combate

Arquivo da LCI, do PSR e da APSR, secção portuguesa da IV Internacional, e da sua imprensa, 1973–2013

Abaixo o muro

setembro de 2003 · Jornal · 750 palavras

Combate, setembro de 2003, edição em linha

Começou a ser construído a pretexto de criar "segurança" para os israelitas e de impedir que os palestinianos se "infiltrem" na sua própria terra. Já teve vários traçados previstos: hoje ninguém pode profetizar que extensão vai ter o muro do apartheid nem quantos palestinianos vai aprisionar (só em Jerusalém são 50.000).

Certezas, há uma: o muro não se ergue ao longo da "fronteira verde" de 1967. O seu traçado caprichoso, serpenteante, retalha a Cisjordânia. Por vezes, adentra-se vários quilómetros em território cisjordano, para anexar ao "lado" israelita os colonatos que se instalaram nas melhores terras. O muro destrói as últimas ilusões sobre a possibilidade de um Estado palestiniano que incluísse a totalidade dos territórios ocupados na "Guerra dos Seis Dias".

Não é que os palestinianos vão estranhar agora a vida num país retalhado. Já antes do muro, havia os checkpoints. Horas e horas, todos os dias, para quem precisava de ir trabalhar fora do local de residência. Um dia inteiro para percorrer distâncias que um colono israelita percorre em meia hora. Tempos de espera para as ambulâncias, que muitas vezes significam a diferença entre a vida e a morte.

E nenhum argumento, nenhuma súplica, nenhuma invectiva que valha: do outro lado um adolescente israelita imberbe, fardado, de óculos escuros e uma uzi sempre pronta a disparar. É ele que tem todo o poder e fará aguardar durante horas, se lhe apetecer, uma grávida em trabalho de parto ou um ancião com uma paragem cardíaca. Basta uma palavra, um olhar, um desabafo colérico – ou às vezes nada, porque os soldados israelitas também têm os seus humores.

A tortura dos checkpoints é uma das faces mais abjectas da ocupação. Descrevê-la seria reproduzir as páginas e páginas que lhe tem dedicado a corajosa jornalista israelita Amira Hass, ou os relatos do grupo de mulheres israelitas "Makhsom Watch", que percorre os postos de controlo e testemunha os abusos, as violências, por vezes os assassínios cometidos pela tropa de ocupação. Esses assassínios, sempre impunes, têm vitimado pessoas que apenas queriam passar, e que cometeram o "crime" de não ouvir uma ordem para parar, de fazer um gesto brusco ou simplesmente de lançar uma palavra mais vernácula.

A educação sofre especialmente sob o regime de ocupação. Um estudo recente da organização da ONU para os refugiados (UNRWA) mostra que os problemas de acesso à escola se tornaram a medida de todas as coisas: um professor de matemática dá aulas de árabe, um professor de inglês dá aulas de geografia, e vice-versa, desde que possam chegar ao local de trabalho. Cerca de um terço dos professores encontram-se nesta situação. Um em cada cinco funcionários do Ministério da Educação palestiniano tem de pernoitar regularmente no próprio local de trabalho.

O que há de novo no muro, para o quotidiano dos palestinianos, é que eles vão passar a sofrer uma violência deste tipo mesmo quando não têm que deslocar-se. Muitos que não iam trabalhar ao lado israelita, que apenas cultivavam a terra a poucos minutos de casa, ficam agora a muitas horas do campo, porque o muro lhes passou pelo meio da aldeia, quando tiveram a sorte de não lhes deitar abaixo a casa. As pessoas que têm de ir buscar água a poucos passos de casa ficam separadas dessa água por horas de caminho.

Fazer a vida insuportável aos palestinianos e obrigá-los a partir: foi essa a receita do sionismo em 1948 e resultou. Foi essa a receita em 1967, mas falhou em grande parte. Hoje, volta a ser essa a receita, mas dois dos pilares principais em que apostavam os estrategas sionistas já se desmoronaram: o "roteiro" para a guerra e o governo-fantoche de Abu-Mazen, que não apontavam para a paz e sim para a capitulação.

As autoridades israelitas negam que isto seja limpeza étnica, mas reconhecem muitas vezes que é uma política de "transferência de populações". Também em relação ao muro, como observou Amira Hass, essas autoridades não gostam que se lhe chame "muro do apartheid" e preferem chamar-lhe "muro de segurança" ou muro de separação". Esquecem assim que apartheid em africânder queria dizer precisamente "separação".

Por muitos jogos de palavras e eufemismos que invente a propaganda sionista, eles nada mudam à realidade. Nem as muralhas romanas travaram os povos orientais, nem a muralha da China impediu as invasões temidas pelos mais sofisticados imperadores asiáticos, nem o muro de Berlim salvou a ditadura estalinista. Com os muros, fracassam os regimes que os construíram. O sionismo há-de cair como os outros, a Intifada vencerá.

António Louçã

Texto da edição em linha do jornal (1999–2003), recuperado das cópias do Internet Archive e do Arquivo.pt.

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