O príncipe das trevas
Richard Perle · Combate, abril e maio de 2003, edição em linha
Jornal2003João Romão“O reino do terror de Saddam Hussein está prestes a terminar. Vai cair rapidamente mas não sozinho: ironicamente, vai arrastar consigo a queda das Nações Unidas. (...) O que vai morrer é a fantasia de umas Nações Unidas como fundadoras de uma nova ordem mundial".
A previsão é de Richard Perle, também conhecido como "O Príncipe das Trevas", expressa pelo próprio em artigo com o título "Thank God for the Death of UN", publicado a 19 de Março, na revista Spectator, anunciando já as novas regras que a administração americana quer impor no plano internacional, legitimadas pelo sucesso do sua agressão ao Iraque: "Não nos esquecemos de quem manteve a autoridade moral da comunidade internacional presa a uma súplica por mais tempo de inspecções, nem de quem marchou contra a mudança de regime. No espírito da reconciliação de pós-guerra que os diplomatas são sempre ágeis a engendrar, não devemos reconciliar-nos com a tímida e ferrugenta noção de que a ordem mundial nos obriga a encolher-nos perante estados que aterrorizam os seus próprios cidadãos e ameaçam os nossos". A disponibilidade americana para concretizar ataques de destruição massiva sem suporte internacional mantém-se em aberto: "Os estados mais perigosos são os que possuem armas de destruição massiva. O Iraque é um, mas há outros".
A legitimação do poder do mais forte tem corolários imediatos: quando o governo russo, a 21 de Abril de 2003, insistiu na necessidade de uma declaração escrita pelos inspectores da ONU no Iraque, declarando este país limpo de armas de destruição maciça, Richard Perle, em entrevista ao diário russo Commersant, declarou que "é tempo de a Rússia pagar o preço por não ter apoiado os Estados Unidos". Segundo Perle, Moscovo "fez a sua aposta num perdedor" e "há uma grande probabilidade de que todos os acordos e negócios celebrados entre o Iraque a Rússia sejam considerados nulos".
Ligações a Israel
Em 1996, Richard Perle foi um dos autores do documento "Clean Break", produzido para o governo israelita, então liderado por Benjamin Netanyahu, com um conjunto de recomendações que visavam alterar a estrutura política do Médio Oriente a favor de Israel, começando por interromper as negociações com a Palestina: "Israel pode alterar o seu enquadramento estratégico, através do enfraquecimento e contenção da Síria (...) Este esforço deve concentrar-se no afastamento de Saddam Hussein do poder no Iraque, como forma de limitar as ambições regionais da Síria". De acordo com este documento, a queda do regime iraquiano provocaria a inevitável queda da Síria, que continua a ser, aliás, um alvo específico dos discursos de Perle (com a acusação de abrigar líderes iraquianos e colaborar com o Iraque na ocultação de armas de destruição maciça).
Além de Richard Perle (actual conselheiro do Pentágono, liderando o Defense Policy Board), participaram na elaboração deste documento figuras como Douglas Feith (actual sub-secretário da Defesa dos EUA) e David Wurmser (actualmente assistente especial do sub-secretário John Bolton. Todos estes nomes se enquadram no grupo denominado como neo-cons (os novos conservadores, a ala mais de direita mais radical dentro do Partido Republicano), onde se contam ainda outras importantes figuras da administração Bush, como Paul Wolfowitz (a principal figura do grupo), actual secretário da Defesa e segunda figura do Pentágono.
A influência deste grupo junto de Bush terá ganho relevo com o seu contributo para fundamentar a fuga dos EUA aos acordos de Quioto sobre ambiente a armamento biológico. No entanto, seria após o 11 de Setembro que o grupo viria a assumir maior protagonismo, dentro dos serviços do Estado Americano à sua responsabilidade: o Departamento de Defesa e o Conselho Nacional de Segurança (em detrimento do Departamento de Estado, de Colin Powell).
A liderança americana é boa para a América e boa para o Mundo
No início dos anos 70 integraram a Coalition for a Democratic Majority (com o Partido Democrata) mas Jimmy Carter não lhes atribuiu especial relevo na administração americana.
Mais tarde, já no lado Republicado, os neo-cons viriam a ser chamados por Ronald Regan a funções de governação: Kenneth Adleman (Director do Controle de Armas), Richard Perle (assistente do Secretário da Defesa), Richard Pipes (Conselho Nacional de Segurança) ou Elliot Abrams (assistente do Secretário de Estado). Os neo-cons inspiraram então iniciativas como o suporte aos contras da Nicarágua ou a Duvalier no Haiti, o ataque de Israel a Beirute em 1982 e a formação dos esquadrões da morte em El Salvador, Honduras e Guatemala.
Os neo-cons estão organizados numa rede de influências que ultrapassa os departamentos de Estado: algumas das suas principais figuras são Norman Podhoretz (editor de Commentary, um jornal identificado com o neo-conservadorismo), a sua esposa Midge Dector (que esteve com Donald Rumsfeld no Committee for the Free World) ou Ben Watterberg (activista do Partido Democrático).
Depois dos governos de Bill Clinton, o regresso dos Republicanos ao poder assinalou também o regresso dos neo-cons, que fazem questão em assumir a sua demarcação em relação ao Partido Democrata, nomeadamente em matéria de defesa. Como explica Richard Perle, em entrevista ao programa Crossfire, da CNN, no dia 8 de Outubro de 2002, "Esta administração herdou este problema porque em oito anos não se fez nada. Assistiu à expulsão dos inspectores. Assistiu à Al-Qaeda tornar-se no que se tornou. Não era nada quando Clinton tomou posse. O que nós fizemos no Afeganistão após o 11 de Setembro podia ter sido feito antes, mas não foi".
A presença dos neo-cons no governo americano está também directamente associada à introdução de conceitos como o de "Guerra Infinita" (a perspectiva de uma agressão perpétua e continuada aos países árabes, iniciada com a ocupação do Afeganistão) ou "Eixo do Mal" (como forma de definir os alvos políticos do médio oriente) e ao enorme aumento dos gastos militares no conjunto das despesas do governo (o orçamento do Pentágono aumentou este ano 48 milhões de dólares, o maior aumento dos últimos 20 anos, atingindo a verba de 379 biliões de dólares anuais).
Negócio da China
Ainda que o seu protagonismo político e a sua presença mediática nacional e internacional não tenham sido particularmente afectados, Richard Perle demitiu-se no final de Março do lugar que ocupava como líder do Defense Policy Board, orgão consultivo do Pentágono criado em 2001 por Donald Rumsfeld.
Acusado de incompatibilidade de funções, Perle demitiu-se, em carta dirigida a Rumsfeld, por considerar que "com a nação e as tropas americanas a arriscar as suas vidas para proteger a nossa liberdade e libertar o Iraque, é inadmissível que o seu precioso tempo, e o dos restantes membros do Departamento de Defesa, se desperdice em controvérsias". O velho amigo Rumsfeld aceitou a demissão do cargo de líder mas manteve Perle como membro do Defense Policy Board, considerando que ele tem "uma profunda compreensão processo de segurança nacional dos EUA e um abnegado interesse na preservação da força e da liberdade da América (...) Devo acrescentar que conheço Perle há muitos anos, como um homem de honra e integridade", rematou Rumsfeld em declarações à CNN a 27 de Março.
A incompatibilidade de que Perle é acusado tem a ver com a prestação de um serviço de assessoria à empresa Global Crossing Ltd's, operador americano de redes de fibra óptica em processo de falência. Para recuperar a empresa, está prevista a venda de 61,5% do seu capital a duas firmas asiáticas: a Hutchison Whampoa Ltd (de Hong Kong) e a Singapore Technologies Telemedia Pte. Perle foi contratado para ajudar a persuadir as autoridades americanas a autorizar este negócio, já que o Comité para o Investimento Estrangeiro nos EUA considerou que com esta operação podem estar em causa questões de segurança nacional. Perle deveria receber por este trabalho 125 mil dólares, mais seiscentos mil caso o negócio efectivamente se concretizasse.
Em plena guerra do Iraque e com crescente contestação à sua dupla actividade, Perle demitiu-se da posição que ocupava junto do governo, abandonou o serviço que vinha prestando à empresa e garantiu que o dinheiro que eventualmente recebesse seria totalmente enviado às famílias dos soldados vitimados na Guerra do Iraque. Foi o suficiente: Perle continua a ser um dos principais teóricos e porta-vozes da política militar americana e declarações suas podem encontrar-se quase todos os dias, na imprensa de todo o mundo, mesmo depois da "demissão".
João Romão
Texto da edição em linha do jornal (1999–2003), recuperado das cópias do Internet Archive e do Arquivo.pt.