combate

Arquivo da LCI, do PSR e da APSR, secção portuguesa da IV Internacional, e da sua imprensa, 1973–2013

O silêncio dos que nunca foram inocentes

novembro de 2002 · Jornal · 708 palavras

Combate, novembro e dezembro de 2002, edição em linha

O que mais custa são os silêncios que durante anos, demasiados anos, ocultaram o sofrimento. O que dói mesmo é ver os espaços da cidade que conhecemos palco das histórias de horror que agora se conhecem. O que faz raiva até ao insuportável é perceber que o país onde vivemos vive uma enorme mentira e que essa mentira corrói a esperança da justiça que poderá existir um dia. A esperança da modernidade contra o obscurantismo, de que o poder dos poderosos deixe um dia de ser tão poderoso que esteja acima das contas prestadas a uma justiça de balança bem calibrada e olhos realmente vendados.

A vaga de indignação sobre os casos de abuso sexual e pedófilia na Casa Pia de Lisboa, transformou o país, fez estalar um verniz de décadas em que os abusos sexuais eram a face oculta de uma sociedade puritana e de aparente e inquestionável moral cristã. Os defensores da família tradicional, dos valores e virtudes do modelo patriarcal mais absoluto podiam transformar-se à noite em clientes de prostitutas ou prostitutos, em molestadores de menores e aliciadores de crianças pobres.

Mas a pergunta que todos devemos fazer é como é que foi possível este sistema de silêncios e impunidades perdurar? Como foi possível esconderem-se, durante tanto tempo, as queixas? Como foi possível que todos os indícios se acumulassem até ao arquivamento final por parte de polícias, poder judicial e poder político?

E a suspeita de que o que hoje se vai sabendo é só a ponta de um iceberg do crime e da sua rede de cumplicidades, de que os envolvimentos são demasiado poderosos para serem punidos, alimenta justamente a desconfiança e o descrédito nas instituições que deveriam estar acima de qualquer suspeita.

E pelo caminho, o voyerismo mórbido é alimentado por televisões em guerra de audiências, a homossexualidade é confundida com práticas pedófilas, a sexualidade das crianças é negada como se não pudesse existir. Bibi é o monstro único de uma rede que parece não ter mais cúmplices do que as pedras da Praça do Império.

E um dos comentadores de serviço da TVI ainda consegue fazer a defesa do Pacote Laboral de Bagão Félix a propósito da reintegração, decidida pelas instâncias judiciais, do funcionário da Casa Pia. Nesta interpretação, o ministro é o justiceiro que está para além da justiça, que pode o que os tribunais sabem mas não podem, que permite o despedimento mesmo quando provado que é sem justa causa, que justifica a arbitrariedade do patrão pois atrás de cada trabalhador despedido pode estar um perigoso pedófilo que só a visão patronal consegue revelar. É a caricatura da comunicação e o despudor do ataque sem ética e sem princípios a uma greve geral marcada em nome da indignação, em nome do direito ao trabalho e dos direitos humanos para quem trabalha.

No mundo em que vivemos a vida para a esmagadora maioria da população mundial tem o valor do seu trabalho. O capitalismo alimenta-se dessas vidas na perversão absoluta dos mais elementares direitos à dignidade humana. Crianças, mulheres e emigrantes são objecto de tráficos determinados pelo seu valor de uso e capacidade para render lucros. Vampirizando os mais fracos - as crianças pobres - as redes de pedófilia no mundo fazem parte integrante deste sistema, são uma das suas consequências mais sinistras. Portugal faz parte deste mundo com os piores indicadores para o abuso e exploração de crianças na UE. E não, não falamos só de exploração sexual.

Depois do afundamento do Prestige nas águas do Atlântico, o afundamento do prestígio da Polícia Judiciária e do poder judicial alastra como uma mancha de perigosa contaminação e imprevisíveis resultados. Como o governo espanhol, o governo português tarda em dar as respostas que são precisas, demora demais a entender que só a mais completa transparência pode juntar os esforços necessários para a descoberta da verdade e punição dos responsáveis. Como com o fuelóleo derramado no Atlântico, nada poderá restabelecer a normalidade na vida das crianças (ou dos, entretanto, homens) violadas e vítimas de abusos. Poderemos sim, saldar a dívida com o futuro e criar condições para que nunca mais possam acontecer crimes semelhantes. Para que nunca mais os silêncios se possam fazer sentir e pesar mais do que o sofrimento.

João Carlos

Texto da edição em linha do jornal (1999–2003), recuperado das cópias do Internet Archive e do Arquivo.pt.

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