combate

Arquivo da LCI, do PSR e da APSR, secção portuguesa da IV Internacional, e da sua imprensa, 1973–2013

Carta

Eduardo Velhinho · julho de 2003 · Jornal · 438 palavras

Combate, julho de 2003, edição em linha

Polémica no pós-FSP

Eduardo Velhinho , Canadá

As afirmações atribuídas ao prof. B. Sousa Santos quando do Fórum Social Português, segundo as quais « há o risco de pensarmos que vivemos em sociedades politicamente democráticas, quando na prática elas são socialmente fascistas » e « se o voto alterasse alguma coisa, há muito que teria sido proibido », fizeram correr para as barricas os defensores da democracia representativa, ofendidos por tal « heresia ».

Reconhecendo que o sistema político actual tem o seu calcanhar de Aquiles, alguns observadores liberais pretendem que o centro e a direita seriam capazes de reformular a democracia, como pretendia recentemente um guardião do Templo, nas páginas do jornal «Público», não é mais do que lançar poeira nos olhos dos mais distraídos. Os liberais pretendem que o seu sistema representativo é o único que garante aos cidadões a igualdade de oportunidades reais de participação e limita a influência dos mais poderosos. Nada mais falso. Falso porque o sistema de democracia representativa foi pensado justamente para proteger os mais poderosos da sociedade, para manter um equilíbrio político entre as necessidades do modo de produção capitalista e as reivindicações das massas trabalhadoras. Tal como a classe dominante não pode sobreviver sem o seu próprio Estado, da mesma forma ela também não pode passar (em condições normais) sem um sistema democrático, afim de suavizar e controlar os conflitos de classe, e salvaguardar a propriedade e o sistema capitalista dos ataques das massas trabalhadoras.

Pouco preocupados em fazer o balanço da democracia liberal (tarefa penosa e ingrata quando se sabe não há de que se vangloriar de um sistema político baseado na protecção da propriedade e na divisão da sociedade em classes), os nossos liberais recorrem ao impropério. Hoje em dia é comum aos liberais rotularem os seus adversários e inimigos de classe de « populista » ( conceito político batido pela sua utilização excessiva sobretudo por aqueles que desconhecendo o seu verdadeiro valor o aplicam em todas as ocasiões) quando eles metem em causa o funcionamento esse tipo de democracia. Esse recurso demagógico só se explica por desonestidade intelectual e/ou por ignorância do alcance do adjectivo utilizado. Mas a demagogia liberal não se fica por aí. Sabendo-se sob fogo cerrado da contestação de um movimento de massas crescente que não aceita um sistema político falido que engendra corrupção, exploração e rapina, os liberais angustiados, esperam que a esquerda venha ao seu socorro. Desafiam-na a embotar a sua capacidade crítica e criativa, através da sua colaboração no aperfeiçoamento do sistema de dominação política liberal. Cabe à esquerda estar atenta e não se enredar no canto da sereia liberal.

Texto da edição em linha do jornal (1999–2003), recuperado das cópias do Internet Archive e do Arquivo.pt.

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