Capitalismo e desejo
Combate n.º 281, dezembro de 2004 a fevereiro de 2005, pp. 43–47
Revista Combate2004Miguel AntunesO CAPITALISMO e o desejo estão intrinsecamente ligados num processo de alienação chegando ao ponto de se poder dizer que à força se tornaram um só. Isto porque o capitalismo aproveita uma característica do tipo de constituição da personalidade do homem moderno para se instalar como forma única do desejo e da obtenção da satisfação desse desejo fundindo desejo e necessidade num só objecto alucinatório que é repetido/revivido infinitamente no consumo.
Começando pelo princípio: na concepção freudiana do aparelho psíquico, o desejo é uma instância inconsciente que tende a realizar-se restabelecendo os sinais ligados às primeiras experiências de satisfação. Ou seja, o desejo realiza-se no adulto pela repetição simbólica das mesmas circunstâncias que foram aprendidas pela criança aquando da satisfação de uma necessidade básica.
É no chamado processo primário que a criança aprende a sentir, aprende como sentir e o que sentir aquando da realização de uma necessidade. Ela aprende e guarda o que se chama um traço mnésico, uma marca de memória relativamente ao que se deve sentir quando há uma necessidade (tensão) e a respectiva satisfação (prazer/restabelecimento do equilíbrio).
A essa satisfação de uma necessidade como a alimentação fica associada uma imagem e uma percepção que ilustram, que definem o que é a satisfação de uma necessidade. A imagem é a do objecto que produz a satisfação (o leite, por exemplo) e a percepção é aquilo que caracteriza a satisfação, é a memória do momento do sentimento que acompanhou a satisfação física.
Por isso inicialmente só há a necessidade que é desencadeada pelo instinto de sobrevivência. O desejo nasce, espontaneamente, num segundo momento pela possibilidade de se
sentir a tal sensação de satisfação ou prazer sem ter de a associar à tal imagem (o leite ou outro objecto que satisfaz). Por assim dizer, o desejo nasce da autonomização do prazer, pela abstractização do prazer. Passa-se a saber que o prazer ou a satisfação não se reduzem ao leite ou ao sono, há uma libertação do objecto material. O desejo basta-se pela sua própria percepção sem objecto. Por isso se diz que o desejo tem em si mesmo e na sua realização (sem objecto) uma característica alucinatória de base.
Esta percepção (da satisfação, não do leite), de forma simbólica, estará presente sempre que a situação se repetir. Assim, quando a necessidade se apresentar, haverá o desencadeamento de um impulso psíquico que investirá de novo a imagem mnésica dessa percepção na memória e provocará de novo a própria percepção, ou seja, reconstituirá a situação da primeira satisfação aprendida. Por isto é que é que disse que o desejo é aprendido. O desejo é uma instância psíquica que é aprendida espontaneamente e que se enraíza desde o início num forte elo fisiológico à necessidade de sobrevivência.
Não existe nunca a satisfação do desejo
É a este movimento que se chama desejo: o reaparecimento da percepção que é a realização do desejo.
Depois da primeira experiência de satisfação, a manifestação desta energia psíquica que é jogada no desejo deixa de ter de aparecer como pura necessidade. Isto porque já se aprendeu como funciona o processo de obtenção de satisfação e esta aprendizagem está ligada a uma representação mnésica. Sempre que uma situação similar se coloca a consciência tem acesso, por assim dizer, à solução, revivendo através da memória o momento da satisfação (e o objecto que causou a satisfação). É assim que da necessidade nasce o desejo.
É por isto que não existe, propriamente falando, nunca a satisfação do desejo na realidade: é que a dimensão do desejo não tem outra realidade além da realidade psíquica.
E ainda bem que assim é, uma vez que o aparelho psíquico (estrutura na qual assenta a possibilidade de construção da personalidade) funciona com base em trocas energéticas e em equilíbrios energéticos ou como Freud chama – pulsionais -. Desta forma, a realização total e definitiva do desejo originaria em teoria um colapso do sistema. Seria semelhante à apatia total, a um estado de morte psíquica. Não desejar nada é não se conseguir relacionar com a vida, é não ter desejo de vida, de viver. Psiquicamente não é impossível, pelo contrário, é mesmo muito frequente, é uma das características da patologia da personalidade que se chamou neurose e que muitos conhecem como depressão nervosa.
Agora a questão a colocar é: “Desejar o quê?”, ou por outras palavras a pergunta a fazer é como educar um desejo
criativo, construtivo, um desejo de mudança que rompa com o conformista desejo de objectos de consumo. Até porque o desejo meramente objectal é de certa forma uma regressão a um estado em que o desejo se cinge à pura necessidade orgânica de sobrevivência.
Desejar é já por si obter um prazer
A realização do desejo no adulto será uma alucinação, um reinvestimento do traço mnésico da satisfação tal como ele foi aprendido na infância. Usa-se o termo alucinação porque a satisfação do desejo tem por base uma percepção que se guardou na memória, mas essa percepção não tem já o objecto que lhe deveria dar origem. Apenas ficámos com a percepção da satisfação; o objecto (alimento, por exemplo) já não é necessário para compreender nem para reviver o que é a satisfação nem o desejo.
Acrescente-se ainda que a alucinação da percepção que é a repetição mental do momento de satisfação não é suficiente para satisfazer a necessidade, deve haver uma resistência que se oponha à realização do desejo. Falando em termos comuns “só dás valor às coisas quando não as tens”. O desejo definese também a partir dessa sensação de desprazer que é uma tensão devida à necessidade; e da ligação desta necessidade à imagem mnésica que é a recordação da percepção que acompanhou a primeira satisfação aprendida.
É a conservação dos traços mnésicos inconscientes que está na origem de uma repetição indefinida (do desejo) que permite ao desejo dar lugar ao prazer. É por isso que o objecto que despertará o desejo não estará apenas limitado a ser o resultado de uma necessidade real biológica. Nem por outro lado o objecto que satisfaz o desejo tem de coincidir com a necessidade que gerou esse desejo.
Por exemplo, ter um bem material caro com assinatura de marca não tem de responder ao desejo que deu origem à aquisição desse bem. Especialmente se o desejo for definido e aprendido social e culturalmente como posse ou aquisição - consumo indefinido e infinito, repetível infinitamente e de forma indefinível (consumir o que quer que seja).
Aquele estado de “desprazer” que acompanha o desejo acaba por ser aprendido como falta que se dirige ou se preenche no ecrã da mente com um qualquer objecto que o apazigúe momentaneamente. A tensão baixa enquanto a mente está ocupada com a imagem ou quimera daquele objecto. O valor do próprio objecto de desejo é pequeno. Este só vale enquanto é o resultado do investimento pulsional simbólico confortável e conformado. É este investimento afectivo num qualquer objecto que ocupa e preenche o ecrã da mente e que permite que se pense: “tenho mesmo de ter aquilo…”.
Vemos que o objecto que desperta o desejo se distingue
do objecto que dá a satisfação da necessidade. O objecto que desperta o movimento do desejo é na maioria dos casos um objecto alucinado, ou mais precisamente, o investimento ou reinvestimento de uma imagem mnésica passada que não tem correspondente material. Nenhum objecto enquanto tal pode corresponder ao objecto sentido por mim. O capitalismo vai ao encontro desta estrutura deste aprender a desejar: primeiro modela-o, depois alimenta-o(se). O caminho para uma lógica de consumo está incluso na própria lógica interna do desejo tal como ele é aprendido.
Desejar e a satisfação são um e o mesmo momento. Talvez por isso se possa ver o alucinado consumidor vaguear as grandes superfícies comerciais borbulhando: “que vou eu desejar?”, porque o próprio desejar antecipa a recompensa da sua satisfação baixando a tensão e perpetuando o ciclo.
Desejo e consumo têm a mesma estrutura: não está em causa tanto o que se consome mas o desejar repetir um sentimento de prazer independentemente de qual o objecto sobre o qual se investe esse sentimento. O objecto ou produto e o agente de produção desaparece neste modelo do desejo capitalista. Só há dois pólos: o desejo e o capital.
O consumo torna-se desejo
Então e se substituirmos o desejar o desejo (ou seja, a satisfação) por desejar o consumo? O consumo torna-se desejo, toma o lugar deste: um ciclo energético infinitamente repetível que se realiza, que se aprende como sendo a única forma de obter satisfação. Mas como o desejo é uma instância meramente psíquica que tem um princípio energético – as pulsões inconscientes – e não material, ele é ierrealizável. Isto é, é uma estrutura que aprendida e constituída de determinada forma materialista se torna na adicção perfeita: a adicção do consumo. Adicção esta que por razão da sua natureza ser uma representação psíquica já sem objecto não encontrará nunca nenhum correspondente material que a preencha. Nenhum objecto de consumo alguma vez realizará a falta, a necessidade aprendida como desejo de consumo, o desejo material.
A estrutura capitalista modela o desejo em consumo de forma a que os dois se tornem um só. Tornamo-nos máquinas de consumo, máquinas desejantes. É por isso que se quer sempre mais, é por isso que se diz que a única coisa que nunca é demais é o dinheiro.
Esta necessidade compulsiva e alienante – o desejo modelado pelo capitalismo - tornou-se o elemento chave na compreensão das adicções, tornando-se num desvio da ordem do vital para a ordem do patológico caracterizando-se pela redução do objecto do desejo ao objecto da necessidade. Isto é, quando se aprende a desejar o consumo e este é apenas uma forma materialista de modelar e limitar o desejo, então está-se a reduzir o objecto do desejo ao objecto que gera a necessidade – o próprio consumo ilimitado-.
Máquinas desejantes
Este termo usado por Gilles Deleuze é extremamente relevante para compreender e pensar esta deformação do desejo: tudo é máquina e tudo é produção. Somos máquinas desejantes que funcionam num regime associativo, isto é, sempre ligadas a outra máquina formando um grande organismo que é o sistema de (produção-)consumo.
A produção como processo forma um ciclo cujo princípio imanente é o desejo. É por isto que a produção desejante é a categoria materialista fundamental. Todos são máquinas desejantes e tudo é produção: produção de desejo e produção de capital. Entre estes dois pólos fecha-se o ciclo da máquina capitalista.
Neste processo o produzir está sempre já inserido no produto, por exemplo, o produzir mais desejo de consumo está inserido no produto que uma vez comprado referencia para outros acessórios que têm de ser com ele adquiridos ou completáveis e é o desejo que faz constantemente a ligação dos objectos, dos produtos a desejar sem nunca se fixar ou terminar em nenhum. O desejo faz correr, corre e corta as associações neste processo capitalista.
O capital, segundo Marx, não é o produto do trabalho, mas aparece como o seu pressuposto natural ou divino, ele constitui uma superfície onde se distribuem as forças e os agentes
de produção, de modo que se apropria do sobreproduto e se atribui a si próprio o conjunto e as partes do processo.
O capital é não só a substância fluida e petrificada do dinheiro, mas vai também dar à esterilidade do dinheiro a forma com que este produz mais dinheiro. E é no capital que se engatam as máquinas desejantes e os agentes num ciclo que acaba por ser improdutivo.
Tudo parece ser produzido pelo capital enquanto quasecausa. Como diz Marx, no princípio os capitalistas têm necessariamente consciência da oposição do trabalho e do capital, e do uso do capital como meio de extorquir sobre-trabalho. Mas depressa se instaura um mundo perverso enfeitiçado, enquanto que o capital tem o papel de superfície onde se rebate toda a produção cujo único fito é fornecer mais-valia, ou realizá-la. À medida que a mais-valia relativa se desenvolve no
sistema especificamente capitalista e que a produtividade social do trabalho cresce, as forças produtivas e as conexões sociais do trabalho parecem separar-se do processo produtivo e passar do trabalho ao capital. O capital torna-se assim num ser bastante misterioso, porque todas as forças produtivas parecem nascer no seu seio e pertencer-lhe.
De início há portanto a percepção de um funcionamento e de um objectivo claro que é a mais-valia a obter do trabalho produzido pelos agentes de produção. Contudo, o capitalista acaba por perder de vista as regras do jogo que o acabam por ultrapassar. O capital enquanto superfície onde se distribuem as forças de produção, enquanto tabuleiro do jogo de produção tem características que por serem progressivamente assignificantes anulam os agentes e transmutam o trabalho em capital.
Assim, o capital enquanto objecto simbólico é aquele que melhor sintetiza a alucinação de satisfação do desejo tal como ele foi aprendido. O capital funciona melhor do que um qualquer objecto de desejo proposto para consumo, ele representa todos os objectos, ele representa o acesso e o poder sobre o próprio consumo. Desta forma, ao capitalista é fácil anular o significado dos elementos de conjunto. No ecrã da consciência passa a ser projectado apenas o ciclo do capital, mais capital, mais capital. O dinheiro é aquilo que nunca se tem demais, diz-se.
É o desejo que alimenta o capital
O desejo, processo vital cíclico sem objecto, foi tornado capital. O início e o fim do processo fecham-se num mesmo momento improdutivo e repetível indefinidamente; o desejo tornou-se assignificante, não precisa de nada mais que o corpo do capital para se realizar. O desejo realiza-se no corpo ou superfície de registo onde se inscreve o capital que domina todos os momentos do processo, desde a produção (material e desejante) até à satisfação ou consumo.. O capital atrai a produção desejante e apropria-se dela. O desejo foi adestrado, foi modelado. A sociedade moderna constrói assim o seu próprio delírio ao afirmar este processo de produção ao afirmar este adestramento do desejar e do viver.
Escusado será dizer que quando se diz que somos ensinados a desejar assim isso implica que há outras formas de realizar, de formar o desejo. Em primeiro lugar é preciso compreender o funcionamento desta máquina para depois se poder fazer uma “desintoxicação” do desejar-consumir. Por outro lado, o compreender e o libertar-se da lógica não é feito por um movimento de simples oposição.
Suponho que nunca se consegue ganhar uma luta complexa simplesmente por contrariar ou fazer só o contrário daquilo que o adversário faz. Isso seria regredir à fase infantil do “não”, ou à perspectiva moralista do asceta religioso. Se o campo de batalha for circular ou matemático acabamos por ser apanhados no extremo oposto pelas mesmas armas que vencêramos antes. Costuma ser preciso gastar mais energia quando se quer fazer as coisas bem. Experimente agitar antes de abrir…
* Professor. [email protected]
Texto extraído do PDF da revista que o combate.info publicou; as citações em destaque e as legendas foram omitidas.