combate

Arquivo da LCI, do PSR e da APSR, secção portuguesa da IV Internacional, e da sua imprensa, 1973–2013

Pela liberdade dos solidários com Itoiz

Adolfo Allué Blasco · outubro de 2005 · Revista Combate · 668 palavras

Campanha · Combate n.º 284, outubro a dezembro de 2005, pp. 32–33

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VÁRIOS COLECTIVOS e pessoas de diferentes localidades do Estado espanhol (Madrid, Zaragoza, Pamplona, Bilbao, San Sebastian, Huesca, Lleida, Vitoria...) organizam em Novembro diversas iniciativas de apoio ao grupo ecologista “Solidários com Itoiz”, materializadas em debates e sessões públicas, fanzines e programas de rádio, distribuições de folhetos, sessões de pintura e poesia, entre outros eventos. Ao mesmo tempo, apelam a que noutras partes do Estado e fora dele se faça também ouvir a voz da solidariedade.

Em 1996, o grupo “Solidários com Itoiz” cortou os cabos de carga do cimento usado na construção da mega-barragem de Itoiz em Navarra. Nesta acção ninguém foi ferido, tendo sido imobilizado um vigilante da segurança da obra durante os 5 minutos que demorou o corte dos cabos. Logo em seguida, os 8 Solidários entregaram-se, tendo sido espancados pelos seguranças contratados perante o olhar atento dos elementos da Guardia Civil no local. Um Solidário ficou surdo de um ouvido. A obra esteve parada cerca de um ano. Como a consequência do prejuízo para a obra causado por esta acção não podia ser mais que uma multa pesada, a “Justiça” castigou-os com quatro anos e dez meses por “sequestro”, supõe-se que na modalidade de “express”...

Ikañi García Koch esteve preso três anos e dez meses. E Ibai Ederra Miranda está preso desde 15 de Março de 2004. Ambos em situação de perseguição por parte dos guardas prisionais, sem licença para sair. Iñaki esteve até catalogado no FIES (Ficheiro de Internos de Especial Seguimento), que é aplicado aos membros de grupos armados e que é o pior que pode acontecer a qualquer preso, que deixa praticamente de ter direitos na prisão.

A mega-barragem de Itoiz é um monstro que sai fora de qualquer lógica económica e ecológica, e põe em risco a segurança das populações próximas (passando por Zaragoza e até à central nuclear de Ascó, na província de Tarragona). Hoje em dia, mesmo altos quadros da Administração dizem que agora não se faria uma obra daquelas. Tirando os construto

res, as cimenteiras, os políticos corruptos e os regantes cheios de vontade de vender água ao levante turístico depredador, na sociedade em geral ninguém está interessado nesta forma de gastar dinheiro e destroçar grandes áreas naturais. Falou-se bastante (mas nunca o suficiente) da segurança do pântano: houve cerca de 200 terramotos de diferentes intensidades, certamente pelo enchimento da barragem (o brutal peso da água numa zona atravessada por uma falha geológica) e alguns conceituados geólogos tinham alertado para este perigo e para um possível deslizamento da ladeira esquerda que faria saltar a água sobre o muro principal, como sucedeu em Vaiont (itália) nos anos 60, resultando daí cerca de 2000 mortos...

Com esta campanha que agora levamos a cabo, queremos mostrar a importância de impedir que os Solidários continuem a pagar com a cadeia a sua acção. Mesmo esquecendo que na altura do corte dos cabos a obra estava declarada ilegal (e continuavam a construi-la...), essa acção de 1996 é um símbolo de uma forma de luta que recolhe o apoio de muita gente. E apoiamo-la, entre outras razões, porque não acreditamos que o mais radical seja o que causa mais estragos ou o que prejudica mais gente, mesmo que essa gente se confunda com “o inimigo”. Como nós há muitas pessoas que não se juntam ao “coro anti-terrorista” e que acreditam ser importante consciencializar os outros, mas também que essa consciencialização sirva para dar o passo em direcção a uma acção directa que impeça o normal funcionamento do sistema, seja através de greves, boicotes, bloqueios ou sabotagens, traduzindo-a numa desobediência real e contundente. Não nos podemos ficar pelos concertos do Bono contra a pobreza ou pelas, necessárias, manifestações.

Muitas e muitos de nós, desde Chiapas, Seattle, Génova, lutamos para que a revolução do futuro seja diferente das do passado. Há muitas lutas, muitas necessárias e importantes. A de tirar os Solidários da prisão é uma delas.

* Adolfo Allué Blasco integra o colectivo Solidarios con los Solidarios (Zaragoza)

Adolfo Allué Blasco* ilustração de carla cruz

Texto extraído do PDF da revista que o combate.info publicou; as citações em destaque e as legendas foram omitidas.

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