Primeiro Acto
Guerra · Combate, fevereiro de 2003, edição em linha
Jornal2003João CarlosNo início de Agosto de 1990, o Iraque ocupava militarmente extensas áreas de território do vizinho Koweit. Na origem do conflito estaria o interesse do regime de Saddam Hussein de controlar as importantes reservas de petróleo koweitianas, de forma a reequilibrar a sua própria condição económica, fragilizada por uma guerra de oito anos com o Irão. O ditador de Bagdad fazia o primeiro movimento para a primeira "Guerra do Golfo", inaugurando a época em que hoje vivemos ainda: a de um imperialismo unipolar, dos Estados Unidos como polícia do mundo, das guerras mediatizadas ao absurdo com o desembarque das tropas terrestres acompanhado em directo, com a ilusão dos acontecimentos em tempo real, com a CNN, do quarto de hotel, a simular informação para consumo do mundo.
A 15 de Janeiro termina o prazo dado pela ONU para a retirada das tropas iraquianas. No dia seguinte começam os bombardeamentos da aviação "aliada". Só nas primeiras horas são despejadas sobre Bagdad cerca de 18 mil toneladas de explosivos – uma capacidade destrutiva maior do que as bombas lançadas em Hiroxima ou Nagasaki.
A "Operação Tempestade no Deserto" juntou os mais de 400 mil soldados americanos na região a outros que compunham as chamadas "forças aliadas". Portugal participou discretamente com o envio de uma fragata de reconhecimento e equipamento NQB (nuclear, químico e bacteriológico) especialmente adquirido para a ocasião. A política do governo americano de Bush/pai determinava a operação militar (beneficiava dela para distrair os eleitores da difícil situação económica interna), a Europa comunitária seguia-lhe as passadas protegendo os seus próprios interesses económicos nas petrolíferas da região, as Nações Unidas assinavam de cruz.
O regime de Saddam tinha sido armado nos anos 80 pelos EUA e pelas potências europeias que agora o atacavam. Na altura, eram os aliados contra o Irão, nomeado inimigo público número um dos EUA e portanto, do mundo. Forneceram-lhes armas químicas e convencionais, desenvolveram a indústria iraquiana da guerra. Portugal chegou a vender armas às duas partes da contenda. Em plena guerra, Irão e Iraque embarcavam armas, lado a lado, no porto de Setúbal. Na época, dificilmente se poderia chamar "humanitário" a semelhante pragmatismo do governo português. Das atrocidades dessa guerra chegaram poucas reportagens, dos seus milhões de mortos e deslocados, da utilização das armas químicas ali ensaiadas a benefício da indústria internacional de armamento, pouco ou nada se soube. O primeiro governo de Cavaco alinhava com a NATO, cedendo a base militar das Lages e assegurando uma participação simbólica nas forças aliadas. O jornal "Público" fazia a apologia da guerra pela pena do seu director, Vicente Jorge Silva. A RTP no momento dos bombardeamentos de Bagdade referia a cidade mártir de... Telavive, onde um míssil iraquiano tinha feito 4 mortos civis. O petróleo do Golfo Pérsico representava dois terços das reservas mundiais, 67% das importações de ouro negro feitas pelo Japão, 50% pela Europa ocidental e 27% pelos EUA. A soberania do Koweit - um dos países mais ricos do mundo, cerca de 1/5 do território de Portugal, com 2 milhões de residentes, 825 mil kowietianos e 85 mil pessoas com direito de voto, partidos e manifestações proibidas, censura instituída pela oligarquia que há duzentos anos dirigia o país, com o parlamento suspenso de funções desde 1986 – era transformada no móbil de uma guerra em que os EUA impunham a nova ordem mundial depois do fim da guerra fria e da lógica bipolar, tornando claro quem mandava no mundo. De caminho, asseguravam o controlo geo-estratégico da região e, sobretudo, das reservas de petróleo.
1991 foi um ano em que a história andou depressa. Por cá, Mário Soares começava o seu segundo mandato no Palácio de Belém, depois de uma campanha demasiado morna e onde a direita não conseguiu um candidato para além de Basílio Horta. Cavaco preparava a sua segunda maioria que viria a obter em Outubro, nomeava Ferreira do Amaral como ministro das Obras Públicas, ignorava os trabalhadores em luta por uma lei de 40h de trabalho e preparava o aumento de propinas no ensino superior o que viria a motivar um grande e longo movimento de contestação estudantil. Em Monsanto terminava em condenação o julgamento dos skinheads que assassinaram José Carvalho.
José Magalhães e Jorge Lemos demitiam-se do PCP que em Agosto seria o único partido comunista europeu a apoiar, pela voz de Vitor Dias, a tentativa de golpe em Moscovo. Mas antes, já a Perestroika agonizava e a resposta do regime de Gorbatchev era a da concentração de poderes e da repressão, nomeadamente na guerra que se iniciava na Lituânia e restantes províncias bálticas.
Voltando ao Golfo, a guerra foi curta e em dois meses o exército iraquiano estava derrotado. Os EUA sofrem apenas 24 baixas. Os efeitos secundários do armamento utilizado, nomeadamente de urânio empobrecido, só agora é que vão sendo visíveis e devastando a vida de milhares de milhares de soldados desta guerra de 1991. Mas ao ditador Saddam foi permitido continuar com o seu regime. Os aliados não tinham nenhuma opção política, nenhum fantoche para instalar no poder de Bagdad, em seu nome. O velho ditador, antigo aliado e actual inimigo teria de servir, mais uma vez, os interesses de quem impunha, pelas armas, as regras do jogo. Com efeito, Saddam recebia autorização das forças americanas para levantar os seus aviões para reprimir a revolta dos curdos no norte do país. As populações (não só curdas) que acreditaram nos apelos de George Bush para se revoltarem contra a tirania do regime eram agora atraiçoadas pelas forças de ocupação que preferiam apostar no poder de Saddam do que num processo de emancipação que seria demasiado perigoso que alastrasse na região.
O resto da história, todos conhecemos. Saddam manteve-se inamovível no seu poder. Os aliados, mantiveram controlo militar sobre o território e decretaram sanções económicas, atingindo em primeiro lugar a população civil, que deixaram os hospitais sem medicamentos, as crianças sem leite, o país exausto e subnutrido. O petróleo continuou a jorrar para os bolsos já a abarrotar das companhias americanas. A Europa continuou a contentar-se com as migalhas.
João Carlos
Texto da edição em linha do jornal (1999–2003), recuperado das cópias do Internet Archive e do Arquivo.pt.