combate

Arquivo da LCI, do PSR e da APSR, secção portuguesa da IV Internacional, e da sua imprensa, 1973–2013

Contratempos: Música, livros e internet

setembro de 2003 · Jornal · 969 palavras

Combate, setembro de 2003, edição em linha

Quanta saudade (de canções bem feitas)

Enquanto uma mão faz deslizar a caneta que escreve este texto, outra segura um CD que me aproxima dos olhos da cantora que oiço a partir de uns estranhos, mas confortáveis auscultadores.

Ela é Suzanne Vega e as canções são do álbum Songs in Red and Grey, o seu mais recente álbum, de 2001, que encontrei perdido numa loja de discos em segunda mão. Queria matar saudades.

Procurei ouvi-la após anos na prateleira onde a coloquei não por deixar de gostar, mas por confiar nela e querer partir à descoberta de outros músicos que não conhecia. Mas bastou ouvi-la de novo para compreender quanta falta senti das canções bem feitas, das letras intrigantes (onde cada palavra tem um lugar seguro) da voz aveludada e sussurrante.

Após tanto tempo, a canção Marlene on The Wall, de 1985 continua a ser assombrosa, Gypsy, de 1987, fascinante, entre outras que preenchem confortavelmente os ouvidos. A forma de soletrar as palavras e as frases, de as colar com a música entregam satisfação mas também deixam a certeza de um legado a que muitas cantoras não foram, felizmente, indiferentes.

Para muitos de nós o facto de ela se ter tornado discreta, regular e coerente fez com que deixássemos de a procurar influenciados, talvez, pelo imediatismo dos nossos dias e da sua consequente falta de substância.

Agora, quanto mais me dizem que Suzanne é melosa, fora de moda e banal, mais acredito na profundidade da sua voz e na confiança da sua obra. Por isso, proponho aqui um brinde à cantora e às suas canções: ouvi-las tornou-se, novamente, um prazer do início ao fim.

Suzanne Vega

Discografia seleccionada:

Suzanne Vega (1985)

99.9F (1992)

Nine Objects of Desire (1997)

Songs in Red and Grey (2001)

Sandy Gageiro

«O que você prefere: o latifúndio ou a vida?»

Assim mesmo, binário e brutal como todos os imperativos de exclusão: é esta a questão-chave que o Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) impõe à nossa consciência e à nossa responsabilidade, na campanha nacional em curso pela reforma agrária brasileira. A resposta, naturalmente condicionada pelo sentir de iniquidade que o enunciado em si contém, corresponde à realização histórica de uma legião de descamisados por maiorias socializantes. E um acto emancipatório de um povo como parte maior do processo corrente de todo um continente pela inversão das coordenadas exploradoras desta globalização.

O território brasileiro, segundo do mundo em concentração de propriedade fundiária, é o adjectivo de miséria e desigualdade que espelha a exploração capitalista da terra: os latifúndios, que estão concentrados em 2,87% dos proprietários, representam 56,7% da área total. Desta, 62,4% é improdutiva, enquanto a restante se totaliza em multinacionais e em culturas transgénicas.

O Movimento, nado numa região subterrânea à «dialéctica de dependência» relativamente ao imperialismo norte-americano, forjou as suas referências dentro dessa especificidade locativa, oscilando entre o marxismo e a necessária teologia de libertação. Desde sempre, o MST procurou harmonizar a herança de subversão de elementos históricos da América Latina, da sua coerência indígena, com um forte apreço pela pedagogia popular brasileira: conseguiu-o na bandeira da luta de classes.

Apoiar o MST e a reforma agrária não é, como alguém o disse, integrar a ala xiita do PT. É, antes, concretizar a luta de um Movimento que perpassa largas camadas da população brasileira, que já viu assassinados mais de 1500 dos seus militantes, e que tem contribuído, como poucos, para o avanço das forças progressistas e anti-capitalistas na América Latina. Com o MST, intensificaremos as mudanças que contam no barómetro do poder directamente submisso aos EUA, à ALCA e às suas relações comerciais colonialistas com os países deprimidos da região. Porque um outro mundo, socialista e igualitário, não é só possível: é, sentimo-lo, cada vez mais urgente.

Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra – Brasil

http://www.mst.org.br

Tiago Barbosa Ribeiro

Luiz Pacheco: Memória viva

"Hoje em dia, por toda a parte, são as memórias artificiais que apagam a memória dos homens, que apagam os homens da sua própria memória."

Jean Baudrillard

Luiz Pacheco nasceu em Lisboa em 1925.

Desde estudante de Filologia Românica a fiscal da Inspecção-Geral de Espectáculos, Luiz Pacheco foi uma série de coisas: um autor dos mais belos textos da língua portuguesa, um editor sempre falido e um crítico literário acutilante.

Desde 1945, começou a publicar diversos artigos em vários jornais e revistas, dos quais se destacam O Globo, Bloco, Afinidades, O Volante, Diário Ilustrado, Diário Popular e Seara Nova.

A partir de 1950, criou a editora Contraponto publicando autores como António Maria Lisboa, Herberto Hélder, Mário Cesariny, Natália Correia, Raul Leal e Vergílio Ferreira.

Liberto e libertário, Luiz Pacheco faz parte dum universo onde a brutalidade é partilhada com ternura e a rebeldia faz-se amante do sarcasmo. Hoje, Pacheco mede o tempo que este tempo tem...

BIBLIOGRAFIA

Carta-Sincera a José Gomes Ferreira (1958), A antologia em 1958;

O Teodolito (1962), Contraponto;

Surrealismo/ Abjeccionismo (1963), Editorial Minotauro (antologia org: Mário Cesariny);

Comunidade (1964), Contraponto;

Crítica de Circunstância (1966), Ulisseia;

Textos Locais (1967), Contraponto;

Prefaciou a Filosofia de Alcova de Sade (1969)

O Libertino Passeia por Braga, a Idolátrica, o Seu Esplendor (1970), Contraponto (reedição fac-simile, 1992 - Ed. Colibri);

Exercícios de estilo (1971), Editorial Estampa

Literatura comestível (1972), Editorial Estampa;

Pacheco versus Cesariny (1973), Editorial Estampa.

Textos de Circunstância (1977), Fronteira;

Textos Malditos (1977), Fernando Ribeiro de Mello;

Textos de Guerrilha 1 (1979), Ler

O Caso das Criancinhas Desaparecidas (1981), Círculo dos Leitores. Reedição pela Edições Rolim, Lisboa (1986);

Textos de Guerrilha 2 (1981), Ler;

Textos do Barro (1985), Contraponto;

Textos Sadinos (1991), Plurijornal;

O uivo do coiote (1992), Contraponto;

Memorando, Mirabolando (1995)

Uma admirável droga (19??)

Isto de estar vivo (200?)

Mano forte (2002), Editorial Alexandria;

Os Doutores. A Salvação e o Menino Jesus (2002), Oficina do Livro;

Raio de Luar (2002), Oficina do Livro.

António José André

Texto da edição em linha do jornal (1999–2003), recuperado das cópias do Internet Archive e do Arquivo.pt.

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