combate

Arquivo da LCI, do PSR e da APSR, secção portuguesa da IV Internacional, e da sua imprensa, 1973–2013

O PSR de sempre

Carlos Carujo · dezembro de 2004 · Revista Combate · 2.102 palavras

Combate n.º 281, dezembro de 2004 a fevereiro de 2005, pp. 8–11

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DE VONTADES, de razões, de afectos diversos e às vezes até contraditórios se faz a militância. Nunca acabados, sempre numa reconstrução permanente, são mais do que um património a preservar, uma forma de viver. Não mudámos a nossa pele, mas também não queremos ficar encrostados numa rigidez isolante. Aliás, esta nossa maneira de estarmos juntos/as nunca passou pela atitude defensiva do isolamento face à realidade ou aos outros/as.

Trata-se então de mobilizar tudo isto de forma diferente e não de esquecer, mesmo que celebrando o passado. Temos hoje outras necessidades de militância e, se a realidade é mutante, a militância ainda mais o deve ser, não retroactivamente para se adaptar a ela mas activamente para a mudar. E nela as vontades, as razões e os afectos mais do que serem reformatados devem ser o motor das diferenças e das continuidades, das mudanças e dos alargamentos do projecto político. Só assim poderemos potenciar a nossa força militante. Por isso precisamos agora de fazer mais PSR. E fazer mais PSR agora é fazer mais Bloco de Esquerda. O que não é nada de contraditório.

A 11 e 12 de Dezembro o PSR vai, assim o decidam os/as seus/suas militantes, deixar de ser um partido e tornar-se uma associação política, uma corrente que intervém no interior do Bloco de Esquerda. A decisão será, antes de mais, simbólica. De facto, desde o nascimento do Bloco de Esquerda que o PSR

funciona como corrente política tendo abandonado qualquer intervenção pública em nome próprio. Ao escolher construir o Bloco como movimento político plural, estava implícito que mais tarde ou mais cedo isto iria ocorrer, dependendo das velocidades diversas das várias correntes.

E se as vontades, razões e afectos constitutivos do projecto político não são passado, a forma partido e a intervenção política própria já são e sê-lo-ão de forma mais interiorizada depois da transformação oficial em associação política. É assim tempo de relembrar que há que continuar a resgatar o programa político essencial do passado em vez de o enterrar.

Elogio nada fúnebre: É Só o começo, continuemos o combate

Herdeiros da intransigência criadora, seja a de Maio de 68, a de Abril de 74 ou de todos os tantos dias em que a construímos paciente e impacientemente, sabemos que essa parte de nós não é passado, não ficou para trás na urgência dos quotidianos cansados. É tarefa e atitude persistente. Memória e carga afectiva, esperança e projecto misturam-se connosco próprios/as.

Todo um percurso feito para mudar a realidade, com a vontade de o fazer com tantos/as outros/as que não estiveram

connosco e com a certeza de que não seríamos os portadores únicos das certezas absolutas que a iriam transfigurar por revelação quase divina ou, por outro e pelo mesmo lado, pelo prosseguimento mecânico da marcha inelutável do mundo. Foi assim a LCI e o PSR, queremos assim o Bloco, connosco e com outros/as. A memória não tem de ser o lugar da autoproclamação e do sectarismo.

E é assim por um programa actual: anti-colonialistas, antiimperialistas, anti-capitalistas, alter-globalistas, feministas, orgulhosos/as de sermos como somos sexualmente, ecologistas, trotskistas, numa palavra: revolucionários. Aquilo que somos no Bloco. Fizemos muito e está tudo por fazer, a absurda alegria sísifa da militância: o combate contínua.

Grande parte do programa, retirado a cada momento do baú da nossa memória militante, mantém a capacidade transformadora da sociedade e o potencial subversivo. Mas devemos ainda ter em atenção que um projecto só é revolucionário se mantiver viva a capacidade de se revolucionar, de se subverter a si próprio compreendendo as suas limitações: repetir fórmulas linguísticas e formas de pensamento nada tem de revolucionário. Cabe também ao revolucionário compreender que a forma de organização da realidade que o capitalismo impõe, imprime formas de ser, de estar e de pensar e que não é o facto simples de se considerar revolucionário que torna alguém imune. Seremos revolucionários também tanto quanto as rasguemos. Porque o essencial do programa revolucionário estará por construir, tanto como o estão novas formas de pensar.

Um Bloco entre muitos: A reconstrução da esquerda anti-capitalista na Europa

A forma “partido” correspondia à necessidade de construção de um projecto político independente e serviu à LCI primeiro e ao PSR depois numa altura em que se revelava urgente construir uma alternativa ao estalinismo e ao reformismo social-democrata dominantes. Só assim se afirmava que o comunismo não tinha de estar entalado entre as ditaduras cinzentas e os pactos de regime. E esta afirmação passava, por exemplo, pela presença eleitoral com tudo o que isso assegurava de ligação à sociedade.

Por mais tentativas frentistas que se buscassem no clima revolucionário pós-25 de Abril, a pulverização de projectos políticos, alguns bastante inconsistentes, e os sectarismos encarregavam-se que a unidade de esquerda se dissolvesse no ar. Mas mesmo quando a afirmação própria foi a forma de sermos revolucionários, a frente única anti-capitalista sempre foi mais do que um discurso: o PSR fazia sua a bandeira da

unidade da esquerda face ao capitalismo mais do que por tacticismo ou de forma auto-proclamatória, encerrava-se nessa consigna uma esperança e uma necessidade fundamentais.

Mais tarde o PSR foi uma trincheira da alegria militante. Esperando por um momento em que a esquerda radical pudesse retomar a iniciativa, esperando mas não passivamente, esperando e agindo. A tarefa da manutenção deste espaço político vivo, ao longo dos anos 80 e do conservadorismo, só foi possível devido à imaginação e força de um pequeno núcleo de militantes que se recusou sempre fechar sobre si. Por isso a irreverência profunda da ovelha negra que resiste à facilidade de ir com o rebanho simbolizou o PSR.

Depois da queda do “socialismo real”, do enfraquecimento dos partidos de tradição estalinista e das experiências governativas sociais-democratas terem imposto a 3a via como proposta social-liberal, a escolha perante a qual se encontraram diversas esquerdas pela Europa fora e noutras paragens era entre manter-se na trincheira e viver a grupusculização panfletária ou partir para a ofensiva e tentar reconstruir o espaço em aberto de alternativa ao capitalismo.

Foi isso que nós e outros/as fizemos no Bloco de Esquerda e por outras bandas. Processos de diferentes práticas e sentidos e que acarretam hegemonias político-ideológicas e organizativas diferentes em paragens diferentes. O que faz com que o processo seja variado, desigual e combinado, relativamente débil em muitos lados ou mesmo inexistente. Contudo, somado à militância proliferante da alter-globalização que responde à ordem neo-liberal e belicista agressiva com a diversidade, este processo é a mais fundada a esperança de acção revolucionária sobre a realidade com que pudemos contar. Um dos desafios passa a ser o de fazer com que a antiburocracia deixe de ser apenas discurso de oposição a outros projectos e passe a ser a prática que envolva organizações de massas numa nova forma de construir o socialismo.

Sendo alter-globalização e reconstrução da esquerda anticapitalista processos nem sempre coincidentes, ora autónomos ora inter-relacionados, e sendo processos nascentes, esperamos, todos os debates que proporcionam estão também a começar. Em Portugal a reconstrução política parece ir bem e recomenda-se mas a alter-globalização ainda é relativamente débil faltando as novas gerações militantes que este movimento viu surgir em muitos sítios.

Assim sendo, não é tempo de tirar conclusões, e nunca será tempo de indicar modelos ideais válidos para todas as circunstâncias. Só que faz falta estar atento ao que noutros

lados acontece e como estão outros/as a enfrentar questões semelhantes como por exemplo a passagem de projectos políticos independentes e ciosos das suas diferenças apesar das afirmações de unidade a projectos realmente unitários.

Militar nas correntes e fazer juntos/as o contra a corrente

E, dado isto, em que militância nos devemos criar? Em parte a realidade e o que queremos dela já transformou a militância ou está a transformá-la mesmo que o processo não seja consciente.

E se nos movimentos sociais possíveis que existem ou que nos traga ainda a alter-globalização vivemos e viveremos a enésima militância possível e sentimo-nos bem com isso, na continuidade do que o PSR sempre tentou por exemplo com o anti-militarismo ou o anti-racismo, porque nos damos bem na novidade, no confronto de ideias e na diversidade, já se o nosso último reduto militante muda, tudo se transforma. A nossa militância desterritorializou-se e reterritorializou-se, da militância num pequeno partido irreverente à assunção do papel de corrente fundadora do Bloco, que tem uma outra projecção social.

Trata-se de passar de partido a corrente e, no Bloco, ser partido e corrente ao mesmo tempo. A enésima militância é facilmente colocada no nosso mapa militante mesmo que a cartografia não seja linear porque são espaços naturalmente diferenciados segundo o nosso hábito: o político e o social. O problema é quando se cruzam plataformas e projectos no espaço político essencial o que escapa aos nossos hábitos.

Desde logo é necessário afastar o equívoco simplista da antítese imediata, o choque de espaços: ou construir o partido (Bloco) ou construir a corrente (PSR), ou ficar pelas vistas curtas “abandonando” o Bloco para afirmar a superioridade da sua pequenez e pensar a cada momento na corrente ou limitar a força da corrente para não perturbar o projecto do movimento mais alargado. A acreditar na segunda alternativa teríamos uma perspectiva minimalista de corrente, com um sentido de pertença longínquo a uma história e à Quarta Internacional ou o lugar para uma certa dose de ideologia desde que não interferisse com a prática ou então uma coordenação limitada a uma direcção que agiria no Bloco mas não se construiria nem discutiria alargadamente as suas decisões.

Ora não temos de estar partidos entre o bloco e nós próprios porque não há oposição quando nós próprios somos com outros o Bloco. Por outras palavras, a nossa singularidade dentro do Bloco não tem de ser a nossa forma de estarmos sozinhos/ as ou contra outros/as. Será o que sempre foi: a nossa forma de sermos e estarmos com outros/as. Com o bloco queremos quebrar a noção habitual de espaço político através da experiência diversidade real. A identidade do PSR e do Bloco são

e serão multiformes. Uma nova sobreposição como disposição das forças militantes da esquerda anti-capitalista.

E isto passa também por convidar quem queira ser connosco e partilhar de todas as complexidades destas novas disposições, sem complexos ou vontades hegemónicas. A isso se chama construir uma corrente e assim um bloco feito de correntes ganhará vida e qualquer uma das correntes será mais do que um museu da sua própria militância anterior. Um Bloco múltiplo precisa que pólos diferentes o façam de modo não concorrencial e inovador, se possível.

A divergência como futuro da democracia e a radicalidade do Bloco

O Bloco não tem de ter um futuro unanimista. As divergências e convergências abertamente colocadas, debatidas sem dramatismo e sem contar de espingardas e trompetas de guerra, num clima de debate que pode acontecer, sem o medo de abrir brechas na direcção, podem fundar na prática uma militância de tipo diferente, um movimento novo como o Bloco se quer.

O Bloco precisa desses debates que aprofundarão a sua capacidade militante bem mais do que dos debates iniciados por alguns grupos que parecem continuar a funcionar na lógica da auto-proclamação, apenas num superficial concurso de aparentes radicalidades feitas para se construírem apesar do Bloco e não para construírem o bloco. Sem dúvida que estes debates são úteis e necessários para o Bloco em geral e para cada uma das correntes em presença deixar claro o seu projecto. Só que, apesar de tudo, há outros que parecem mais urgentes e por vir. E da generalização e do grau de democratização desses debates através de novas formas se medirá também (até pelo que têm de formativo) a capacidade de sobrevivência do Bloco como projecto transformador da sociedade portuguesa. E essa bem que poderá ser mais a realidade da divergência colaborante do que a da fusão de correntes, ainda que o mapa das actuais correntes possa passar a ser diferente.

Esse carácter transformador medir-se-á também pela necessidade de se encontrar permanentemente com a radicalidade. Face aos perigos de acomodação e de rotina que o Bloco enfrenta, como qualquer outra força política. E este perigo é tanto maior quanto se mantenha a situação de força parlamentar e de fraqueza social. A radicalidade do Bloco joga-se em primeiro lugar na possibilidade de se construir como força social actuante. O Bloco deve construir um bloco social mais largo do que as suas fronteiras na radicalidade dos enfrentamentos sociais profundos, apresentando propostas que enfrentem os poderes estejam onde estiverem e que criem as linhas de ruptura frutuosas com o capitalismo. É para isso que é necessário fazer das nossas militâncias um bloco em reconstrução permanente.

* Professor, editor da revista Combate [email protected]

Texto extraído do PDF da revista que o combate.info publicou; as citações em destaque e as legendas foram omitidas.

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