combate

Arquivo da LCI, do PSR e da APSR, secção portuguesa da IV Internacional, e da sua imprensa, 1973–2013

Plano Puebla Panamá

julho de 2002 · Jornal · 5.215 palavras

Combate, julho e agosto de 2002, edição em linha

"DIZEM os indios: Que tem dono a terra? Como assim? Como se há de vender? Como se há de comprar? Se ela não nos pertence, pois. nós somos dela. Seus filhos somos. Assim sempre, sempre. Terra viva. Como cria os lagartos, assim nos cria. Tem ossos e sangue. Tem leite e dá-nos de mamar. Tem cabelo, pasto, palha, árvores. Ela sabe parir batatas. Faz nascer coisas. Gente faz nascer. Ela cuida de nós e nós cuidamos dela. Ela bebe chicha, aceita o nosso convite. Filhos dela somos. Como se há de vender? Como se há de comprar?"

Eduardo Galeano, Memoria del Fuego

"O plano desapareça um indÖgena, crie um empresário" (Subcomandante Marcos, 2/12/2000) não é nada mais que um passo gigante para a entrega dos já tão explorados paÖses às mãos empresariais e financeiras. Prestes se está a converter a América Central e o sul do México num território sem o minimo de soberania (exceptuando a invencível capacidade do seu povo a resurreiçoes impossíveis) dominado por um “nico governo que dita as leis mundiais: um governo multinacional e financeiro. A um ritmo galopante crescem de mãos dadas a globalização económica e a pobreza, enquanto o Banco Mundial (BM) e o Fundo Monetário Internacional (FMI), a Organização Mundial do Comércio (OMC) se preocupam com o desenvolvimento dos países por eles sub-desenvolvidos, brincando aos generais, à guerra, ou castigando os pequeninos que querem ser grandes, com mais fome e miséria. Isto conheceram os indígenas desde que as primeiras ofensivas neo-liberais dos Reis Católicos ou Felipe II tomaram forma nos ataques dos seus generais de elite, Pedro de Alvarado ou Hernán Cortés. Durante estes mais de 500 anos, a história pouco mud ou, à parte dos nomes. Os Reis Católicos mudaram o seu império para Washington, Pedro de Alvarado já não pode matar Tecun Uman, mas continua sentado na sua cadeira, o general exterminador de indígenas, Efraín Ríos Montt. A história oficial continua a mudar os nomes a tudo, insistindo em roubar memórias e enganar almas. A maldição deste povo continua a ser a mesma: a riqueza e a bondade desta terra que já não bendiz os seus habitantes, senão que os tem condenado à servidão e miséria desde o momento em que Cristóvão Colombo p„s os seus pés por estes lugares. A terra que chorava prata e sorria ouro, a terra onde qualquer semente nasce como por magia e bendiz com os seus frutos... Essa terra, esta terra que desperta a cobiça e a inveja de muitas lastimadas almas é a mesma que continua por esgotar, por explorar: os seus solos e os seus filhos e filhas. Å de terra de que se trata o Plano Puebla Panamá, o 10% da biodiversidade mundial que abarca todo o territorio desde o estado de Puebla no México, até ao Panamá. Minas, petróleo, fertilidade, plantas medicinais, mão de obra barata e um lugar estratégico que substituirá em proporçoes faraónicas o Canal do Panamá. Tudo fontes de riqueza que são o ar que necesitam os cancerígenos pulmoes desta crise económica. Tratado de Livre Comércio quase a ser assinado, para que se mexam em liberdade os exploradores e carrascos de pessoas que insistem em acreditar que outro mundo, outras alternativas de vida são possíveis

A crise económica e a sua reactivação.

A histórica luta pela terra inicia mais um capítulo que tem o seu nome num documento escrito e assinado pelo Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID), com a benção dos seus padrinhos BM e FMI, a permissão dos governos poderosos que contam com a tradicional submissão dos governos latino-americanos. A linguagem do documento expressa preocupação pelas comunidades indígenas pela biodiversidade, de forma que o PPP é o Rei Midas salvador da miséria destes lugares.

Cada país tem a sua história e a sua realidade, e as formas de como o PPP está a entrar são bem distintas. Seria muito exaustivo falar do plano explicando a situação do México, Belize, El Salvador, Guatemala, Honduras, Nicaragua, Costa Rica y Panamá. O plano está a entrar a diferentes velocidades nos diversos países, e a diferença é bem visível quando falamos do México que já tem assinado o TLC desde 1993. Agora, momento en que copio estas linhas faz-me falta agregar uma palabra de solidariedade com as comunidades zapatistas que estão a sofrer ameaças do exército e grupos paramilitares na Reserva da Biosfera de los Montes Azules, en Chiapas. Mas na América Central, os gobernantes já estão a preparar o terreno, como se comprovou no encontro de 24 de março em San Salvador, El Salvador. Nesse encontro com os presidentes centro-americanos e George Bush, falou-se do TLC e da importancia da criação de uma Área de Livre Comércio para as Américas. Analisaremos, algumas situaçoes mais concretas de cada país, mas comecemos pelo geral.

Olhemos para o mundo, o início do milénio cristão que começou com fortes contestaçoes ao neo-liberalismo, à globalização económica, denuncia-se cada vez mais os destruidores de tudo o que o mundo foi capaz de criar. A economia vive uma crise, o inimigo oficial do capitalismo já não é vermelho, mudou a sua côr para as morenas peles do islão, de forma a que os generais possam seguir os seus jogos dos soldaditos de chumbo. O país que mais habitantes tem em todo o mundo está a abrir as suas portas ao que os amaciadores sociais chamam agora de economia de mercado. Para os interesses capitalistas, a China representa o país com o maior número de potenciais consumidores e os Estados Unidos já têm os olhos postos na nova galinha dos ovos de ouro. A Ásia abre-se cada vez mais ao neo-liberalismo, vítima do assédio realizado pelos detentores do monopólio comercial e a região do PPP representa um lugar estratégico para a circulação massiva de produtos.

A nova rota da seda inventada pelos interesses gringos, encontra na região todos os atractivos para o investimento a baixos custos, arrasando todos os obstáculos para criar um lugar transitavel e com mão de obra barata para a circulación dos seus produtos. Um substituto para o obsoleto canal do Panamá, mas em dimensoes gigantescas...

Resultado do tradicional e secular comercio com a Europa, a industria norteamericana instalou-se na costa do Atlántico, onde encontravam passagem rápida e barata para a invasão dos seus produtos. Assim cresceram as cidades de Boston, New York, e a "motown" Detroit, lugar da todo-poderosa multinacional General Motors que conta ja com a grande rede de maquiladoras no sul do México. Se de Detroit, precisamente, tomarmos um ponto de medição entre a costa do Pacífico – Los Angeles – e o estado de Puebla no sul do México, entendemos ao olhar para o mapa que este segundo lugar é bem mais estreito. Fica muito mais barato às empresas cruzar o estrito território da América Central, que demorar cerca de dez dias em lentos e caros camioes.

Outro atractivo que encontram os impulsionadores do PPP é a sacrificada e mal paga mão de obra. Ou seja, a tecnología de ponta "made in USA" encontra un exercito de pobres e baratas mãos no seu pátio traseiro, para a montagem dos seus produtos que invadirão o mercado asiático. Por exemplo, no México as trabalhadoras estão a ganhar nas maquiladoras 33 pesos ao dia.

O canal do Panamá já esqueceu o sangue derramado na invasão estado-unidense, a memória tratou de apagar o que os convénios e falsos arrependimentos lhe impuseram. "Já não necessitamos do canal, temos novas inversoes em marcha", faltaria dizer, mas tudo segue bem e os Estados Unidos seguem sendo o único salvador de uma economia por eles destruída, que dolariza almas e mentalidades. O neo-liberalismo é a solução que está a privatizar portos em ambos os oceanos que servirão de ligação aos canais secos.

Nova e gloriosa invenção, um canal seco é mais que um simples canal, é o nome dado a uma tenebrosa ligação que significará expulsão e exploração. De um porto do lado do Atlántico chegarão as peças estado-unidenses, desembarcarão directamente em modernos comboios de carga que modernamente caminharão por linhas que esmagarão todo o atraso e miséria a que os interesses neo-liberais condenaram as/os habitantes da América Latina. A meio caminho, os produtos encontrarão uma moderna maquiladora onde os esperam os famélicos braços de gente que não tem outro remédio que não seja cumprir com a sua função em robóticos movimentos. Montando cada hora, aparafusando cada dia, embalando cada mês... toda a vida? Ou até que as doenças musculares as/os tornem invalidas/os em consequencia do seu trabalho? Ha maquiladoras onde se trabalha desde as 7 da manha às 12 da noite, no México, as mulheres sofrem violaçoes sexuais e são induzidas às drogas pelos seus patroes. Estas condiçoes não interessam, como é costume, aos interesses do PPP, pois sabem sempre que encontrarão famélicas/os trabalhadoras/es que não reclamarão os seus direitos. E se houverem pessoas que insistam em acreditar que os direitos laborais são algo de universal, existe um sistema de lista negra electrónica que denunciará os atrevidotes. Assim é o caso dos trabalhadores da Carbonera na Guatemala que levam já largos meses em greve acampados diante do Palácio Presidencial, por haverem tido a ousadía de criar um sindicato numa empresa estado-unidense - J.A.JONES e DYMEL S.A. – e cujo castigo a tremenda ofensa foi o despedimento que ultrapassa as poucas leis que defendem os seus direitos.

Mas agora o que importa é que as maquilas cuspirão a um ritmo desenfreado, brilhantes carros, sorridentes bonecas Barbie, rádios, roupa... Toda uma gama de produtos com o selo da prosperidade economica e do bem-estar, pronta para afogar o mercado asiático, bem como as almas dos seus futuros consumidores.

Aquí temos uma boa maneira de superar a crise mundial, ou bem melhor, um penso rápido para sarar as feridas do 11 de setembro. É necessário observar que o PPP é anterior aos atentados, mas agora torna-se mais urgente dar ar á asfixiada economia, que milagrosamente vai recuperando como se por artes mágicas houvera adivinhado o que se ia passar. Mas para confirmar isto, nada melhor que as declaraçoes de Florencio Salazar Adame, coordenador do PPP no México: "A recessão do mercado norte-americano, os acontecimentos do 11 de setembro e a contração dos recursos financeiros indicam-nos que o desenvolvimento regional é agora mais necessário que nunca." Fonte: <Boletín "Chiapas al día", num 278. http:/www.ciepac.org>

Neo-liberalismo e terrorismo mundial: dois "ismos" muito irmãos.

Pois bem, este "desenvolvimento regional" já está em marcha em vários países. Vicente Fox, o empresário-presidente, numa visita á América-Central efectuada o ano passado, afirmou falando sobre o PPP, que visitava os países não como presidente do México, mas como empresário. O México avança rápido e demostra-nos que a prioridade está nas linhas de comunicação. Para os canais secos ja estão privatizados, ou em vias de, os portos mais estratégicos, a ampliação da grande estrada do Pacífico – 8000 km. – que foi aprovada a finais de janeiro e que garantirá a ligação Panamá – Tijuana. Para este ano está em curso o canal seco do estreito de Tehuantepec que liga os estados de Oaxaca e Veracruz. Para além do mais, o orçamento do PPP para este ano no México diz-nos que 82% de 6.764,4 milhoes de pesos Serão distribuídos para transportes e comunicaçoes. Acrescentemos que para as Honduras e Nicaragua estão já previstos dois canais secos.

Bem, ao observar este orçamento, entendemos facilmente a preocupação social que nos é apresentada no documento do PPP. Fala da intenção de tirar os povos do subdesenvolvimento, da mesma forma que alguns pais batem nos seus filhos por amor. Para rubro do desenvolvimento social, oferecem um 2,6%, para a saúde 0,3%, e como esses mesmos pais que lhes batem, esqueceram-se da educação. É importante assinalar que o documento PPP promete elevar o nível de saúde e educação num país onde as estatísticas sobre estes temas demonstram um subdesenvolvimento assustador.

Na América Central, a imprensa oficial não se dedica muito a informar sobre estes dados, pelo menos na Guatemala, onde escrevo estas linhas. Talvez algo esteja a sair agora na imprensa, mas escrevo desde um lugar que está na mira dos intereses do PPP, mas onde não chega nenhum tipo de informação. Aquí no planalto ixil, nas Comunidades de População em Resistencia, o único que chega são as pernas cansadas que sobem e descem pelos caminhos do isolamento, carregando os seus productos.

Mas voltando à (des) informação, à imprensa, que menciona algo do PPP e TLC sabemos que vai apenas cumprindo com o seu papale de propagandear todas estas iniciativas. O presidente da Guatemala, Alfonso Portillo y Vicente Fox establecerão acordos fronteiriços de como proibir pessoas e legalizar a mercadoria. O 24 de março, na já mencionada reunião sobre o TLC, foi apresentado como uma data importante, um sinal de esperança para a pobreza em que se fundem os países da América Central.

Imagino a euforia dos presidentes sonhando com a sua prosperidade pessoal, os novos presidentes vendedores de países. Na Guatemala, Portillo prepara os seus negócios, esperando o fim do seu mandato para converter-se em empresário a tempo inteiro. O escandalo que o envolveu no mês de março junto com o vicepresidente Francisco Reyes López e seu filho, Francisco Reyes Wild, ajuda a entender um pouco o que já têm planeado, o a supôr. Durante a sua visita oficial ao Panamá, jornalistas da oposição denunciaram a tentativa de abertura de contas no Banco Internacional do Panamá em nome de varias empresas: Inversiones Segovia S.A., Highlands Consultants Corp., Corder Associates S.A., e Hamish Holdings, S.A. No país estalou a contestação num insípido Movimiento por Guatemala, que saiu às ruas com u

uma caçarolada e uma campanha para a demissão do presidente, mas que apenas se ficou pela intenção de contestar o caso "Ligação Panamá". Portillo não faz muito caso pois está bem ocupado, tratando de arranjar os seus negócios antes do fim do mandato, que chegará ao final em 2004. O movimento já calou e enquanto isto o poderoso general, frenético evangélico, Efraín Ríos Montt, segue tranquilo na sua cadeira da impunidade, vigiando tudo atentamente.

Do outro lado da Frente Republicana Guatemalteca, partido no poder, Ríos Montt prepara a sua ofensiva endurecendo a sociedade. Impedido de ser eleito presidente da república pela sua responsabilidade no genocídio de milhares de indígenas, o Presidente do Congresso, insinua a sua candidatura ao cargo. Neste país tão surreal, não me espantaria nada um golpe de magia política, "made in América Latina", que o posibilitaria. E já se veem militarizando os sectores institucionais, chegando ao ponto de querer vigiar o passo às/aos turistas – leia-se também gente solidária que até aquí viaja – com a nomeação de um general para director do Instituto Guatemalteco do Turismo.

Para além do mais, nota-se que o clima no país vai-se endurecendo. A missão das Naçoes Unidas na Guatemala, Minugua, criticou a 17 de mayo as entradas orçamentais do exercito, como um "grave incumprimento" aos acordos de paz. "Nos últimos anos, os gastos militares ultrapassaram sistemáticamente o límite de percentagem do PIB, estabelecido nos acordos de paz." Neste mesmo mês, as ameaças e intimidação a defensores dos direitos humanos, terminaram no assassinato de Guillermo Ovalle da Fundação Rigoberta Menchú em pleno centro da cidade à luz do dia. Para além disto, o mês foi marcado pela perseguição a membros de equipes de antropologia estrangeira que estão a realizar a buscas e exumaçoes de cemitérios clandestinos; o sequestro e agressão de Domingo Yaxón Guarcax da Coordenadora Nacional de Viúdas da Guatemala, à parte de outras ameaças contra bispos e pessoas que trabalham na recuperação da memória histórica dos tempos de guerra.

A violência volta a crescer nestes países, como também no México. O orçamento de estado para a defesa neste ano alcança quase a metade do total. Ou seja, se as comunidades não querem o PPP à boa...

Biodiversidade, um tema frágil.

Voltemos ao PPP, pois ainda existem outros interesses por explicar, como este, bien grande: imagínem o 10% da biodiversidade mundial num território que equivale a menos de 10% de todo o continente americano. A região, considerada como o segundo pulmão mais importante do planeta, goza de características únicas onde convivem em equilibrada harmonia, plantas, animais e uma diversidade cultural que toma a sua forma no respeituoso – e muitas vezes generoso – modo de vida das comunidades indígenas. Mas o PPP não tem a mesma visão e diz que "em contraposição à sua riqueza natural, a região enfrenta a ameaça da degradação ambiental. A pressão demográfica e a sobrexploração dos recursos naturais deterioran a fonte de sobrevivência natural e económica." Fonte: <documento Plan Puebla Panamá. Banco Interamericano de Desenvolvimento, junho de 2001.

Será o modo de vida indígena que poe em perigo a biodiversidade? Quando, em certa medida, eles fazen parte deste mesmo equilíbrio. não será o pensamento dominante que está a desangrar a América Latina – e o mundo – o que chegou há 510 anos? Falo do pensamento que sempre foi igual nas classes dominantes: o que chupou até à miséria as minas de prata de Potosí, Guanajuato; o que enfureceu o chicote que castigava as costas de escravos y escravas enquanto roubavam o ar nas selváticas desflorestaçoes; o que secou de fome as terras férteis com a plantação massiva de cana de açúcar; o que esgotou solos e humanidades. Sim, falo do pensamento febril e assassino que ainda não foi vencido e que não quer restituir a tierra a quem lhe pertenece.

A região tem plantas únicas, minas, petróleo, terra fértil. Agora mesmo me dizem aquí na comunidade onde me encontro que a única coisa que é necessária deitar à terra para que cresça algo, é a semente. Tudo isto interessa às grandes empresas envolvidas no PPP. O maior impulsionador no México do plano, é Alfonso Romo, dono de uma grande empresa de biopirataria, Diversa. Mas existem mais barcos acusados nestas agitadas águas de corsarios: Pulsar-Savia, Du Pont e Monsanto-Novartis.

Estas empresas, responsáveis pela indústria de transgénicos, estão interessadas nas patentes de plantas medicinais para patentear. Em La Independencia – Chiapas, a Monsanto tem um laboratório com mais de 10000 ha, em El Péten, Guatemala e El Salvador, o exército dos Estados Unidos, passeia com visa de turista na "Operação Novos Horizontes", com o fim de roubar plantas para patentear. No IV Encontro Internacional de Economistas Sobre Globalização e Problemas de Desenvolvimento, que se realizou em La Habana, Cuba, em mediados de maio, denunciou-se que "as corporações multinacionais, apoiadas pelo Banco Mundial e pelo Fundo Monetário Internacional, controlam mais de 90% das patentes sobre materiais biológicos." Para além do mais, o especialista no tema, da UNAM – Universidade Autónoma no México, denunciou que existe uma relação directa entre o saque de recursos e os interesses na creação da ALCA, pelos Estados Unidos. Dizia uma parede em San Salvador: "ALCA, al carajo."

Tudo isto vem de uma lei que saiu há dois anos, criada pelo Banco Mundial sobre patentes. Lançou-se um concurso de patentes de plantas. Claro que chegaram primeiro as multinacionais... Analisando tudo isto, o que significa a biodiversidade, a generosidade da Natureza está em perigo. Uma vez mais são os de sempre, os que nos estão a destruir com discursos verdes e actos negros. Hoje pode-se destruir, mas não se pode admiti-lo, o melhor é enganar as pessoas, como o faz tão bem o documento PPP. Mas basta saber o que nos diz o papel nas entrelinhas, basta conhecer as empresas que estão envolvidas. Basta conhecer a Bayer que contamina rios americanos para curar as doenças europeias, basta conhecer os responsáveis que oferecem o seu lixo com o selo de "solidariedade". Pois só basta saber quais são os que vivem na terra e da terra, ver os lugares de sonho habitados há séculos por uma cosmovisão respeituosa e entender a diferenca entre os factos.

Muitas ONG’s estão hoje a minar o caminho para as grandes empresas, com as suas ajudas que enganan povoaçoes necessitadas. Na Guatemala, por exemplo, vi com os meus olhos várias "empresas que vivem da miséria humana", abrindo caminho a grandes empresas. Solidaridad Internacional está a realizar projectos agrícolas nos quais oferecem sementes transgénicas – melhoradas, como as chamam aqui – da Monsanto, e adubos químicos da mesma multinacional, o herbicida Ranger.

Na área protegida de Visis-Cabá, a Agencia Internacional para o Desenvolvimento – US AID – está bem metida num conflito que se arrasta desde 97 entre o governo e as 48 comunidades envolvidas. Dividem aldeias, compram o presidente do município de Chajul, oferecem máquinas para a construcção de estradas e estão claramente interessados na derrogação da lei que os impede de entrar à vontade, apesar desta não beneficiar as comunidades. Eduardo Galeano denuncia esta suposta ONG en su libro "Las venas abiertas de América Latina", mas que não é nada mais que a agência de solidariedade oficial dos EUA..

"Os contractos da (...) AID, não só implicam mercadorias e fretes norte-americanos (...) e obrigam a aceitar a tutela administrativa dos técnicos. (...) A ajuda da AID inclui jeeps armas modernas destinadas à policía, para que a orden interior dos países possa ser devidamente salvaguardada. não em vão um terço dos créditos da AID obtêm-se imediatamente depois da sua aprovação, mas os dois terços restantes condicionam-se ao visto do Fundo Monetário Internacional(...) a AID costuma exigir tambiém de pasagem a aprovação de determinadas leis ou decretos."

À parte, a AID, como foi denunciado no Encontro mencionado acima, "o papel que desempenham instituições como a Agência de Ajuda Internacional ao Desenvolvimento (AID), na busca de elementos bióticos para o desenvolvimento de armas químicas e biológicas nos Estados Unidos, e de medicamentos que logo são monopolizados pelos laboratórios farmacêuticos." Fonte <azine – http:/www.azine.org.

Assim está a biopirataria, aproveitando-se da falta de informação a que estão sujeitas as comunidades. Se no são avisadas, estas Serão facilmente enganadas por ONG’s que se aproveitam das necessidades das pessoas. À parte das já citadas , posso nomear, no mesmo papel que tienen otras: Cooperación Española, OXFAM – Reino Unido e seguramente outras mais que é preciso denunciar.

O turismo como indústria colonizadora.

O turismo, a recompensa de tanto esforço depois de mais um processo colonizador, logicamente tambén muito lucrativo. Esta indústria é uma das mais poderosas do mundo, rouba praias às povoaçoes, terras a camponeses, acaba com os costumes tradicionais ou converte-os em mero folklore económico, em troca de falsas promessas de entrada de divisas. Costuma funcionar, na sua primeira entrada, para as classes privilegiadas, os que podem gozar dos paraísos roubados, onde los hombres de negócios disfrutam do seu whisky escocés no mar das Caraíbas, ou um puro cubano em Bora Bora.

Depois vem a massificação, o lazer e o descanso como cultura de consumo. Tudo em massa, os hotéis e o cimento, as estradas e o asfalto, os carros e o fumo, os plásticos deitados como vómito da sociedad consumista. O que é hoje um paraíso pode-se converter amanha num inferno.

Na Iniciativa Mesoamericana de Turismo do documento PPP, afirmam-nos que "Na região existem iniciativas de cooperação de vinculação governamental e empresarial de significacção no sector turismo. (...) A creação do Corredor Logístico Mesoamericano gerará, como uma das consequências imediatas, um novo tráfico turístico em toda a região." Este corredor, significa o mesmo para as comunidades que o canal seco mencionado atrás. Ou seja, as comunidades Serão vitimas de desalojo.

Do já mencionado orçamento PPP para Chiapas, o segundo rubro mais alto vai para este sector, 7,5%, 507 mil milhoes de pesos. Os projectos não param de nascer como cogumelos depois da chuva, e as comunidades indígenas tiveram a má sorte de "escolher" lugares de sonho para localizar-se. A comunidade zapatista de Roberto Barrios enfrenta graves problemas gerados pelos interesses nas cascatas de sonho que existem nas suas terras. À parte, para o turismo, o indígena interessa como sorriso dócil e servil que luz debaixo do seu traje.

Para o mês de maio estava prevista a entrada em funcionamento do comboio turístico "Expreso Maya" que romperá cerca de 500km de terra entre Mérida, Yucatán, Chiapas, Tabasco y Campeche. Um luxuoso meio de comunicação que só serve as classes privilegiadas. Assim é, com promessas de desenvolvimento, entra facilmente o turismo, ofrecendo dólares às bocas esfomeadas que servirão as mesas de bonitos restaurantes. Em Nebaj, Guatemala, o presidente da câmara já anunciou promessas de dinheiro que chegará com o turismo. Em março disse na radio Ixil que esta indústria trará estradas e ferrocarril que Serão um grande beneficio para a região.

A biodiversidade não sé interessa aos corsários do século XXI, às empresas transgénicas, ou para cultivos massivos. A sociedade consumista alimenta bien esta indústria que não só move o seu dinheiro em pasagens aéreas, quartos de hotéis, bares... A infraestructura é o que mais interesses move, a especulación imobiliária, la construcção de acesos às ilhas da fantasia. A área do PPP tem muito para explorar, lugares virgens que ainda no conheceran o chicote do progresso. Assim funciona o turismo: primero olha, chupa os lugares até espirrar sangue e procura novas vítimas, deixando os outros lugares, como os cadáveres, secos, vazios, esquecidos...

O turismo, como descanso, sim é um direito. O problema está na forma como entra, sem pedir permissão. As comunidades indígenas apenas servem como mero folklore, os sorrisos – belos, de facto – são o cartaz que limpa a imagem dos países con sérios problemas de fome, violência e tristeza. O traje indígena é algo muitas vezes fotografado debaixo da ignorância que muitos deles foram impostos pelos espanhóis, embora consigam fazer luczir as suas tremendas cores e imaginaçãon. "...os mestiços e os brancos, os que dicem ser brancos, vestem e vivem, ou gostariam de vestir ou vivir, ao modo de Miami, "por não parecer indios", enquanto milhares de estrangeiros acodem em peregrinação ao mercado de Chichicastenago, um dos baluartes da beleza no mundo, onde a arte indígena oferece os seus tecidos com assombrosa imaginación criadora."

E esta imaginação criadora , da que nos fala Galeano no seu livro "La escuela del mundo al revés", é a fonte de riqueza que muitas vezes não favorecem as manos criadoras, senão, bolsos exploradores. E é preciso olhar por detrás dos belos trajes, das multibordadas homenagens ao arcoíris que luzen na sua arte, o que a "mentalidade turística" consegue ocultar, a miséria que parece já uma pena perpétua de tão larga que é. Vi já postais que a minha consciência não consegue aguentar, como o de uma criança que "carrega feliz a sua madeira pendurada pela cabeza." E o turista acha graça e esquece-se de continuar a olhar, para um sorriso que ficou triste e cansado.

E que será que nos mostrarão os futuros postais nestas zonas turísticas? Serão as fotos das recordaçoes de gente que trabalhava e vivia da terra, de mulheres que moem o milho nas típicas piedras, carregando o seu bebé nas costas? Talvez seja isso, porque as camaras não conseguem apanhar os sonhos e recordaçoes das povoaçoes vítimas da guerra na Guatemala, as angústias zapatistas da luta. Às vezes, por estes lados, ouve-se no silêncio da noite, o riso do medo, o canto do terror e ainda se ouvem bombas... Para esquecer, é o tema do turismo.

Avança o PPP

O grande capital tem já o terreno bem fácil para avançar: os presidentes e generais estão, como de costumea, às suas ordens. Já vimos alguns exemplos de como vai avançando este gigantesco plano. Os megaprojectos vão florescendo como flores na primavera. Poços de petróleo, laboratórios de experiência, estradas... São sobretudo as estradas a parte mais urgente para fazer chegar todas as infraestructuras. Como presente do progresso, aproveitando as necessidades das comunidades isoladas, chegam sem problemas. Tudo está em andamento. Mas aí vêm os problemas: que acontecerá quando as comunidades indígenas e camponesas comecem a perder as suas terras?

Foram já denunciadas várias formas de roubar as terras. Uma consiste em fazer descer os preços dos produtos, empobrecer ainda mais as pessoas para que se crie a necessidade de vender a terra. Se isso não chega, outros métodos traiçoeiros e pouco honestos estão pensados. Oferecem-se sementes transgénicas às povoaçoes necessitadas e desinformadas de forma a confiar toda uma plantação nessas mesmas sementes. Ao cabo de uns meses, morre toda uma colheita de uma comunidade. Assim, não há comida e há fome. As comunidades não terão outro remédio que vender as terras. E que poderão fazer para comer? Aí os esperam as maquiladoras. Tudo está pensado no PPP. E se isto não funciona, se as comunidades não querem o plano pelas boas, tê-lo-ão pelas más. Isto deduz-se pela crescente militarização que se pode constatar nos países envolvidos.

"A esperança é um dom que eu tenho em mim", cantou um dia Caetano Veloso, e ela vive nas pessoas que se estão a organizar para combater o plano. Realizaram-se os encontros pela diversidade biológica em San Cristóbal de las Casas, Xela, Petén... Em Xela, Guatemala, em finais de junho vai ter lugar outro encontro. Mas é sobretudo urgente informar as comunidades. Em várias, já se estão a criar focos de resistência, criando bancos de sementes orgâncias, denunciando as multinacionais, recusando projectos de falsa solidariedade que muitas ONG’s oferecem... A luta vai-se acendendo... A terra é o palco principal, pois é de terra que se trata o problema.

E o PPP avança, firme na sua marcha de convénios, assinaturas, e también no terreno. Existe já uma rede de cerca de mil maquiladoras em Oaxaca – México, começam-se a construir as estradas e até uma promoção telefónica na Guatemala oferece descontos em chamadas entre Puebla e Panamá.

Prepara-se o grande capital para a conquista do início de milénio, mas não se deu conta da diversidade cultural que encontrará pelo caminho. Serão seguramente as comunidades indígenas e camponesas o principal travão a este plano. A criatividade humana e a imaginação sempre oferecerão novas respostas que se descobrem assim de improviso, se bien que terão sempre a ajuda da ancestral forma de vida que se respira por estes lugares.

A justiça, a democracia, a liberdade estão no lugar do conflito, a mãe terra; os decretos, os Congressos das Naçoes, os governos são já antigas armadilhas que nos enganam ao som de convenios e assinaturas de falsos arrependidos. Assim é o convénio 169 da Organização Internacional do Trabalho. É uma arma de luta, sim, mas não está carregado com a pólvora do inimigo?

O que agora urge é denunciar o PPP nas comunidades para que não caiam nas armadilas. É preciso encontrar formas alternativas de producção para criar um espaço autónomo na medida do posible. Há que criar uma rede de informação apoiando os lugares isolados onde a rádio – único meio (des) informativo – insiste em relatar os grandes milagres de deus e dos governantes. É preciso reunir-se, informar, denunciar. Para isso estamos, nisso devemos seguir, onde que que estejamos. Encontrar as formas nos nosso corazones criadores e impedir que avance este plano de miséria. Nisto estamos, nisto estão milhares de comunidades por toda a América Central e México, na palavra simples que deu côr à história de 510 anos na América Latina: RESISTÊNCIA.

Maio de 2002

Saudades desde a sierra dos Cuchumatanes,

Ricardo Gomes

Guatemala

Informação sobre o tema na internet:

www.ciepac.org - Chiapas

www.enlacecivil.org - Chiapas

www.enlacecivil.org - Chiapas

www.mesoamericaresiste.org - México

www.chiapas.indymedia.org

www.iadb.org/PPP – visão BID

www.saprin.net – El Salvador

www.sdhon.org. - Honduras

www.cedfog.org - Guatemala

www.caldh.org - Guatemala

www.equipopueblo.org. - México

www.laneta.apc.org/biodiverdidad - Chiapas

www.sitiocompa.org - Chiapas .

Texto da edição em linha do jornal (1999–2003), recuperado das cópias do Internet Archive e do Arquivo.pt.

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