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Arquivo da LCI, do PSR e da APSR, secção portuguesa da IV Internacional, e da sua imprensa, 1973–2013

Rotações da alta roda das artes visuais

Ângelo Ferreira de Sousa · junho de 2005 · Revista Combate · 1.379 palavras

Bienal de Veneza · Combate n.º 283, junho a agosto de 2005, pp. 49–50

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ESTA COMPARAÇÃO não é impertinente, aliás repete-se em várias “apresentações” de vários catálogos, essas notas introdutórias que por tradição (?) estão reservadas aos políticos (ou aos seus assessores), que entre agradecimentos e satisfações, disparam os lugares-comuns que têm mais à mão sobre a importância da arte na sociedade.

Falamos da 51ª Bienal de Veneza, inaugurada no passado dia 12 de junho e patente até 6 de Novembro no cenário ofuscante daquela cidade do Adriático. Cinquenta e uma edições significam 110 anos de história, este ano, pela primeira vez, dirigido por duas mulheres, as comissárias Maria de Corral e Rosa Martínez, ambas do Estado Espanhol. Tal novidade suscitou grandes expectativas de renovação de tão antiga instituição, abalada já pelos achaques típicos da idade. Os dois projectos expositivos que aceitaram comissariar – “The experience of Art” (M. Corral) e “Always a Little Further” (R. Martínez) – apresentam uma selecção de artistas activos desde dos anos 70 aos nossos dias, “com um olho posto no futuro próximo”, segundo a visão optimista do comunicado de imprensa. As exposições que foram organizadas em separado, com esperanças de complementaridade, ocupam dois imensos espaços da cidade. A este quarteirão de milhares de metros quadrados deve ainda acrescentar-se os 70 pavilhões nacionais, a maior participação em número da história do evento.

O director da Bienal é nomeado por uma Fundação homónima e cada participação nacional deve escolher o seu comissário, e este o artista ou artistas que “representarão” o país. Não será estranho constatar que a maioria dos países optam por artistas nacionais, apesar de nenhuma regra impedir que se convidem estrangeiros. Nos Giardini da Bienal concentram-se os 40 pavilhões históricos e permanentes que

foram sendo construídos ao longo da história do evento. As restantes 30 participações nacionais estão dispersas pela cidade, em edifícios normalmente arrendados, como é caso de Portugal, que cada edição mudam e nos quais as condições expositivas são muito desiguais.

Uma curiosa observação poderá ser feita por um potencial visitante: passear no “Jardim das Nações”, admirando apenas a arquitectura dos edifícios. Desde das colunas neoclássicas do pavilhão dos Estados Unidos às colunas nacional-socialistas do alemão, vão desfilando as diversas ideologias associadas ao conceito de nação feitas pedra e estuque, num ambiente festivo que lembra a nostálgica atmosfera do “Portugal dos Pequeninos”. É a este cenário anacrónico que se dirigem milhares de pessoas de todo o mundo para se sincronizarem com as novíssimas propostas da arte contemporânea. Alguns artistas foram contextualizando o seu trabalho a este espaço, este ano o catalão Muntadas lembra, no pavilhão espanhol, alguns dados sobre a Bienal. Os mais distraídos podem então descobrir que os dois países africanos que participam no evento são o Egipto e Marrocos.

A comparação dos Jogos Olímpicos parece-nos assim bem mais pertinente do que a princípio se podia imaginar. Uns jogos também para as empresas que os pagam, que estimulam o doping de alguns artistas, consensos nacionais fabricados segundo determinadas receitas que nem sempre resultam bem. Tudo pode depender da selecção pela qual se corre e das relações que se tenha ou não com o “comité” nacional.

Isto não impede que, por vezes, ocorram alguns interessantes curtos-circuitos. Na última edição da Bienal (50ª) Santiago Sierra fechou o pavilhão espanhol, a todos os não-espanhóis. Vigilantes impediam a entrada aos visitantes que não mostrassem o passaporte correcto, e nem mesmo o director da Bienal pode entrar. Este projecto provocou um escândalo, que chegou a chamuscar o governo de Aznar, a direita espanhola não gostou que a pilhéria, uma clara referência às políticas de imigração do governo, fosse paga com dinheiro público e que representasse a Espanha. A história da Bienal, tal como a história da arte do século XX, está marcada por este tipo de episódios.

Este ano, o “caso”, bastante mais triste, é visível no catálogo da exposição em seis páginas negras. Gregor Schneider, artista alemão nascido em 1969, e vencedor do Leão de Ouro numa anterior edição da Bienal, quis reconstruir o edifício central da grande mesquita de Meca, o cubo negro que significa o local mais sagrado para os muçulmanos, no centro da Piazza de San Marco, ali mesmo, em Veneza. Segundo as palavras do artista, a “recriação” do edifício, um dos mais belos jamais construídos, significaria uma revelação que poderia contribuir a uma aproximação entre visões do mundo aparentemente enfrentadas. O projecto foi sumariamente banido,

nunca chegou a ser montado e a representação gráfica da ideia proibida de ser apresentada no catálogo da Bienal. Nenhuma explicação é dada aos visitantes sobre os motivos de tal censura, e do projecto apenas resta uma projecção vídeo.

As infelicidades desta edição da Bienal não se ficam por aqui. Num aparente pavor de afirmar alguma tese, que pudesse ser confundida ou mal interpretada, as comissárias desiludiram as expectativas criadas. Rosa Martínez, de quem muito se esperava, já que fora duramente crítica com as edições anteriores, foi apenas capaz de construir uma exposição confusa e inconsistente, sem perceptível diálogo entre as propostas dos artistas. Procurou uma paridade entre homens e mulheres, que não pode garantir, por si só, o sucesso da empreitada. De Maria de Corral, possuidora de um currículo de sabor conservador, esperavam-se menos surpresas. As suas escolhas misturam velhas jóias como o conterrâneo Antoni Tàpies ou o falecido Francis Bacon que ficam sempre bem, com jovens quase desconhecidos como os portugueses Vasco Araújo e João Louro. Corral “arriscou” um pouco com estes artistas pouco ou nada consensuais mas assegurou-se com uma concentração de famosos, que seria fastidioso enumerar, digna dos melhores compêndios de arte contemporânea. A sua exposição “The experience of Art” consegue, apesar de tudo, ser mais coerente que a da sua colega catalã.

A Bienal de Veneza, a mais famosa das exposições prova, uma vez mais, a falência do seu modelo, do anacrónico sistema das velhas nações e dos velhos pavilhões, não conseguindo apresentar propostas de solução à crise dos modelos de “exposição”.

No entanto, como sempre acontece neste tipo de colectivas, determinadas participações individuais, conseguem, à margem dos possíveis equívocos dos organizadores, apresentar trabalhos de grande eficácia e qualidade. Seria injusto deixar de salientá-lo. Dos mais de duzentos artistas participantes destacamos três, oriundos de latitudes longínquas dos grandes centros, que podem aqui servir de exemplo de algumas estratégias (micro-)políticas da actualidade das artes visuais.

O artista Chen Chien-jen (Taipei, Formosa, 1960) no longo vídeo “Factory” (2003) apresenta-nos, sem palavras, uma comovedora estória da indústria no seu país, e da crise social do “Made in Taiwan”, iniciada nos anos 90 quando as grandes fábricas começaram a procurar noutras paragens mão-de-obra mais barata.

Regina José Galindo (Guatemala, 1974) utiliza o próprio corpo num confronto desigual com a repressão silenciosa e asfixiante do seu país. Nas suas performances (registadas em vídeo) deparamo-nos com situações limite, de carácter muitas vezes auto-destrutivo. No vídeo “Quem pode apagar as marcas?”, vemos a artista manchar as entradas de edifícios públicos, com os pés sujos de sangue humano. A surpresa e falta de reacção dos polícias remete-nos para a impune omissão das instituições perante os dramas da sociedade guatemalteca. País onde, e apenas no ano de 2004, foram assassinadas 394 mulheres.

No pavilhão do Instituto Italo-latino americano, reúnem-se as participações de 11 países da região, que de outra forma ficariam sem representação. É aqui que podemos encontrar o vídeo “Bocas de Cinza” (do colombiano Juan Manuel Echavarria (Medellín, 1947). A acção está localizada na foz do rio Magdalena, o rio mais importante da Colômbia, onde confluem as águas de vários outros rios que cruzam o país. Durante os longos anos da violência militar, que duram até hoje, também confluíam neste ponto os cadáveres de muitos colombianos, assassinados por alguma das partes enfrentadas na guerra civil. Echavarria limita-se a registrar uma tradição local, a das canções de relatos pessoais. Durante 17 minutos vemos as caras do sofrimento e ouvimos as cruéis ladainhas das suas histórias de vida, canções escritas e compostas pelos próprios. Um jovem negro albino explica como sobreviveu a um “erro” das FARC que dispararam uma arma atroz conhecida por “pipeta de gas” sobre uma igreja provocando a morte a 119 pessoas, das quais vários dos seus familiares. As restantes seis canções contam outras tantas tragédias do dia-a-dia colombiano.

* Ângelo Ferreira de Sousa é artista visual [email protected]

Regina José Galindo, Quien puede borrar las huellas, 2003

Performance. Photo Vitto

Texto extraído do PDF da revista que o combate.info publicou; as citações em destaque e as legendas foram omitidas.

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