combate

Arquivo da LCI, do PSR e da APSR, secção portuguesa da IV Internacional, e da sua imprensa, 1973–2013

Entrevista com o músico basco Fermin Muguruza

novembro de 2002 · Jornal · 988 palavras

Existimos! · Combate, novembro e dezembro de 2002, edição em linha

Com 20 anos de presença no panorama musical alternativo do País Basco,a música de Fermin Muguruza tem ouvintes atentos em Portugal como em todo o mundo. Fundador dos Kortatu e de Negu Gorriak, Fermin, agora a solo, continua um percurso musical comprometido com a sociedade e com causas que nos são próximas. Activista pela defesa da cultura e dos direitos do povo basco, pela solidariedade com os zapatistas no México ou com os palestinianos, o artista-militante que está a lançar um novo álbum In-komunikazioa, falou para o semanário francês Rouge (21 Nov.)

Que significa ser hoje nacionalista basco?

A concepção racista que existia no início do século praticamente desapareceu. Já ninguém fala de etnia ou de raça basca. A ideia de um país aberto, que acolhe pessoas do Magreb, da América Latina, da África subsahariana, não foi só válida durante os anos 60 com a industrialização e a imigração do sul de Espanha. Ela continua em vigor. O imaginário racista é utilizado para fazer pressão sobre o conflito basco, mas não existe realmente. Há os nacionalistas burgueses do Partido Nacionalista Basco. Eu estou muito mais próximo de tudo o que é a esquerda, mesmo da "espanholista"(1), do que da direita basca. Mesmo se sobre determinados assuntos, como a defesa da língua, nos encontramos com a direita. É por isso que precisamos de um quadro comum para desenvolver um processo de paz como aconteceu com o Pacto de Lizarra-Garazi(2), que procurou desenvolver um novo cenário político.

Para mim, a ideia de soberania é uma ideia de soberania do povo, e é um elemento daquilo que deve ser a luta contra a globalização que tenta impôr um modelo de pensamento único e do indivíduo-consumidor. Há um tempo atrás, era mais difícil para as pessoas compreenderem o que era o nacionalismo, que representava para muitos, sobretudo na Europa, um conceito negativo. É por isso que eu me defino como anti-imperialista e não como nacionalista.

A última manifestação contra os atentados da ETA denunciava o "nacionalismo obrigatório"...

O único nacionalismo obrigatório que existe actualmente é o nacionalismo espanhol. Não nos é permitido ser bascos. O artigo 8 da Constituição diz que o exército espanhol é o garante da unidade de Espanha. Isso quer dizer que em caso de um referendo favorável à independência do País Basco, o exército seria autorizado a intervir.

Quais vão ser as consequências da ilegalização do Batasuna(3) em Euskadi?

O golpe é muito duro, mas não quer dizer que tudo páre. De facto, vai ser como um catalizador e todos os movimentos culturais, tudo o que considero ser a vanguarda, sobretudo em torno da lígua (literatura, música, teatro) vai ter ainda mais força e peso. De cada vez que a repressão foi forte, a resposta esteve à altura. É uma obsessão que tem o governo espanhol desde a guerra civil e o bombardeamento de Guernika: acabar com tudo o que é basco. Era a obsessão de Franco e é agora a de Aznar. Fizeram uma lei de "punto final" como na América Latina, graças à qual não houve depuração das direcções militares, de todos os que tinham torturado ou dos homens políticos do franquismo.

Pode a resistência vir da música?

Não exclusivamente da música. A música é a banda sonora daquilo que se passa na rua. Nós, os músicos, recebemos tudo o que se passa na rua e transmitimo-lo. É a nossa ideia de comunidade. Mesmo que os partidos políticos sejam colocados à margem da lei, continuaremos a vir para a rua, para nos reunirmos, para promover iniciativas. Lançámos um apelo a todos os colectivos sociais, a todos os agentes culturais para que se promovam iniciativas. A 30 de Novembro vai acontecer um grande festival em San Sebastian com a palavra de ordem: "Nós existimos:" Apesar das interdições e das restrições. Estamos a travar uma luta por direitos cívicos: já não temos o direito de voto porque ilegalizaram o partido que era o nosso porta-voz político; já não temos direito de expressão, de manifestação... Muita gente vai organizar-se e um grande movimento de desobediência civil vai nascer no País Basco.

Quais são os laços entre movimentos sociais, esquerda nacionalista e movimento cultural?

A ligação é muito grande: nós trabalhamos com os sindicatos, com os movimentos sociais, em questões tão diversas como a solidariedade com os presos políticos bascos, a oposição à construção de uma barragem, as questões feministas... Muitos artistas, e até desportistas, participam em eleições nas listas da esquerda abertzale (4) . Mantenho contacto com diferentes grupos, mas talvez o que faça falta é que cada um na sua cidade, se associe aos colectivos políticos e sociais que existem, se ligue a tudo o que é a expressão da rua. Para isso é preciso estar em contacto com o que é a vida da população. Muitas vezes os músicos desconfiam dos movimentos políticos com receio de estarem a ser manipulados ou controlados na sua expressão artística. É preciso pensarmos nestes laços de maneira horizontal, combinando-os com a força do movimento antiglobalização e anticapitalista. Em Barcelona, em Março, houve mais de 300 mil manifestantes, mas a seguir é preciso saber responder e organizarmo-nos. No País Basco, o processo mais interessante que conhecemos, o de Lizarra, em 1998-1999, foi por iniciativa das centrais sindicais nacionalista ELA e LAB. Foram elas que deram origem a essa unificação do movimento social e político basco. Penso que isto é um exemplo.

Entrevista de Léo Calvo, traduzida por João Carlos

Notas:

(1) Favorável à Constituição espanhola e portanto contrária à independência do País Basco e das outras províncias.

(2) Pacto assinado em 1998 por partidos políticos, sindicatos e movimentos sociais bascos. Representou uma oportunidade histórica para ser a sociedade civil a resolver politicamente o conflito basco. Os 18 meses de trégua militar permitiram , na época, uma aproximação entre as forças nacionalistas, com grandes mobilizações sociais unitárias.

(3) Herdeira da Herri Batasuna, é a principal organização política da esquerda nacionalista.

(4) Esquerda nacionalista

Texto da edição em linha do jornal (1999–2003), recuperado das cópias do Internet Archive e do Arquivo.pt.

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