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Arquivo da LCI, do PSR e da APSR, secção portuguesa da IV Internacional, e da sua imprensa, 1973–2013

“Portugal, o medo de existir”, de José Gil

Cecília Honório · junho de 2005 · Revista Combate · 4.393 palavras

A propósito de... · Combate n.º 283, junho a agosto de 2005, pp. 18–23

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Cecília Honório* ilustrações de nuno neves

1. Espaços do “Escrito”

Portugal Hoje, o Medo de Existir é uma obra classificada pelo autor de forma aberta. Nem obra de ciência feita, nem mesmo um ensaio com todos os requisitos do figurino. Mas o vulgo habituou-se a lidar com este ensaio, que é um “escrito”, segundo José Gil.

O ensaio tem por objecto o que os historiadores chamam de “mentalidades”, recorrendo a apontamentos etnográficos, a factos e anedotas, a conceitos da psicanálise, da filosofia, da ciência política1. Mas a tentativa de recriação tendencialmente filosófica de algum espólio da psicanálise é a sua marca mais visível.

Daquela pluralidade instrumental, o que ressalta é esse esforço de abordagem da psique nacional, essa espécie de proposta psicoterapêutica a partir do inconsciente do “português” metamorfoseado em bloqueios que anestesiam as consciências, que entopem o presente. É uma abordagem acrescentada pela volúpia de uma escrita que anestesia incompletudes e parece saciar umas tantas fomes sobre as patologias desse eventual “eu” colectivo.

Uma das maiores vantagens do “escrito” de José Gil será, sem dúvida, a conversão em senso comum de conceitos e operações que saltam das tradicionais muralhas da dita ciência, cumprindo o que é esperável do trajecto do conhecimento científico pós-moderno2 . Se um texto que operacionaliza conceitos sobre os séculos XX e XXI como, “inscrição/ não-inscrição”, “nevoeiro” (como forma de consciência), ou “duplo esmagamento” se torna um bestseller, temos todos a ganhar, a começar naturalmente pelo autor.

Até há pouco tempo, o livro tinha vendido 44 mil exemplares e era o segundo livro mais vendido do ano em todas as lojas FNAC, pulando sobre títulos, aparentemente bem mais apetitosos. E quando um ensaio de um filósofo se converte num bestseller quase tudo pode ser questionado, a começar pelas impressões de quem o leu.

Há os calorosos, os que vêem no texto a incisão da análise sobre os problemas fundamentais do país e que encontram nele muitas respostas, que se sentem saciados com a leitura. Há os frios, os que lêem o livro como um conjunto de banalidades bem escritas, ou como uma obra oportuna, mas super- ficial, que aproveita da conjuntura deprimida da nação. Há, ainda, os mornos, os que vêem com bons olhos o contributo, mas apontam rapidamente o que falta. Há, também, aqueles que compram o livro, mas não o lêem, por múltiplas razões, mormente a da perda de interesse.

O ensaio de José Gil foi feito para ganhar espaço nos escaparates da nação. A forma como foi mediatizado, o lugar de honra nos palcos da especialidade, todo o suporte de lança-

mento, antecipavam um consumo alargado.

Mas o sucesso deste livro aduba-se de um consistente escolho da história cultural portuguesa: José Gil é um “estrangeirado” e, se é um “português”, é de “lá fora”, desse mundo da “civilização”, que olha Portugal. Este “outro”, que não deixa de ser um de “nós”, podia ter - como o padre, ou mais recentemente, os médicos em geral, os técnicos de saúde mental, em particular - esse lugar de autoridade de quem está dentro e fora o que abrigaria a esperança da cura. Assim se gera um dos equívocos do texto: qual é o lugar que o filósofo se atribui como “português”? Como é que pode estar à “janela” a ver-se passar?

Li a primeira edição da obra, mas resisti à sua aquisição por ter encontrado boas razões para me situar nos aderentes mornos:

— porque achava insuperável um outro texto de José Gil, Salazar: a Retórica da Invisibilidade;

— porque tinha, em tempos, consumido o suficiente de Arno Gruen a Élisabeth Badinter para achar que a abordagem era menos inovadora do que prometia;

— porque parte das preocupações apresentadas não são novas, nem para os filósofos que, como Eduardo Lourenço, já as tinham catado, nomeadamente nas leituras sobre as “nossas” relações com o “lá fora” e com o tempo3.

Faltava ao texto tempo, faltava-lhe história, faltavam-lhe sujeitos. Faltava-lhe muita coisa quando se comprometia com as “mentalidades” esse ardil disciplinar que não coabita nem com o tempo breve nem com a ausência de todas as arqueologias. A suspeita engrossava quando José Gil, questionado por Maria João Avillez sobre a componente histórica das suas análises, respondia mais ou menos isto: que a coisa tinha o seu tempo, que sim, que já tinha falado com Mattoso, que dizia que a coisa vinha de longe...

Faltava ao texto a referência dos locais e agentes de produção e de reprodução sob o risco de pouco mais fazer do que tirar a temperatura à natureza do “português”. Salvaguardada a abordagem do salazarismo, o texto desconhece o papel das ideologias, as travessias da cultura, os lugares do poder.

Qualquer português prevenido começará por perguntar ao “Portugal Hoje”: mas somos todos assim?, tornámo-nos assim, quando? Já éramos assim no tempo do Afonso Henriques? E o Afonso Henriques, como rei, contribuiu, ou não, para sermos assim? José Gil não responde, mas pergunta: teremos sofrido um “trauma inaugural” que atravessa a história e que nos ‘fez assim’?4

Mas não é tanto do lado da história quanto do lado dos efeitos “psíquicos” potenciados pelo texto que podem surgir as primeiras dúvidas. Das duas uma: ou a análise oferecia o reconhecimento do “outro” (“o português” é assim, mas eu não, estou safo), ou a identificação do “eu” (bolas, eu também sou assim). Mesmo na optimista segunda hipótese, sobra a dúvida se os efeitos da acomodação não serão os mais esperáveis, ou seja, já que somos assim e estes são os nossos problemas, só temos de conviver melhor com a realidade, sem necessidade de matar pai e mãe.

Mesmo que se adira calorosamente a este divã filosófico, não se perdoam as ausências sobre a extensão do “desfalque narcísico” nacional e não se percebe, por exemplo, que não tenha dado almofada ao donjuanismo como forma de vida. É

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que José Gil explicará o burgessismo, localizará a inveja como um sistema, não ignorará a pluralidade de despotismos que se instalaram nos quotidianos, mas passará ao lado da manipulação e da conquista que pastam nos lugares do pequeno ao grande poder.

Mas este texto, de malha tão aberta que, como os horóscopos, garante sempre alguma forma de reconhecimento, não deixará de, em qualquer circunstância, ser uma provocação e, sobretudo, não podia ter colhido melhores ventos:

1. o santanismo deixou-nos estupefactos e “esmagou-nos triplamente” (depois do guterrismo, do barrosismo);

2. os militantes da vida do país, ou da sua, estão potencialmente deprimidos e querem perceber porquê, como é que isto tudo aconteceu e como é que se pode sair da exaustão;

3. a comunicação social - e o caminho vulgar da conversão do conhecimento em coisa do senso comum - foi banalizando conhecimentos da psicologia, da psicanálise, criando novos apetites, naturalizando e criando realidades;

4. no mesmo sentido, quando as depressões e as perturbações bipolares se tornaram o pão nosso de cada dia, é compreensível que a pesquisa de uma espécie de mal-estar psíquico nacional possa colher;

5. quando a economia, a sociedade, a política vivem de diagnóstico de doenças crónicas e incuráveis, faz sentido que se deseje ver a cura num outro lugar da condição humana;

6. quando a política é consumida como essa incapacidade de mudar a vida das pessoas, as razões metapolíticas ganham espaço.

2. ENTRE A “RETÓRICA DA INVISIBILIDADE” E O “MEDO DE EXISTIR” Embora José Gil pareça investido na localização de um sujeito, “o português”, a leitura não confia na individuação. O português é qualquer um e, nessa condição, é representativo de todos. Por mais que o “escrito” se resguarde na potencial modéstia e pluralidade instrumental, não deixa de ser uma pesquisa sobre a identidade nacional e, se reportada ao cam-

po das mentalidades, como é intenção anunciada, configura atitudes mentais instaladas. Algumas delas, no entanto, serão produtos recentes, razão pela qual o ensaio começa com a questão da “televida”.

“É a vida”, afirmação de um qualquer apresentador da RTP, é lema do ambiente mental em que vivemos. A afirmação serve para introduzir aquele que é o nódulo do nosso quadro mental: o nevoeiro das consciências. José Gil fá-lo a propósito de um quadro esquizo: a Vida de que o apresentador é dentro e fora e mediador face aos telespectadores, a sobreposição de imagens na lonjura pseudo-próxima, que baralha a percepção.

Não que a resignação, implícita na evidência daquela afirmação, não seja entendida como uma transferência das regras morais para a governação e que Gil não lhe aponte os custos e os danos do voluntarismo (de Guterres a Durão Barroso), mas não é da moral, nem da sua composição, que o texto trata, mas desse “nevoeiro”, desse formato da consciência colectiva nacional, que os meios de comunicação modernos têm recriado.

Os media serão, aliás, tratados com ampla impiedade e sublinhados como veículos de inibição e de bloqueio das consciências. Assim, os meios de comunicação social serão responsabilizados pela insuficiência de espaço público5 em Portugal, serão esse sistema mediático “transcendente”6, produtor e legitimador de realidades.

É pois no “nevoeiro” das consciências e na incapacidade de “inscrição” que se encontram os eixos sobre os quais se sustentarão as debilidades e incapacidades deste país e desta gente.

Portugal é o país onde nada se inscreve na história, ou na vida real. Não se inscreveu o salazarismo, que foi alvo de um imenso branqueamento e de um óbvio perdão, não se inscreveu a Revolução, que era tímida. Não se inscrevem os mortos, nem os vivos, o desejo não opera como potenciador de vida. O corpo não se assume, a autonomia dos indivíduos não é viabilizada. Vivemos todos no plano do nevoeiro, nevoeiro das consciências individuais e da consciência histórica colectiva, quando o nevoeiro ”é o plano invisível de não-inscrição”7.

O nevoeiro, esse dispositivo de defesa contra a ausência, é uma espécie de entorpecimento colectivo onde se instala a dificuldade de pensar, a impossibilidade de agir, uma certa “estupidez reinante”, o burgessismo.

Mas o que é a não-inscrição? É o contrário da inscrição, que cria e abre o real. A inscrição é essa espécie de fractura aberta pelo desejo e pela dor no corpo, na história, no tempo. A não-inscrição será a sua denegação, porque quando “(...) o

espaço.

luto não vem inscrever no real a perda de um laço afectivo (de uma força), o morto e a morte virão assombrar os vivos sem descanso”8. A não-inscrição acumulada e sobreposta converter-se-á em trauma.

A não-inscrição, fundadora das leituras de José Gil, é, em primeiro lugar, a não-inscrição do salazarismo, essa “doença que pôs de rastos o povo português”9, mas que as biografias e estudos, o branqueamento da própria revolução condenaram à não-inscrição10. Este será, do meu ponto de vista, o legado inovador e irrecusável dos “escritos” de José Gil.

A patologia do salazarismo é objecto dessa outra obra, Salazar: a Retórica da Invisibilidade. A recusa da “retórica” por Salazar, o horror do verbalismo oco, a contenção da exposição pública do chefe, a recusa da emocionalização discursiva, diversamente dos formatos dos grandes ditadores do seu tempo (que se fizeram corpo e desejo) teriam sido armas de sustentação moral, ideológica e política do Estado Novo.

A denegação da retórica por Salazar teria fundado uma outra retórica, a da “invisibilidade”. A denegação do corpo do chefe tê-lo-ia convertido em omnipresente. A recusa da oralidade teria facultado o delírio da racionalidade e do saber absoluto da palavra escrita. Nos apelos aos lugares do inconsciente, José Gil não deixará de andar à procura dos quistos do consciente11.

A denegação da retórica produziria, então, a sua sublimação, quando, como tantos outros paranóicos, Salazar foi protagonista de uma espécie de “delírio de racionalidade”.

Num país de “sentimentos”, de “glórias de momento”, Salazar, com o discurso lido, com a absolutização da palavra escrita, teria devorado os “espíritos” para os poder aconchegar através de discursos imbuídos de razão. Nesta qualidade, falaria às “almas”, sem propor a fusão emocional imediata, sem falar para as massas, antes falando para a consciência de cada indivíduo de forma a fazer borbulhar a “consciência nacional” mais profunda (patriotismo, espírito de sacrifício, moral cristã)12.

José Gil denunciará os mais profundos contornos e danos da “invisibilidade” nesse patamar sacrificial de evitação da morte, na negação da acção, na negação dos indivíduos, na substituição da acção pelo pensar e imaginar, quando “a invisibilidade sacrificial do indivíduo garantirá o surgimento da nova presença da Nação”13 com uma espécie de fórmula mágica14.

A invisibilidade deixaria que o princípio transcendente funcionasse como imanente no exercício do poder real, atravessando a própria invisibilidade de Salazar, reproduzindo-a em cada português e nos seus comportamentos, roendo num

quadro esquizo que fez dos portugueses “seres adiados”, mantendo actualidade na ambiguidade entre o “não somos nada, não valemos nada” e o “somos os melhores, génios, heróis”.

É, no fundo, este quadro esquizóide, esta espécie de desfalque narcísico nacional e este édipo de resolução adiada, que José Gil convida a sustentar o Portugal Hoje... desta feita numa sociedade que classifica de transição, entre a sociedade tradicional (disciplinar e autoritária) e a sociedade de normalização e de controlo.

No espaço de transição em que inscreve a sociedade portuguesa, quase tudo falta para que a acção reivindicada pela democracia seja filha do desejo e da liberdade:

— não há espaço público, espaço de mediação e de socialização dos conhecimentos e da produção cultural;

— o espaço público está nas mãos de meia dúzia de fulanos, é fulanizado e territorializado e, nessa condição, o “dentro” não respira;

— não há conhecimento da democracia porque não há investigação em ciências humanas; não há comunidades literárias, científicas, artísticas e nestes espaços ausentes a burocracia e o juridismo enquistam e redefinem legitimidades;

— o nevoeiro reproduz-se naquelas condições e alimenta-se da pequenez que se reflecte nos “inhos”, na pequenez do espaço físico e mental dos portugueses; somos uma sociedade fechada que não encontrou o tamanho certo, uma sociedade do familiarismo afectivo que é herança da ditadura;

— os portugueses têm medo, medo dos outros, e o medo é a estratégia para a não-inscrição quando a “imagem de si” que nos assiste é um sugadouro de energias e das forças vitais dos indivíduos, tornando-nos especialistas na incapacidade de enfrentamento;

— estas condições alimentam uma “zona de submissão”, provocando degenerescências como a resignação, a inércia, a complacência, o “consenso forçado do político e socialmente correcto”15, consensos “burgessos” à volta do humanismo16 e convertem a democracia numa forma de bom senso17, na via única, normalizada, que é por isso mesmo autoridade da norma e não filha do desejo e da liberdade.

É na impossibilidade de inscrição dos indivíduos, dos acontecimentos, dos corpos, que o medo e a inveja, segundo o autor, ultrapassam o patamar dos sentimentos e passam a sistemas reguladores das relações sociais, sistemas de inibição e de controlo. O “sistema da inveja”, tratado de uma forma que só pode gerar o incómodo, alicerça-se na incapacidade nacional da genuína admiração: “(...) a admiração é quase sempre de fachada. Os portugueses não sabem admirar porque não sabem perder a cabeça de admiração”18.

Portugal esforça-se por subsistir, inscrevendo-se na Europa, mas o “lá fora” continua longe demais19 e Portugal poderá ter de diluir as fronteiras da sua nacionalidade e tornar-se um pequeno território num “desbotado mapa-mundo”20.

Acresce à lonjura do “lá fora”, o duplo esmagamento: os portugueses saíram do salazarismo com medo de sair, o bom senso democrático anestesiou as potenciais conflituosidades saídas da revolução, sedimentando o medo invisível, vitaminado, no presente, pelo medo da exclusão dos benefícios da União Europeia, pela necessidade de inclusão na sociedade globalizada, pela adesão à normalização democrática do bom senso, pela recusa dos conflitos21. Assim, o medo do medo do medo sustentaria uma espécie de “branco psíquico”, de espaço traumático impossibilitado de ser um “grande medo colectivo”, mas desviado nos “microterrores quotidianos” de carácter endémico.

Será, aliás, na verdadeira natureza daquele trauma, coroado pela transcendência dos media na ausência de um verdadeiro “espaço público”, que José Gil funda a análise da questão Marcelo Rebelo de Sousa, a inércia presidencial e o percurso santanista, percurso com que conclui este livro para sublinhar o “descaramento” como estratégia política, como duplo esmagamento subscrito pela comunicação social.

3. ALGUNS DADOS DO TEMPO SOBRE OS LUGARES DO “MEDO DE EXISTIR” Sobre o tamanho. Portugal é um país pequeno há pouco tempo. A pequenez nasceu com a democracia.

Às portas da revolução francesa, a construção da modernidade reivindicava-se dessa portugalidade transcontinental que convivia com todos os eflúvios das Luzes e se aninhava nesse duplo colo: uma maternidade europeia definida precocemente e uma identidade que precisava do planeta. Mas aquela construção não se fez sem “produtores” de consciência; a forma como os “Descobrimentos” teriam feito deste pequeno país um país tão grande não deveria tirar o sono ao camponês.

A coisa tem o seu tempo: não se cata facilmente a fibra da consciência, ou da sua falta, sem a aferição do papel dos intelectuais, dos filósofos, dos “ideólogos” e da forma como o poder político os digeriu, os tragou, ou os abrigou.

Daquela altura poderia já José Gil dizer que “ser português” era ser “lá fora”. Eduardo Lourenço regista criticamente esse futuro que para Portugal foi sempre o “lá fora”. Na construção da modernidade, nos caminhos de transição para o liberalismo, o “lá fora” era o “cá dentro” porque a “portugalidade” se laborava à escala do planeta.

Intelectuais de setecentos que reflectiram sobre a decadência nacional em finais do século, os mesmos cuja proposição mais se aparentava com os novos tempos, evocariam as glórias e os nomes perdidos de quinhentos. Este passado, o passado dos “Descobrimentos”, que nunca foi “desinscrito”, ganharia, ao tempo, uma vitalidade regeneradora unificada pela personificação consensualizada em torno de Camões, de Pedro Nunes, ou da escola do Infante D. Henrique.

Em setecentos e oitocentos, o Brasil, se não era terra de utopia (a aceitar-se a tese dos que, como Medina, sublinham a inexistência de pensamento utópico português) era, ao menos, terra de muitos sonhos.

O Brasil foi o nó górdio do vintismo. Fazia-se uma constituição, dividiam-se os poderes, mas perder o Brasil era o impensável, para não falar dos que estavam dispostos a fazer do Brasil, Portugal e a entregar o rectângulo aos bichos, ou seja, às potências europeias.

O salazarismo alimentou-se dessa tensão inibidora entre o sermos pequeninos e ao mesmo tempo muito grandes, mas o “lá fora” de um país de migrantes e emigrantes (mesmo se muitas vezes saíam para poder voltar) é um espaço inscrito.

A descolonização tem trinta anos. Se devem existir poucas famílias onde a memória do sonho perdido em África - ou da verdadeira terra encontrada em África - não tenha feito a sua travessia, estendendo o espírito ensaístico, o “lá fora” continua a ser uma miragem validada em tempos de crise. É um dado da cultura, da vida, do imaginário: é difícil percebermos que “não há outro aqui”.

Sobre o mito do “lá fora” e os estrangeirados. A modernidade em Portugal alimenta-se de ambos. Em setecentos e oitocentos o pessimismo dos diagnósticos e as terapias apontadas olhavam lá para fora, para a Europa culta e civilizada, e temiam o olhar dela sobre o “nós”, parecendo conceder aos que dela voltavam um lugar privilegiado na cura.

Equívoca aquela esperança se a recriação pombalina da Enciclopédia foi obra que o poder não descurou, foi coisa muito “nossa” e os ditos estrangeirados foram encaixotados precocemente.

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É mesmo assim, a coisa tem o seu tempo. Não é pós-moderna essa malha escorregadia entre a sedução pela “superioridade” europeia, o fascínio por esse “outro” e a desconfiança congénita na sua aceitação, aliada ao apego a soluções muito fechadas e à “nossa” escala. Naquela desconfiança e naquele apego, os poderes instituídos nunca foram a parte menos interessada.

De facto, muito daquele pessimismo era feito do “complexo de inferioridade” relativamente à Europa Ilustrada, complexo que transbordou na sublimação do protagonismo do estrangeirado no século XX. Alguns dos protagonistas intelectuais do tempo eram, de facto, estrangeirados, que os poderes dominantes exilaram dentro, ou fora, de portas. Diversamente do que pode ser sustentado22, o “complexo de inferioridade” é fundacional da modernidade. Foi um combate de alguns sustentado com dificuldade face ao olhar nacional do olhar que o “outro”, o “europeu culto”, teria de Portugal23.

Nem suficientemente “europeus”, nem suficientemente “mediterrânicos”, os produtores de consciência foram boiando a sobrevivência da superioridade nacional em quinhentos e nos homens que, no saber, ou na poesia, tinham dado Portugal ao mundo. Neste sentido, não o podiam prever, mas facilitaram a vida ao salazarismo, que retocou uma herança: os “Descobrimentos”, a grandiosidade de uma nação pequenina, os nomes ímpares da cultura e da ciência modernas, a Escola do Infante.

Refira-se, ainda, que o juridismo não é uma coisa nova. É um legado do liberalismo e um ombro seguro para um país que conviveu mal com a revolução francesa, que arrumou uma forma muito nacional de Enciclopédia e que deu pasto ao cesarismo católico muito cedo. De facto, o mal conhecido Pombal católico foi tão, ou mais, duradouro que o Pombal da reconstrução de Lisboa. Mas não é o que se aprende nos manuais, da mesma forma que sabemos muito pouco sobre

a história do século XX português e menos ainda sobre os séculos XVIII e XIX.

Se há leitura pacífica no trabalho de José Gil é a dificuldade em inscrever a revolução de Abril. A esquerda conviveu mal com ela, a direita pior ainda, a comemoração foi durante demasiado tempo um aniversário rotineiro, como os de família. Os 25 anos contribuíram para mudar parte desta sensibilidade.

Pudor em caracterizar o 25 de Abril como uma revolução, pudor em falar de fascismo no Estado Novo, pudor em trazer a memória dos presos e exilados políticos, pudor dos horrores da guerra colonial para “nós” e para os “outros”. Pudor manifesto num discurso escassamente emocionalizado, impedindo os jovens de inscrever memória, sentimentos de luto e de ganhos de vida na história recente do seu país. Programas de história, manuais, professores adubaram os pudores, remetendo o final do século XX português para o plano das boas intenções.

Nem a história em particular, nem as ciências humanas em geral, entraram no senso comum. Também no escasso investimento nestas áreas de conhecimento e nos seus danos colaterais o ensaísta terá razão.

Mas se a história não se repete tem coincidências a mais. Em tempos de crise, nos intervalos da Europa liberal e neoliberal, os eflúvios dos sentimentos têm vindo, ciclicamente, ocupar espaço deixado pelas insuficiências da Razão.

Temos medo, não inscrevemos, não fazemos do desejo, no corpo individual e colectivo, princípio de acção, adormecemos nos consensos autoritários da democracia e da sociedade globalizada. Discurso pessimista, que não deixará de potenciar inúmeros e cirúrgicos reflexos especulares sobre a forma como vivemos e nos relacionamos, mas que, se as palavras não estiverem gastas, pouco acrescentará ao que “nos” falta de desejo pela democracia.

* Cecília Honório é historiadora e dirigente do Bloco de Esquerda [email protected]

1 José Gil, Portugal Hoje - O Medo de Existir, Relógio D’Água, 5.ª ed. Março de 2005, p. 141.

2 (...). O conhecimento científico pós-moderno só se realiza enquanto tal na medida em que se converte em senso comum” (Boaventura de Sousa Santos, Um Discurso sobre as Ciências, 6ª ed. , Ed. Afrontamento, 1993, p. 57).

3 “(...). O futuro de Portugal foi, desde cedo, o “lá fora”, a distância, nossa ou alheia. Foi a Índia, o Brasil, a África, recentemente e a vários títulos, a Europa. Hoje, é a primeira vez que Portugal e os portugueses têm de desenhar, de conceber, de inventar e de se dar um futuro a partir de si mesmos. Mas estão tão habituados a ter um Futuro como dádiva da Providência (...) que, sem querer, têm feito tudo para não encarar de frente esta

ideia simples: não terem um Futuro se eles próprios o não inventarem” (Eduardo Lourenço, Nós como Futuro, Assírio e Alvim, 1998, p. 25)

4 José Gil, ob. cit., p. 134.

5 “A ausência de espaço público fez com que os media preenchessem esse espaço deixado vazio pelo salazarismo, espaço entre os indivíduos, entre os cidadãos e as instituições, entre as próprias instituições e grupos da sociedade civil e do Estado” (Idem, p. 129).

6 Idem, p. 35

7 Idem, p. 22

8 Idem, p. 16.

9 Idem, p. 25.

10 “(...) a não-inscrição do nosso passado salazarista teve efeitos de incorporação inconsciente do espaço traumático, não-inscrito, nas

gerações que se seguiram. É como se lhes tivessem tirado um solo, um elemento essencial do seu psiquismo e da sua existência, antes mesmo delas nascerem” (Idem, p. 43).

11 “(...) ele possuía a intuição de um método pessoal mais insidioso para atingir o ‘fundo da consciência’ do seu público: o método de comunicação com o seu inconsciente. Salazar considera que, apesar da falta de instrução, o povo o compreende – e isto porque o povo possui o Dom de captar o essencial. Dá-lhe o nome de ‘intuição profunda’(...)”(José Gil, Salazar: a Retórica da Invisibilidade, Relógio D’Água, 1995, pp. 11-12).

12 Cf. Idem, p. 29.

13 Idem, p. 32.

14 “(...) persuasão consiste em conseguir que a forma do silêncio (produzido pela linha

retórica) não seja apercebida e que o ouvinte julgue aderir às ideias enunciadas apenas graças ao poder da razão”(Idem, p. 41).

15 Portugal Hoje. O Medo de Existir, p. 90.

16 Cf. Idem, pp. 109-111.

17 Cf. Idem, p. 113.

18 Idem, p. 99.

19 Idem, p. 72.

20 Idem, p. 73.

21 Cf. Idem, pp. 123-125.

22 “(...), a consciência de inferioridade cultural perante a “outra” Europa, que desde o século XVIII se afirmou com cada vez maior intensidade, para culminar na geração de 1870, não foi sempre uma característica da nossa autoconsciência. Foi, aliás, essa ideia de atraso e desfasamento que conduziu à imposição,

na década de 20 do século XX, da imagem dos ‘estrangeirados’ (Verney, Ribeiro Sanches, Castro Sarmento, etc.) como verdadeiras alavancas para a recuperação cultural do país” (Pedro Calafate, História do Pensamento Filosófico Português, Volume III, p. 36).

23 “Que admirados ficareis, Senhores, se soubeseis quão vil he o conceito, que muitos estrangeiros fazem injustamente de nós! Quando lá fóra cazualmente aparece algum portugues de engenho mediocre, admirados se espantão como de Fenomeno raro: E como asim? (dizem) de Portugal? Do centro da ignorancia? Assim o cheguei a ouvir”

(“Oração na abertura da Academia das Sciencias...” in Cristovão Aires, Para a História da Academia das Ciências de Lisboa, 1927, p. 98).

Texto extraído do PDF da revista que o combate.info publicou; as citações em destaque e as legendas foram omitidas.

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