O protesto e o riso das mulheres de Calcutá
CONTRA A VIOLÊNCIA · Combate, julho de 2003, edição em linha
Jornal2003Inês FonsecaNo dia 9 de Maio passado (aniversário do nascim ento de R. Tagore1) – por toda a cidade de Calcutá realizaram-se espectáculos comemorativos, relembrando as suas canções e poemas.
Mas, neste dia de celebração cultural, também as mulheres se manifestaram contra a cultura da violência de que são vítimas:
"Cultura também significa segurança para as mulheres, não é apenas a dança, as canções, as peças ou os debates, o nível de desenvolvimento cultural de um país é expresso pela condição e dignidade das mulheres. (...) O chefe do governo regional tem como responsabilidade parar esta degradação da cultura do nosso estado. Ele também é ministro da cultura e dos assuntos internos, por isso fazemos este protesto pela segurança das mulheres em frente à sua residência"2.
Referiam-se ao aumento de agressões e abusos contra as mulheres, que se tem verificado em Calcutá. A cidade está a tornar-se mais perigosa para as mulheres. Como se os constrangimentos sociais, que dificultam a participação feminina na vida pública, não fossem já uma forma de opressão suficiente.
Assim, numa sociedade onde se pratica quotidianamente a exclusão das mulheres da vida pública (têm lugares próprios nos transportes públicos, não é suposto passearem-se pelas ruas sem ser para cumprir uma determinada tarefa, não frequentam sozinhas locais de lazer), um pequeno grupo de mulheres (cerca de 35) ocupou as ruas e fez ouvir as suas vozes.
Algumas vestiam saris ou salwar-kameez, usavam o cabelo longo ou curto, traziam malas e até telemóveis; outras vestiam saris, numa das pontas um nó segurava moedas ou bolachas e caminhavam descalças. Algumas, já tinham cabelos brancos e muitos anos de luta pelos direitos das mulheres. Outras tinham o aspecto de meninas (13 / 14 anos) e carregavam os filhos ao colo.
Ocuparam uma faixa de uma das avenidas da sempre congestionada cidade e interromperam o trânsito por vários (breves) momentos. Gritaram as suas razões e exigiram atenção e acções para resolver os seus problemas. Na cidade sobrepovoada, que mais parece um gigantesco formigueiro de seres humanos, ninguém ficou indiferente à sua passagem.
Foram avisadas: não se sabe quando o primeiro-ministro do estado de West Bengal regressará à sua residência. E sentaram-se à espera de serem ouvidas e de receberem uma resposta (em algum momento ele teria de voltar para casa...). Durante toda a manhã gritaram os seus slogans, distribuíram panfletos a quem passava e cantaram.
Do outro lado da rua, estavam os polícias e os seus informadores (pagos). Estes dirigiam-se-lhes perguntando: "- Quem é a vossa leader?", "- Quem são estas mulheres?", "- O que é esta organização?", "- Por favor, ajudem-nos. Nós também temos mulheres e filhos para sustentar!", etc. A meio da manhã, uma das organizadoras do protesto recebeu um telefonema de um colega de trabalho avisando que alguém tinha ligado a informar que ela estava a participar numa manifestação – um dos informadores presentes era seu conhecido. Como resposta, subiu o tom dos slogans gritados e das canções.
A polícia foi alvo de várias críticas: acusam-na de não intervir nos casos de violência e também de os seus agentes serem, muitas vezes, os protagonistas de abusos contra as mulheres. Para passar o tempo, duas delas improvisaram pequenas simulações caricaturando o que estava a acontecer. Numa delas, tratava-se da conversa entre 2 polícias (um no local da manifestação e outro na esquadra): "- Está aqui um grupo de mulheres a manifestar-se. Precisamos de reforços, com urgência!", "- Está bem, quantas são?", "- À volta de 30.", "- Então, vamos mandar 3 carrinhas (cerca de 40 polícias)"... Noutra das simulações, já com o sol a pique, simularam a conversa entre um polícia na manifestação e alguém do gabinete do primeiro-ministro, o polícia chorava e lamentava-se: "- Por favor, digam ao primeiro-ministro para regressar rapidamente a casa, porque nós já não aguentamos mais este calor!"
Perto do final do protesto (cerca das 13.30h) estavam presentes 30 mulheres e 45 polícias (mais de 1 polícia para cada uma!). Não deixa de ser irónico: para quem pedia a eficácia da protecção policial!
Inês Fonseca (texto e fotos)
1 Líder do movimento nacionalista indiano, autor de novelas e peças de teatro, pintor, músico e pedagogo, Rabindranath Tagore (1861-1941) é ainda reconhecido internacionalmente como poeta e o principal escritor clássico bengali. Em 1913 foi-lhe atribuído o Prémio Nobel da Literatura.
2 Panfleto da manifestação, convocada pela organização Maitree (Solidariedade – Frente para as Mulheres e Associações Feministas do estado de West Bengal).
Texto da edição em linha do jornal (1999–2003), recuperado das cópias do Internet Archive e do Arquivo.pt.