Sexualidade e feminismo
Combate n.º 282, março a maio de 2005, pp. 27–30
Revista Combate2005Ana CamposA SITUAÇÃO de subalternidade das mulheres na sociedade determinou que a sua sexualidade fosse ignorada e que só na 2ª metade do século XX - em particular durante e após a 2ª vaga do feminismo a sexualidade feminina fosse encarada como existente e algo de diferente da sexualidade masculina e fosse objecto de estudos, embora incomparavelmente diferentes em número e divulgação ou até em investimento, se os compararmos com estudos sobre a sexualidade masculina.
É importante que se estabeleça esta ligação entre sexualidades e feminismo. Foi a afirmação da importância do debate acerca da situação da mulher na família e na sociedade
iniciado dentro das correntes feministas a partir dos anos 60, que passou pelo questionar daquilo que era até então o escuro sobre a sexualidade das mulheres e entre mulheres e que se alargou à sociedade dando razão à palavra de ordem “o pessoal é político” que contribuiu para que estas questões tivessem, mais cedo ou mais tarde que ser encaradas pelo poder. Mais tarde, também nas correntes LGBT a afirmação do direito à diversidade contribuiu para questionar normas até aí inabaláveis.
Começaria por algumas questões que se nos colocam, a primeira das quais será sobre o significado, do que é a sexualidade.
Ana Campos * ilustração de carla cruz
A resposta a esta questão começou por ser dada por aquilo a que se chama modelo essencialista ou biomédico. Segundo este modelo a sexualidade seria um acto biológico puro, uma necessidade biológica, com participação hormonal, endócrina, fisiológica; não se encarava a sexualidade como autónoma e diferente da do homem, apenas era modificada por contextos hormonais variados e variáveis, que justificavam diferenças de comportamento masculino e feminino. A dominância masculina seria explicada por uma maior agressividade que proviria dos androgénios. A centralização da sexualidade na actividade coital e no desempenho masculino, também fruto de hormonas, dava à mulher o papel passivo, submisso e passou à margem daquilo que é na sexualidade e em particular na sexualidade feminina, um aspecto essencial: a partilha, o afecto, a comunicação emocional. O modelo construcionista surgido nos anos 70 procura encarar e explicar a sexualidade como o resultado da experiência de indivíduos em contextos relacionais, sociais e culturais que serão inevitavelmente múltiplos, que têm um papel tão ou mais importante que o contexto biológico.
A segunda questão reside em saber se os comportamentos sexuais terão modelos universais e para quem não os seguir terá de haver uma explicação biológica, psicológica e social ou, pelo contrário, se haverá uma distinção entre sexo e características de género que podem não ser coincidentes com os hábitos ou normas sociais e serão mais explicadas por in- fluência da cultura sobre a sexualidade e sobre normas de comportamento social.
Mães e prostitutas: O dever e o desejo
Falar sobre a expressão da sexualidade feminina obriga a uma passagem que terá de ser aqui breve sobre o que a história e a antropologia têm investigado. Através da história, a sexualidade das mulheres foi silenciada, desconhecida, ou vista como algo de perigoso e de destruidor para os homens.
Para a religião havia dois tipos de mulheres: as mães e as prostitutas. As primeiras não tinham desejos, mas o dever de manter a descendência; as segundas só teriam desejos e o seu objectivo era alienar o corpo e a alma dos homens. Foi este dualismo que se manteve na Idade Média até à época vitoriana. No século XIX as mulheres, tidas como incapazes de desejos sexuais, eram orientadas sexualmente pelos homens. Sarah Ellis dizia que uma mulher sem o amor de um homem era uma coisa perdida.
O mito da inocência e da castidade feminina contrariava qualquer desejo ou prazer nas mulheres, que não fosse o de aprender a satisfazer o seu marido. Qualquer ultrapassagem era lascívia.
As amizades entre mulheres eram toleradas e aprovadas pois daí não poderiam passar, já que a sexualidade de e para as mulheres era algo considerado inexistente. As mulheres virtuosas desconheciam tudo acerca da prostituição, que era um mal necessário para que os homens pudessem dar largas à sua imaginação e fantasias sexuais.
As mulheres passavam as suas vidas grávidas, a amamentar, a recuperar de abortos e a morte por parto era o destino de muitas. A forma de fugir a esta tortura era a castidade. As vozes femininas que ousavam afrontar este destino eram severamente punidas: Olympe de Gouges que na Revolução Francesa apelou em vão às mulheres para que lutassem pelos seus direitos e contra a sua exclusão, teve com destino a guilhotina.
Medicina, poder e moral contra as mulheres
A contracepção de que se começava a falar em finais do século XIX e que era essencialmente dirigida aos homens, através do uso de preservativos, era caluniada por médicos e homens da Igreja; no prestigiado jornal médico “Lancet”, ainda hoje uma referência médica mundial, afirmava-se em 1869 que as mulheres que aceitavam o uso de preservativos se colocavam em lugar igual às prostitutas.
A Medicina sempre esteve ao lado de poderes e normas morais instituídos, que no contexto europeu foram ditados pelas ideologias das Igrejas: o onanismo, ou coito interrompido, punido com pena de morte na Idade Média e considerado uma perversão sexual, era considerado por médicos como causador de doenças graves e de ninfomania. A Medicina condenou igualmente a masturbação, a homossexualidade, o aborto e todos os métodos de controle da fertilidade. Apelidava de histéricas e ninfomaníacas as mulheres que desafiavam as normas de castidade e do prazer e tratava-as extraindo-lhes órgãos que considerava responsáveis por essas doenças: a excisão de clítoris, de ovários e úteros eram práticas comuns e descritas em jornais médicos como terapêuticas votadas ao êxito. Quando a cirurgia não resolvia o caso preconizava-se o internamento em asilos psiquiátricos.
A Revolução industrial e as duas guerras mundiais no século XX tiveram como consequências para as mulheres a sua saída de casa, o início de uma independência económica, o progredir na formação profissional. Mas mantêm-se os estigmas para as que ousavam afirmar a sua autonomia.
A investigação hormonal e o isolamento das hormonas sexuais femininas e masculinas foram o prelúdio da descoberta da contracepção hormonal, nos anos 50; psiquiatras e sexologistas pronunciavam-se sobre excessos sexuais das mulheres, que eram encarados no sentido de uma diminuição da feminilidade. As investigações de Kinsey nos anos 50 e de Masters e Johnson nos anos 60, iniciaram estudos científicos e a descrição do comportamento sexual vieram dizer algo até aí impossível de pensar; apesar de os seus estudos serem criticados por serem feitos em número limitado de casais, brancos, da classe média americana, foi possível afirmar que as mulheres tinham orgasmos múltiplos.
Os estudos antropológicos de Malinowsky, Weeks e Margareth Mead sobre comportamentos de mulheres e homens na 2ª guerra mundial começam a evidenciar que traços de carácter atribuídos ao género são condicionados socialmente.
Uma nova consciência
A história das mulheres no século XX revê-se e ganhou com o avanço da contracepção: as mulheres puderam pensar na sexualidade e prazer desligados da fertilidade. Estas descobertas contribuíram mais do que tudo para o avanço das consciências das mulheres; permitiram que pudessem encarar o seu futuro pessoal e profissional a par da vida afectiva, o que contribuiu para a autonomia e consciencialização do desejo e sexualidade femininas.
As lutas sociais vividas na 2ª metade do século XX de que o feminismo foi um expoente significativo, contribuíram para que as mulheres se questionassem e questionassem o seu papel na sociedade e na família.
Apesar das diferentes correntes que atravessaram e atravessam o feminismo, foram colectivos feministas que permitiram enquadrar na sociedade não só as lutas pelo alargamento e divulgação da contracepção e pelo direito ao aborto, e que mais contribuíram para que se questionassem os mitos da sexualidade feminina. Mesmo no campo da sexologia que é ainda pertença de médicos e de psicólogos têm sido trabalhos
de feministas que têm posto a nú aquilo que é ainda a actual tentativa de explicar desvios da norma como distúrbios ou anomalias e que têm posto em causa a explicação da sexualidade feminina como contraponto ou simétrica da sexualidade masculina e que mais têm denunciado os interesses da indústria farmacêutica na medicalização da sexualidade.
Os estudos da sexualidade baseiam-se em modelos biomédicos de padrão masculino e ignoram a influência que normas sociais têm sobre as sexualidades, em especial a sexualidade feminina; a visão feminista e dos movimentos gay lésbico chamaram a atenção para a influência da ideologia e do poder nos comportamentos sexuais. O sexo não é uma função apenas biológica; é atravessado por questões que a sociedade cria e que colocam a sexualidade na centralidade das relações inter-pessoais; e sobre tudo isto, as pessoas têm desconhecimentos, dúvidas e pretendem informações.
O casamento, que passou de um contrato económico de sujeição das mulheres, para um encontro de intimidades, de afecto e companheirismo, tendo como meta o sucesso e a felicidade, torna centrais as questões sexuais; mas sendo para muitos a sexualidade uma questão privada, a falta de informação e debate público é ainda inexistente. Até aqui, a normatividade provinha de padrões morais; no século XIX e XX a autoridade sobre o tema passou para a Medicina; tudo o que não é norma é considerado como desviante ou anormal, no sentido de patológico. Essa normalidade é aferida pelo coito heterossexual e as pessoas encaram-na de acordo com as normas sociais e avaliam-se e são avaliadas por comparação com os outros. A sociedade de informação na sua ânsia pela captação de audiências ou leitores, informa sobre o que deve ser bom sexualmente e socorre-se de especialistas sociais que substituem os padres de outrora.
Um modelo que perdura
A sexualidade e o comportamento sexual fazem-se em interacção entre o indivíduo e o meio; aqui, a cultura, a educação, a classe e estatuto social, a etnia definem uma identidade entre sexo e género, o que está bem e mal, de acordo com as normas sociais. Mas nem sempre existe harmonia entre o que é a norma social e o comportamento ou desejo individual. E o que era antes o pecado, passou a ser agora considerado anormalidade
A resposta sexual feminina é ignorada; nada se descreve sobre emoção, comunicação, atracção, segurança, respeito,
sensações corporais extra-genitais, contracepção e influência na sexualidade, sexualidade na gravidez, o envelhecimento, a sexualidade entre o mesmo sexo, etc. A decisão de iniciar ou não uma relação sexual, associada ou não ao grau de satisfação que anteriormente manifestaram são questões a ter em conta na sexualidade feminina que os modelos tradicionais de resposta sexual não contemplam.
As questões relacionadas com o desejo são apresentadas como se pudesse haver um traço de igualdade entre o desejo masculino e feminino; factores sociais interiorizados de culpa e vergonha, pelo desejo que era socialmente atributo masculino, podem estar na génese de perturbações; mas são essencialmente as diferentes relações de poder, a deficiente divisão de papeis na família e problemas educacionais e culturais que colocam a mulher em posições secundárias, que são responsáveis por estes problemas sexuais. Quando se pretende abordar as perturbações da sexualidade não se tem em conta a diferença entre a sexualidade feminina e masculina e desigualdades de género que têm resultados na resposta sexual; Leonor Tieffer(1995) questiona mesmo se homens e mulheres quererão o mesmo tipo de sexualidade; segundo Félix Lopez (1999) a incapacidade de comunicação e afecto masculinos estão na génese da insatisfação sexual das mulheres.
O objectivo dos encontros sexuais ser a penetração ou o orgasmo é ainda hoje considerado como o culminar da sexualidade e o questionamento do que pode ser a sexualidade quando não existe pénis, como no caso da sexualidade entre lésbicas é ainda um fantasma que passa por muita gente.
O mito e o culto da virgindade em termos médicos continua patente no conceito de penetração - pode ter-se a actividade com os genitais que se quiser, mas a mulher é considerada virgem se não tiver havido penetração do hímen pelo pénis. O controle social da sexualidade que se traduz pela maneira como nos expressamos para descrever a sexualidade feminina está cheia de conceitos que só são aplicáveis à sexualidade masculina; falta uma linguagem da sexualidade das mulheres e entre mulheres; a forma de representação dos genitais femininos é a negação daquilo que é a sexualidade feminina; nos livros de texto e de ensino sobre a anatomia dos genitais está representada a vagina, o útero e os ovários, que serão os órgãos da fertilidade das mulheres, mas nunca está assinalado o clítoris, que é o órgão genital de excitação e prazer feminino. A educação sexual tem de ter em conta a especificidade feminina, a explicação de técnicas de masturbação e de erotismo,
o papel do clítoris na sexualidade, os direitos reprodutivos, os direitos das relações do mesmo sexo, a eliminação da violência e do abuso sexual.
Escolher e acabar com o estéreotipo
Uma educação baseada na auto-afirmação abolirá a passividade e permitirá que a mulher possa fazer as suas escolhas sexuais sem imposições de normas ou conceitos sociais.
A 1ª questão que as feministas colocam será ainda - o que é a sexualidade, o que significa sexo, como, com quem e com que consequências para quem?
Embora as diferentes correntes feministas possam ter diferenças em relação à sexualidade feminina, parece assente que para a libertação social das mulheres é necessário acabar com os estereótipos de género. Sendo o género uma construção social, tal como afirmava já Simone de Beauvoir em 1949 - “não se nasce mulher; tornamo-nos mulheres”. Sejam quais forem as divergências entre feministas, é ponto de convergência um maior empenhamento dos homens nas tarefas com os filhos, a necessidade de uma partilha do público e do privado e a aceitação da homossexualidade como escolha com igualdade de direitos.
Mas sendo hoje já possível separar na sexualidade o prazer da fertilidade, pode como fazia Júlio Machado Vaz, perguntar-se ainda hoje : o que é sexo a mais; haverá sexo a mais?
E se ligamos a sexualidade feminina à intimidade, sensualidade, afectividade, será que todas as mulheres se revêem nestes conceitos? Helen Kaplan, a mulher que introduziu a fase do desejo na resposta sexual, defendia que as mulheres, tal como os homens, eram capazes de apreciar relações sexuais transitórias.
Isto mostra que vivemos numa sociedade demasiado próxima da que questionamos e mesmo que as feministas ponham em causa os mitos da sexualidade feminina, e tenham abalado o poder patriarcal, muitas das decisões e escolhas trazem arrastados sentimentos educacionais e culturais e implicam roturas constantes que se vão fazendo ao longo da vida.
* Ana Campos é ginecologista com mestrado em Sexologia [email protected]
Texto extraído do PDF da revista que o combate.info publicou; as citações em destaque e as legendas foram omitidas.