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Arquivo da LCI, do PSR e da APSR, secção portuguesa da IV Internacional, e da sua imprensa, 1973–2013

Os irredutíveis

Michael Löwy · dezembro de 2004 · Revista Combate · 1.026 palavras

“Teoremas da resistência nos tempos que correm”, de Daniel Bensaïd · Combate n.º 281, dezembro de 2004 a fevereiro de 2005, pp. 48–49

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EVIDENTEMENTE que a sua resposta é negativa, mas ele tem como objectivo colocar as categorias do progresso e da universalidade à prova da catástrofe e do desastre. Os termos do debate reenviam-nos directamente para os escritos sobre a história de Walter Benjamin, um autor que não parou de inspirar e de assombrar a reflexão de Daniel Bensaid.

TEOREMA 1: A política não se REDUZ à ética, nem à estética.

Trata-se de restabelecer a dignidade da política – como projecto, vontade e acção colectiva – que se encontra actualmente laminada entre os encargos do horror económico e os gemidos de um moralismo abstracto. A política implica a arte estratégica do possível, que se aproveita das bifurcações abertas à esperança e que é irredutível à necessidade económica, à “eternidade majestosa das estruturas”.

TEOREMA 2: A luta de classes não se REDUZ às pertenças comunitárias.

A crise ou o declínio da consciência de classe favorece em todos os sítios a subida dos pânicos identitários e dos conflitos comunitários, uma tendência planetária inquietante que não pode ser interpretada como o produto dos últimos sobressaltos do totalitarismo. Vemos aparecer, aqui e ali, personagens sinistras - Putin, Haider - que celebram as bodas de sangue do nacionalismo e do liberalismo.

Como ultrapassar a fragmentação, a diversidade em pedaços, celebradas pelos pós-modernos, que renunciam a todo o horizonte da universalidade? Sem negar a pertinência da procura do reconhecimento dos diferentes grupos vítimas de injustiças – tema bastante desenvolvido nos trabalhos de Nancy Fraser – o autor rejeita as tentativas de alguns “pós-marxistas”, como Chantal Mouffe e Ernesto Laclau, de “redefinir” a hegemonia como articulação contingente dos elementos heterogéneos, sem ligação com as classes. A lógica universal do capital afecta as diferentes esferas da vida social e criou desta forma as condições de uma unificação relativa das resistências à volta da luta de classes.

TEOREMA 3: O domínio imperial não se dissolve nas beatitudes da globalização mercantil.

Não partilho a aversão de Daniel Bensaid pelo “fetiche de uma Humanidade maiúscula”. Mas penso que ele tem razão em denunciar a invocação de uma legitimidade humanitária para mascarar os interesses da potência imperial. O imperialismo é hoje um sistema global, ao mesmo tempo económico, tecnológico, ecológico, cultural, militar. A globalização imperial pretende-se universalista, mas ela só representa os interesses privados do capital. Os benefícios atribuídos à mão vagueante do mercado estão longe de compensar os crimes do seu punho visível. Face à lógica da privatização e da mercantilização do mundo – o que inclui a terra, a água, o ar a própria vida – é urgente opôr uma lógica alternativa, a do bem comum e do serviço público. Foi ela que inspirou “o espírito de Seattle”, que sopra desde 1999 sobre Milão, Praga, Génova, Washington, Banguecoque, Nice, Dakar, Porto Alegre...

Se temos que recusar, com a última das energias, a tentativa da contra-reforma liberal de se reduzir o comunismo ao estalinismo, não podemos fazer a economia de um balanço crítico dos erros que desarmaram os revolucionários de Outubro perante as dificuldades da história, favorecendo a contra-revolução termidoriana: confusão entre povo, partido e Estado, cegueira em relação ao perigo burocrático. Temos que tirar algumas lições da história: importância da democracia socialista, do pluralismo político, da separação dos poderes, da autonomia dos movimentos sociais em relação ao Estado. Quanto ao termo “ditadura” (do proletariado), ele está doravante bastante carregado de ambiguidades e associado às experiências históricas demasiado dolorosas para ainda ser utilizável sem risco de confusão.

Como definir o sistema político estalinista? O conceito de “totalitarismo burocrático” de Trotsky não está longe de certas análises de Hannah Arendt. E se os marxistas revolucionários, depois da Segunda Guerra Mundial, se vão dividir na questão da natureza da União Soviética, as teses defendidas por Tony

Cliff, Cornelius Castoriadis e Ernest Mandel são, apesar das suas diferenças, fundadas sobre a ideia comum de uma contra-revolução burocrática.

TEOREMA 5: A dialéctica da razão não se REDUZ ao espelho partido da pós- modernidade.

Este teorema é aquele que me suscita mais reservas. A defesa de Daniel Bensaid do Racionalismo, da Modernidade e das Luzes contra o “reencanto do mundo”, parece-me um pouco esquemática. E sobretudo, espanta-me a sua crítica a “Modernity and Holocaust”, o “clássico” do sociólogo Zygmund Bauman – demonstração remarcável do carácter intrinsecamente “moderno” do genocídio nazi – como fruto de uma desafeição em relação à modernidade” e um “regresso identitário à judeicidade”...

Pelo contrário, parece-me que ele tem razão ao definir a modernidade e a pós-modernidade como duas faces de Janus, dois pólos magnéticos da acumulação do capital, duas tendências contraditórias inerentes à lógica do valor que se valoriza. Ele não tem menos razão de se opor ao culto pósmoderno da fragmentação, dos boiões de cultura mercantis, das jardineiras de legumes literários, e em reafirmar, inspirando-se em Lukacs, que a totalidade é irredutível aos fragmentos dispersos. A recusa dogmática da totalidade e a tentativa da sua decomposição em partes sem coerência do conjunto, respondem a um medo difuso de todo o projecto radical de transformação social. Quanto à universalidade, sobre a sua forma abstracta, ela é muitas vezes a máscara da dominação – colonial ou masculina. Mas a sua crítica não pode evitar a referência, implícita ou explícita, a uma universalidade concreta e em movimento.

O caldeirão

A corrente escaldante da indignação não se dissolve nas águas mornas da resignação consensual. Esta conclusão é esplêndida. Ela apoia-se no elogio da indignação e no desprezo pelo “homo resignatus”, político ou intelectual que se reconhece ao longe pela sua impassibilidade batráquia perante a ordem impiedosa das coisas. Para além da modernidade e da pós-modernidade, resta-nos a força irredutível da indignação, a recusa incondicional da injustiça, que são exactamente o contrário do hábito e da resignação. “A indignação é um começo. Uma maneira de levantar e de se pôr a andar. Indignamo-nos, insurgimo-nos e depois se vê.”

É esta força da indignação que atravessa, como um sopro inspirado, este pequeno desordeiro, cujas qualidades literárias e o dom da fórmula estão ao serviço de uma causa que permanece, mais do que nunca, irredutivelmente na ordem do dia: a emancipação dos oprimidos, o comunismo.

* Sociólogo, investigador no CNRS em Paris.

Tradução: António josé andré

Texto extraído do PDF da revista que o combate.info publicou; as citações em destaque e as legendas foram omitidas.

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