Alerta zapatista
México · Combate n.º 283, junho a agosto de 2005, pp. 46–48
Revista Combate2005Ricardo GomesDEPOIS DO primeiro comunicado assinado pelo sub Comandante Marcos, vários outros se sucederam aclarando a posição do EZLN, que termina na Sexta Declaração da Selva Lacandona. Existem, no entanto, imensos factores de análise que nos poderão ajudar a entender este novo passo na luta revolucionária em Chiapas.
Convém exercitar, primeiro que tudo, a memória antes de passarmos aos factos actuais. Comecemos pelos anos de decadência desse partido caciquista que minou os caminhos da política no país, o Partido Revolucionário Institucional (PRI). A aparição do EZLN desgastou finalmente, entre outros factores, as sete décadas de poder onde se havia instalado o PRI. Após anos de diálogos frustrados entre as duas partes e o EZLN apenas conheceu a traição e os ataques cobardes por
paramilitares, indígenas, pagos pelo governo para aniquilar a resistência. Fica-nos sempre a memória de Acteal, uma aldeia onde morreram 45 mulheres e crianças a 22 de dezembro de 1997. Ernesto Zedillo cai derrotado nas eleições de 2000, pelo antigo patrão da Coca Cola mexicana, Vicente Fox, eleito por um partido cuja sigla inspira tudo menos confiança: o Partido da Acção Nacional (PAN).
2001 é um ano importante e que começa a marcar os acontecimentos que nos levam até ao alerta vermelho. Comecemos pela Marcha Zapatista. Os e as comandantes do EZLN, arrastados por uma gigante onda de apoio popular, rumam das montanhas até ao centro de poder do país: o palácio do Congresso. Por um dia, umas horas, os que foram - desde que Hernán Cortez trouxe pela força das armas o capitalismo para
Ricardo Gomes * ilustrações de carla cruz
o continente americano – espezinhados e humilhados entraram num lugar desde sempre fechado aos habitantes do país. Pela voz da comandante Esther, que discursou por representar o mais dos mais humilhados, por mulher e por indígena, ouviram-se as exigências dos povos zapatistas e não só. O Congresso Nacional Indígena (CNI), onde estão representadas todas as culturas pré colombinas mexicanas, deu o seu incondicional apoio ao EZLN. Dentro do congresso faziam-se ouvir as vozes que exigiam entre outras questões, o cumprimento dos Acordos de San Andrés. Nestes acordos estão consagrados os mais elementares direitos das populações indígenas, mais, está consagrada a sua existência oficial! Cá fora, no Zócalo, a enorme praça em frente ao congresso, 500 mil pessoas davam o eco às exigências. Dentro das cabeças dos membros do governo apenas estava a intolerância e a estupidez. Ou seja, a situação dos indígenas fica na mesma, pelo menos ao nível oficial. Ora, a partir de finais de 2001 e perante o autismo dos governantes, o EZLN, declara um silêncio à comunidade internacional. Começava um longo período de reflexão interna nas comunidades. O alerta vermelho é o fim desse processo. Da declaração de 20 de Junho retiramos as seguintes palavras: “... desde meados do ano de 2002, o EZLN entrou num processo de reorganização da sua estrutura político-militar. Esta reorganização interna terminou.”
Que processo terminou aqui? Que acontece presentemente em Chiapas? À parte das extrapolações político partidárias que as próximas eleições no México possam causar, existem factores bem mais importantes. Convém destacar aqui o Plano Puebla Panamá (PPP) impulsionado por Fox. Este plano de faraónicas ambições e proporções está a marcar os acontecimentos pois nele estão expressas enormes ambições económicas e de domínio geo-estratégico. De lembrar as declarações oficiais do governo após a Marcha Zapatista que afirmavam que o cumprimento dos Acordos de San Andrés choca completamente com os interesses do PPP. Agora, que interesses estão aqui?
Desde o estado de Puebla – a sul da capital mexicana – até ao Panamá estende-se toda a área de interesses onde diversas multinacionais têm os olhos postos e que representa cerca de 14% da biodiversidade mundial, ou seja, a seguir à selva ama
zónica o segundo pulmão do planeta. Oficializado o plano pelo Banco Interamericano de Desenvolvimento, braço amigo do FMI que alberga outros amigos como as multinacionais que o promovem: Coca Cola, Monsanto, Novartis, General Motors... Outras amizades se juntam ao banquete como os governos do Japão e a União Europeia, esta última financiando projectos de protecção ao meio ambiente que acabam na expulsão de comunidades zapatistas da reserva dos Montes Azuis. Já se sabe que segundo o ponto de vista empresarial, os índios representam um obstáculo à conservação da Natureza, entendida aqui por interesses económicos. Mas aqui, sobretudo interessa-nos perceber o caso da reserva dos Montes Azuis.
No IV Encontro Internacional de Economistas Sobre Globalização e Problemas de Desenvolvimento, que se realizou em La Habana, Cuba, em meados de maio de 2001, denunciou-se que “as corporações multinacionais, apoiadas pelo Banco Mundial e pelo Fundo Monetário Internacional, controlam mais de 90% das patentes sobre materiais biológicos.” No mesmo também se denunciou o interesse da “Agência de Ajuda Internacional ao Desenvolvimento (AID), na busca de elementos bióticos para o desenvolvimento de armas químicas e biológicas nos Estados Unidos, e de medicamentos que logo são monopolizados pelos laboratórios farmacêuticos.1 Ora, esta reserva tem todos os elementos que interessam às referidas multinacionais atrás referidas...
Pois já percebemos parte dos problemas que o PPP pode acarretar. Então, entrando nos últimos acontecimentos que poderão ter despertado o alerta vermelho zapatista, começamos pela visita de Condoleeza Rice a Chiapas ocorrida no mês de Março. Pois o âmbito desta visita coincide (!) com a descoberta de plantações de marijuana no território dos Montes Azuis. A secretária de estado visita Chiapas para tratar de assuntos relacionados com a segurança nas fronteiras relacionada com o narcotráfico. Fala-se de uma espécie de Plano Colômbia2 e começam a registar-se movimentações do exército mexicano na área. Desde um traçado de toda a zona zapatista, colocando novos quartéis e novas posições, abertura de caminhos e exercícios de patrulhamento e o levantamento dos grupos paramilitares, tudo nos parece indicar que o EZLN pode estar sob ameaça. No segundo comunicado, Marcos esclarece: “...Temos
as condições necessárias para sobreviver a um ataque ou acção do inimigo que acabe com a nossa direcção actual, ou que tente aniquilar-nos totalmente.” Ou seja, o EZLN afirma que está de novo em posição militar defensiva, coisa que não acontecia desde 1994.
Outros factores indicam-nos um aumento da tensão na região. O cancelamento de contas da organização pró-zapatista Enlace Civil acusados de lavagem
de dinheiro, com a cumplicidade do BBVA, colocam o EZLN numa possível situação de ”narcoterrorista” e legitimam acções anti-terroristas. O fortalecimento da fronteira Chiapas Guatemala, a presença de elementos do FBI no mesmo dia 20 de Junho para resolver problemas com máfias centro-americanas levam-nos a pensar o pior. Todos estes indícios levam a crer que o alerta vermelho é uma forma de tentar deter uma possível operação para destruir o movimento. Por isso anunciaram um regresso à clandestinidade.
Pensou-se de início um regresso ao conflito, à guerrilha, mas a Sexta Declaração da Selva Lacandona deixa bem clara as intenções dos zapatistas. Após uma extensa consulta, realizada de baixo para cima, tratando de manter a norma de “mandar obedecendo” o EZLN anuncia um novo passo. Na Declaração estendem uma lista de análises ao neoliberalismo selvagem de como afecta o mundo e o México. Em seguida explicam quais as suas intenções. Nada melhor que as próprias palavras de Marcos para percebermos bem o que podemos esperar da situação:
“ ... e queremos dizer aos irmãos e irmãs da Europa Social, ou seja a que é digna e rebelde, que não estão sozinhos. Que nos alegram muito com os seus grandes movimentos contra as guerras neoliberais. (...)
E queremos dizer ao mundo que o queremos fazer tão grande, tão grande que caibam todos os mundos que resistem por-
que os neoliberais os querem destruir (...)
Bom, pois no México o que queremos fazer é um acordo com pessoas e organizações de esquerda, porque pensamos que é na esquerda política onde está a ideia de resistir contra a globalização neoliberal (...)
E então, segundo o acordo da maioria dessa gente que vamos ouvir, fazemos uma luta com todos, com indígenas, operários, camponeses, estudantes, professores, empregados, mulheres, crianças, idosos, homens, e com todo aquele que tenha bom o coração e tenha vontade de lutar para que não se acabe de destruir e vender a nossa pátria que se chama ‘México’...”
Quer dizer que o novo passo do EZLN é abrir a sua luta ao resto das classes sociais, abrindo assim uma luta que até aqui era indígena. Também esclarece o que foi interpretado como um possível “regresso às armas” quando diz que “ o que vamos fazer no México e no mundo, vamos fazê-lo sem armas, com um movimento civil e pacífico...” Abrirão ainda mais as suas relações com as “organizações que resistem e lutam contra o neoliberalismo...” Afirmam a possibilidade de vir a realizar mais um encontro intercontinental, talvez em dezembro deste ano.
Estão claros então os objectivos do EZLN, estabelecer contactos e alianças com a esquerda combatente, marcando, no entanto a sua posição de não alinhar num esquema partidário ou de toma do poder. Isto deve-se ao enorme desapontamento com os partidos mexicanos, criado pela sabotagem de todos os caminhos institucionais por parte sobretudo da presença do PRI durante mais de 70 anos no poder. Também a desilusão criada pelo Partido da Revolução Democrática (PRD) ajuda a que a descrença no sistema partidário seja maior. Por isso se estão a criar alternativas e no espectro político mexicano, as apresentadas pelo EZLN podem ser bem viáveis. Agora para que tal aconteça temos de dar a nossa parte, porque a luta contra o neoliberalismo se faz no planeta inteiro. Só nos resta então reflectir no apelo à solidariedade emitido e que assim termina:
“E esta foi a nossa palavra simples dirigida aos corações nobres de toda a gente simples e humilde que resiste e se revolta contra as injustiças em todo o mundo.
DEMOCRACIA! LIBERDADE! JUSTIÇA! Desde as montanhas do Sudeste Mexicano...”
* Ricardo Gomes foi observador internacional junto de algumas comunidades indígenas em Chiapas. [email protected]
1- Fonte: http://www.azine.org 2- O Plano Colômbia é uma forma de eliminar a guerrilha colombiana com a desculpa do narcotráfico. Os resultados práticos desta política têm sido a devastação de plantações de coca e ataques do exército contra os camponeses desta região.
as condições necess
para sobreviver a um at
ou acção do inimigo que acabe
a nossa direcção actual, ou que tente aniquila
totalmente.” Ou seja, o EZLN afirma que está de
em posição militar defensiva, coisa que não acon
desde 1994.
Outros factores indicam-nos um aumento da
são na região. O cancelamento de contas da or
zação pró-zapatista Enlace Civil acusados de lav
de dinheiro, com a cumplicidade do BBVA, coloc
EZLN numa possível situação de ”narcoterroris
legitimam acções anti-terroristas. O fortalecimento da
teira Chiapas Guatemala a presença de elementos do FB
Texto extraído do PDF da revista que o combate.info publicou; as citações em destaque e as legendas foram omitidas.