cenário pós-ocupação, o responsável pelas Nações Unidas no terreno e o líder religioso mais respeitado pela maioria xiita.
Curiosamente, os acontecimentos das últimas semanas de Agosto vieram servir de argumento para a nova batalha dos neo-conservadores que enchem os corredores do poder nos Estados Unidos. Num artigo recente, William Kristol e Robert Kagan apanham a boleia da conselheira Condoleeza Rice que defendeu semanas antes a necessidade dum "compromisso geracional" dos EUA para implementar as suas reformas no Médio-Oriente, tal como fizeram na Europa do pós-guerra. Para quem achava que a ocupação militar tinha os dias contados e que o esforço de reconstrução seria rapidamente "internacionalizado", o melhor é pensar duas vezes…
Neste cenário, o recém-criado governo executivo - um órgão que pretende dar a aparência de existir uma transferência do poder para mãos iraquianas, apesar da última palavra pertencer sempre ao "administrador civil" Paul Bremer – vai ver ainda mais dificultada a tarefa de ganhar a confiança dos iraquianos. Para começar, alguns membros deste "governo" acusaram os EUA de negligência quanto à sua segurança pessoal. E há o inconveniente do líder deste Conselho e do Conselho Nacional Iraquiano não poder visitar a vizinha Jordânia, onde é esperado desde 1992 para cumprir uma pena de 22 anos de prisão por um monumental desfalque no banco Petra. Apesar disso, Ahmad Chalabi continua a ser o preferido da Casa Branca para presidir aos destinos do Iraque.
Mas nem tudo são desgraças no Iraque ocupado. Para a empresa Halliburton, que já foi presidida pelo actual vice-presidente dos EUA Dick Cheney, a guerra e a ocupação são uma espécie de sorte grande. As empresas deste grupo facturaram 1,7 bilhões de dólares só em contratos ganhos durante a fase da invasão. E agora prepara-se para arrebatar sem concurso mais algumas centenas de milhões para tratar de toda a logística, construção e manutenção das bases dos 1200 militares que procuram armas de destruição massiva. Diz a imprensa que o pessoal da Halliburton também veste fardas militares, mas distinguem-se dos soldados pelos emblemas que trazem ao ombro...
Armas de destruição massiva? Pois é, parece que agora é que elas vão ter mesmo de aparecer, sobretudo se as sondagens inglesas e norte-americanas continuarem a mostrar a crescente desconfiança da opinião pública face a governantes que diziam ter provas irrefutáveis da sua existência e nunca as mostraram a ninguém. A excepção foi Durão Barroso, que disse tê-las visto com os seus próprios olhos no fim de uma visita aos senhores da guerra. Todos mentiram.
O governo português insiste em mandar polícias para o Iraque. Desde o início se soube que não vão ser integrados em nenhuma missão de paz coordenada pela ONU como foram, por exemplo, em Timor. Foi ainda dito que não têm a logística, o equipamento e a preparação para as condições que vão encontrar. O que tem Portugal a ganhar com o envio de homens armados para um cenário de guerra civil, a não ser o reconhecimento da obediência cega à voz do dono do mundo? Ao colocar o país numa posição subserviente face ao projecto dos neo-conservadores de redesenhar o mapa do Médio-Oriente nos anos que aí vêm, a direita portuguesa arrisca a segurança do país e fá-lo contra a vontade da maioria da opinião pública.
Desde a primeira hora, o governo PSD/PP preferiu colocar-se à margem do direito internacional e da vontade da população, chegando até a associar irremediavelmente o nome do país à cimeira que deu luz verde a esta tragédia sem fim à vista. A oposição em bloco censurou-o no parlamento, A ida da GNR para servir o comando inglês no sul do Iraque é uma decisão vergonhosa e que merece uma oposição ainda mais forte e determinada.
Não é provável que a vida no Iraque volte à "normalidade" tão cedo, e nem a população tem já memória do que isso é. Se mais de uma década de sanções levaram os iraquianos à miséria, as guerras combatidas nos últimos 25 anos fizeram o resto e é hoje claro que só a ditadura beneficiou disso para reforçar o seu poder. Para os que lá vivem, a chegada do Império com toda a sua farrogância trouxe a lei do mais forte e o saque das riquezas naturais - que em breve será legalizado, com contratos assinados e com enorme transparência. Para o resto do mundo é hoje evidente que este foi o verdadeiro objectivo desta guerra e das que agora se preparam à mesa do Pentágono.
É por isso que esta ocupação terá cada vez menos adeptos, dentro e fora do Iraque.
Luís Branco
Texto da edição em linha do jornal (1999–2003), recuperado das cópias do Internet Archive e do Arquivo.pt.