“Join your fellow Americans before it’s too late”
“In the Shadow of No Towers”, de Art Spiegelman · Combate n.º 281, dezembro de 2004 a fevereiro de 2005, pp. 50–51
Revista Combate2004Sara Figueiredo CostaAo contrário de Maus, obra de grande fôlego narrativo, In the Shadow of No Towers é um livro construído a partir de momentos individualizados e reacções quase imediatas à sucessão dos acontecimentos. Uma espécie de álbum de recortes dos tempos que se seguiram ao 11 de Setembro de 2001 e à destruição das Torres Gémeas, iniciado a partir de uma série de reflexões que podemos acompanhar no texto introdutório, intitulado “The sky is falling”. Aqui, Spiegelman explica que o seu regresso à banda desenhada (há muito que só publicava ensaios e ilustrações para o New Yorker) foi motivado pela brutalidade do que aconteceu no dia 11 de Setembro e pelo modo como a administração Bush geriu esses acontecimentos, transformando-os num bom motivo para iniciar uma guerra há muito desejada.
A crítica ao nacionalismo
O ponto de vista de In the Shadow of No Towers é claro: Spiegelman sabe que está a viver acontecimentos que marcarão o futuro. Ou, nas suas palavras, um tempo “onde a História do mundo e a História pessoal colidem – a intersecção sobre a qual os meus pais, sobreviventes de Auschwitz, me avisavam quando me diziam para ter as malas sempre feitas”. Mas sabe que o modo como o futuro se sucede depende muito das leituras (e das leituras políticas e mediáticas em parti
cular) que se fazem sobre os acontecimentos presentes. Por isso mostra, nas pranchas deste In the Shadow of No Towers, que os apelos do Governo à solidariedade vão desembocar, em quase todas as circunstâncias, nos sentimentos patrióticos que de repente ganharam uma dimensão nunca antes vista, e que esses sentimentos se resumem à presença de bandeiras dos EUA em todos os lugares possíveis e imaginários e a uma certa desconfiança constante relativamente a qualquer tipo de diferença ou de alteridade. A febre das bandeiras, tão bem caricaturada por Spiegelman em várias pranchas deste livro, provocou uma proliferação de riscas azuis e vermelhas que raia a opressão visual (e que suscita no narrador a seguinte pergunta: Porquê o provincianismo das bandeiras americanas enchendo o Ground Zero? Porque não...um Globo?). Associada à desconfiança permanente e à fúria justiceira que fez com que muçulmanos, sikhs ou latinos de pele mais escura fossem alvo de agressões físicas e morais um pouco por todos os estados, estavam criadas as condições para uma paranóia colectiva tão benéfica para a saúde mental dos cidadãos norte-americanos como uma bomba nuclear!
Desenhar contra a propaganda
Ao longo do livro, são vários os exemplos desta utilização política do 11 de Setembro e do modo como os acontecimentos se sucederam de acordo com o rumo traçado por quem soube adaptar a leitura dos factos aos seus próprios objectivos. Spiegelman mostra alguns contrastes, na tentativa de clarificar a sua opinião: as imagens das pessoas que saltaram pelas janelas das torres são mostradas até a exaustão durante semanas, ao contrário das imagens dos que há muito morrem à fome pelas ruas de Manhattan. É claro que não se trata de escolher qual a morte mais dolorosa ou incompreensível, mas sim de perceber que a dimensão humana de um drama e as ilações comuns que daí resultam se devem também ao tipo de exposição mediática que dele se faz. E os media norte-americanos (e não só) foram exímios em propagar até ao infinito as imagens das torres desfazendo-se em pó, ajudando a instalar a paranóia colectiva que Spiegelman não se cansa de denunciar.
A esse respeito, a prancha que abre o livro é um bom ponto de partida para a reflexão em torno do poder das imagens televisivas. Spiegelman, que se assume sempre como narrador e personagem principal, explica que viu as torres a desabarem ao vivo e in loco, já que vive nas imediações do que agora se chama Ground Zero. E viu depois, claro está, as inúmeras repetições do acontecimento na televisão. Surge, então, a incontornável questão da escala, esse recurso tão essencial à banda desenhada que permite, entre outras coisas, que dois arranha-céus ocupem a totalidade do ecrã das nossas televisões, ocupando, numa espécie de sinédoque medonha, todo o mundo perceptível. Também é disso que se trata. E não se pense que Spiegelman, em algum momento, ridiculariza a tragédia que se viveu no centro de Manhattan em Setembro de 2001. Pelo contrário. Mas Spiegelman sabe, e talvez o seu passado e as suas origens não sejam tão alheias a isso como se possa pensar, que o que decorrerá dessa tragédia e do aproveitamento político que dela se fará será infinitamente maior, mais complexo e seguramente mais perigoso do que a tragédia em
si. E a capa de In the Shadow of No Towers convoca essa ideia de modo eficaz e simultaneamente muito bem conseguido do ponto de vista visual: sobre um fundo totalmente negro despontam, em função da luz e do movimento que permitirmos, duas torres igualmente negras. Na realidade, são unicamente sombras, dando à materialidade das torres uma existência apenas permitida por determinado ângulo de visão, mas que se desenha a todo o momento em noticiários, capas de jornais e discursos políticos.
“Join yor fellow americans before it’s too late... RISE UP & STICK YOUR HEADS IN THE GROUND”. A frase serve de título a uma das pranchas do livro e a imagem que a ilustra não podia ser mais literal.
Às imagens do 11 de Setembro seguiram-se cenas típicas de um western cinematográfico, com Bush falando de “caça ao homem” e de “guerra aos nossos” numa tentativa de ganhar adeptos para o que se seguiria. O nome de Bin Laden foi repetido milhares de vezes entre promessas de vingança e invocações do orgulho pátrio, situação que Spiegelman retrata de modo notável numa vinheta onde se vê a sua própria imagem, com a cara de rato que Maus tornou famosa e desencadeadora de múltiplas interpretações, desmaiada em cima de um estirador ladeado por Bush e Bin Laden, cada um mais armado do que o outro. A legenda diz: “Atacado do mesmo modo pela Al-Qaeda e pelo meu Governo”.
Às trocas de ameaças multilaterais segue-se o bombardeamento indiscriminado do Afeganistão, mostrando o braço de ferro americano do modo mais mediático possível e sem pensar muito no futuro menos próximo, e logo depois a insuspeita declaração que nos trouxe até onde ainda estamos: há armas de destruição massiva no Iraque. A relação com o 11 de Setembro não foi bem explicada, mas o contexto que se havia criado até aí permitia que as explicações não fossem exigidas, pelo menos de modo bem visível, pela maioria numérica dos cidadãos dos EUA. Se Bin Laden tinha relação com os Taliban e o Afeganistão e se a cobrança dessa relação se fez com bombardeamentos, porque não prossegui-los um pouco mais ao lado, num também possível alvo responsável pela queda das Torres? Spiegelman brinca, do modo sério e inteligente como só um excelente argumentista saberia, com este engano colectivo levado a cabo pelo Governo americano e mostra, em pranchas onde a ironia e uma certa tristeza (acentuada pelo peso da História na sua genealogia pessoal) marcam presença constante, que quem gere o modo como os factos chegam às pessoas gere também o destino dessas pessoas, não se esquecendo de o traçar sem grandes preocupações para além das suas próprias. A mensagem é simples, talvez simplista e até algo gasta, mas faz o sentido que desafortunadamente sempre fez, sem arte ou poesia que não sejam as do traço e do argumento de Spiegelman. E isso transforma In the Shadow of No Towers num livro essencial para compreender a actualidade, que se faz tanto dos acontecimentos que são notícia como das perspectivas que se desenham a partir deles.
* Investigadora na área da literatura, autora de um blogue sobre BD; http://becodasimagens.blogspot.com
Texto extraído do PDF da revista que o combate.info publicou; as citações em destaque e as legendas foram omitidas.