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Arquivo da LCI, do PSR e da APSR, secção portuguesa da IV Internacional, e da sua imprensa, 1973–2013

A louca ameaça de Estaline

João Carlos · março de 2005 · Revista Combate · 618 palavras

Filipinas · Combate n.º 282, março a maio de 2005, pp. 50–51

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Texto de João Carlos * ilustração de nuno costa

EM 7 DE DEZEMBRO de 2004, a direcção do PCF, faz publicar no seu órgão central, Ang Bayan um “diagrama dos grupos contra-revolucionários” nas Filipinas e das suas supostas ligações internacionais, fornecendo uma lista de 15 nomes entre os quais Walden Bello e Lidy Nacpil, dirigentes das campanhas contra a guerra, a mundialização capitalista e pela anulação da dívida externa. Pela primeira vez, a política de violência e de assassinatos é estendida a todos os grupos políticos progressistas que não pertencem ao bloco pró-PC, qualificados como “inimigos de classe”, invariavelmente “social-democratas” ou “trotskistas”. Até então a direcção estalinista tinha aplicado este esquema aos grupos dissidentes do próprio PC e durante muitos anos as vítimas eram antigos quadros comunistas, membros de organizações revolucionárias clandestinas. Em Janeiro de 2003 é assassinado o primeiro dirigente na legalidade. A ameaça estende-se agora a toda a esquerda filipina e não só à sua ala comunista dividida. Duas das 15 pessoas indicadas no diagrama do Ang Bayan, foram já assassinadas, as outras correm evidente perigo de vida. Por outro lado, o facto do presidente do PCF, José Maria Sison, dirigir a Liga Internacional de Luta dos Povos pode significar que este esquema “revolucionário/contra-revolucionário” venha a ser aplicado a nível internacional, no seio de movimentos de massas. À divergência política tratada como crime é aplicada uma suposta “justiça revolucionária” na qual o único juiz é simultaneamente carrasco e executor. A direcção do PCF, iluminada pela clarividência, fornece aos seus militantes e apoiantes uma lista de alvos a abater, de vidas que não merecem viver por supostos actos de traição e de actividades contra-revolucionárias. A loucura sectária sobe perigosamente de nível quando todas as organizações políticas e sociais do país, fora do campo da sua influência, são transformadas em inimigo. À divergência política corresponde invariavelmente uma pena de morte e uma licença para matar a todos os militantes da enfurecida organização. Não, não estamos nos anos 20 ou 30 do século passado. Estaline já morreu e poucos defendem o seu nome, mas na Filipinas a esquerda vive o seu pesadelo.

*João Carlos é editor da revista Combate. [email protected]

Nos últimos anos um grande número de movimentos e de diferentes organizações convergiram, ultrapassando as suas diferenças, para enfrentarem conjuntamente a mundialização neoliberal. Todavia, estamos muito preocupados pelo facto de haver ainda certos grupos que respondem às divergências políticas com ataques físicos e ameaças de morte. A situação nas Filipinas oferece um exemplo recente: O departamento Internacional do Partido Comunista das Filipinas (PCF) quali- ficou de “contra-revolucionários”e de “agentes do imperialismo” uma série de pessoas – nomeadamente intelectuais e militantes como Waldem Bello ou Lidy Nacpil – e organizações envolvidas, através de diferentes formas de luta, no combate contra o militarismo e o capitalismo mundializado. Algumas das pessoas nomeadas nesta lista foram já assassinadas e a experiência mostra que ela constitui uma ameaça credível de assassinato. Consequentemente, nós que estamos reunidos aqui, no seio do Fórum Social Mundial em Porto Alegre, e outros que pelo mundo, inspirados pelo carácter pluralista e inclusivo deste processo global, não podemos agir como se o problema colocado fosse apenas local, no momento em que a segurança de militantes está em causa. Nos esforços para construir com consistência um movimento internacional de transformações fundamentais, reafirmamos firmemente que a resolução de divergências políticas deverá fazer-se pelo confronto das ideias e pelo diálogo democrático, e nunca por uma política de assassinatos individuais. Apelamos, no seio dos movimentos pela justiça global, a reafirmarmos este princípio e a exprimir a nossa solidariedade a todos os que são vítimas de tais ameaças.

Assinam, entre outros, Naomi Klein, Susan George, Tariq Ali, Francis Wurtz, João Pedro Stedile e Pierre Rousset

Texto extraído do PDF da revista que o combate.info publicou; as citações em destaque e as legendas foram omitidas.

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