Florença/Fórum Social Europeu: um novo movimento operário
Combate, novembro e dezembro de 2002, edição em linha
Jornal2002Salvatore CannavòO COMBATE publica este mês um excerto de um artigo de Salvatore Cannavò que me parece interessante para os nossos debates. Cannavò é director executivo do diário Liberazione (Refundação Comunista), activista da ATTAC italiana e foi o coordenador da elaboração do programa do Fórum Social de Florença. Aqui vai.
No Fórum Social Europeu apresentou-se uma nova geração ávida de política. Quarenta mil pessoas nos trabalhos do Fórum, um milhão em manifestação contra a guerra infinita e o ataque ao Iraque. Este espaço, móvel e plural, está definido: não à guerra, não ao liberalismo, não ao racismo. Irredutível face ao mercado e às suas leis, não se reduz à categoria tradicional do reformismo. O terreno privilegiado do movimento continua a ser a guerra e em menor medida o racismo e a imigração -, dois âmbitos nos quais a ética é amplamente convocada. É um aspecto que importa debater, pois define um campo no qual se pode realizar um projecto político de fôlego. Em torno destes valores e à nobre e radical recusa da guerra, podem todavia condensar-se forças e motivações de todo coerentes com um horizonte reformista ou com uma perspectiva de ajustamento gradual da globalização. Terreno escorregadio e complexo. Tornado ainda mais esdrúxulo pela distância sideral que vai de quem materialmente organizou o evento de Florença e a participação oceânica que este suscitou. Uma relação incrível de um para dez mil na qual se podem desenvolver incompreensões e incomunicabilidades várias. É por isso que não basta recorrer a uma simples aceleração da taxa de politização do movimento, desejável e necessária, mas não automática. O processo apresenta-se mais acidentado, porque implica novos níveis de envolvimento e de participação capazes de reduzir aquela distância e de concretizar um diálogo real, de limitar a delegação e uma distinção entre topo e base que, se reiterada, poderia dissipar a energia de Florença. As campanhas alinhadas na assembleia conclusiva e as entidades concretas encarregadas de as animar podem constituir um antídoto para este risco e a oportunidade para uma nova fase.
O velho e o novo
Estamos perante uma geração madura como todas aquelas que irrompem para exigir uma mudança radical e exprimir uma necessidade de futuro. Mas como evitar que esta necessidade realize uma fractura geracional - e também política - com o passado, com o velho que afinal não é outro senão o velho movimento operário? E como evitar, ao mesmo tempo, que este velho, feito de derrotas, por vezes de residualidade, frequentemente de compatibilidade, trave o passo aos jovens? É um equilíbrio instável e incerto, ensaiado ainda só parcialmente por redes que compõem o movimento em Itália, são exemplos a Attac ou a Rede Contra a Precariedade mas ainda não interiorizado. De resto, aquela fractura poderia assumir formas equívocas ou incoerentes com as suas próprias razões: uma fractura tipicamente geracional, ou entre um suposto social superior ao político; ou ainda entre sindicatos e partidos, por um lado, e novas formas da política, por outro. No fundo, este perigo sustenta-se no vazio que o movimento tem atrás de si: o outro mundo possível não está desenhado e ninguém concebe voltar a amarrá-lo aos fracassos históricos do socialismo real. Mas uma alternativa é ainda difícil de construir; até agora temos apenas algumas indicações de máximas e a procura afigura-se longa e árdua.
Uma dimensão europeia
Até para enfrentar este nó nevrálgico, o movimento, mais do que nunca, tem necessidade de reconhecer-se, de sentir-se parte de um projecto comum e de um espaço partilhado. O Forum é fundamentalmente isto e a isto deve o seu sucesso. Naturalmente, é também o todo que reconhece as suas partes singulares e diferenciadas: as redes nacionais tal como os fóruns sociais locais, as vertentes específicas como as lutas mais gerais, as estruturas maiores e mais pequenas, a atenção às práticas como a centralidade dos conteúdos. Colocar tudo isto em conjunto é o desafio que se tenta cumprir e que remete, no plano das "tarefas históricas", não já para os enormes movimentos do século passado, mas para a fase constituinte do movimento operário na segunda metade do século XIX. Foi então que se realizaram senso comum e factos objectivos, lutas concretas e construção do simbólico capazes de dar vida à maior elaboração colectiva da história humana. A Primeira Internacional representa muito bem este aspecto: tantas formas e culturas diferentes, unidas para dar lugar a um projecto colectivo colocado no campo da crítica ao capitalismo e da revolução. E pela primeira vez num plano decididamente internacional. Hoje é de novo assim. A dimensão europeia do evento é substantiva do próprio evento e pode constituir a sua característica principal. Também por isso a continuidade entre o Forum de Florença e o de Paris, a manutenção da coordenação europeia dos movimentos sociais e a mobilização em escala continental a começar pela guerra constituem válidas garantias de futuro.
Uma fase constituinte
Estamos portanto numa fase constituinte. Demonstra-o até o canto reiterado de canções históricas como o Bella Ciao ou Bandiera Rossa. Esta referência é um sublinhado, mais ou menos consciente, do alcance histórico do acontecimento, que não pode senão recorrer à melhor tradição e à melhor memória. Todos deverão ousar um pouco mais. Para construir, em torno deste espaço, um acontecimento político capaz de representar a necessidade de futuro, a erupção do novo, mas também a salvaguarda do velho. Um evento que dê forma e substância ao povo de Florença, que não é senão o novo movimento operário.
Salvatore Cannavò
Traduzido do italiano por Jorge Costa
Texto da edição em linha do jornal (1999–2003), recuperado das cópias do Internet Archive e do Arquivo.pt.