combate

Arquivo da LCI, do PSR e da APSR, secção portuguesa da IV Internacional, e da sua imprensa, 1973–2013

Congresso Mundial e as novas lutas

abril de 2003 · Jornal · 1.123 palavras

IV Internacional · Combate, abril e maio de 2003, edição em linha

O intervalo entre este XV Congresso mundial e o congresso precedente não é habitual quando comparado com a nossa tradição. Certamente, este atraso deriva das nossas fraquezas organizativas. Mas, sobretudo no que diz respeito aos últimos anos, deve-se em larga medida ao relançamento das nossas organizações nacionais e ao seu comprometimento cada vez mais amplo nas novas lutas e nos novos movimentos sociais, o que tornou muito difícil fixar prazos que toda a gente pudesse respeitar. Mesmo hoje, algumas organizações não puderam enviar delegações que correspondam à sua consistência real.

O congresso de 1995 desenrolou-se, é verdade, seis meses depois do movimento insurreccional em Chiapas. Mas o movimento operário e anti-imperialista mantinha-se, na maioria dos casos, num período de refluxo. É preciso recordar, por exemplo, que estávamos ainda antes das grandes greves de Novembro-Dezembro de 1995 em França, que teriam, ao mesmo tempo confirmado o potencial combativo persistente das camadas importantes do proletariado e representado uma antecipação das lutas e das mobilizações massivas que se produziriam em seguida, tanto na Europa como nos outros continentes.

Não é inútil regressar um instante ao alcance dos recuos e das derrotas dos anos 80 e 90, cuja incidência foi bastante pesada para a relação de forças ao nível mundial e ainda mais, talvez, na dinâmica retrógrada das tomadas de consciência. O movimento operário e popular sofreu ao longo da sua história derrotas mais dramáticas, indo de 1922 em Itália, 1923 na Alemanha e do esmagamento da revolução no Estado Espanhol aos massacres de 1965 na Indonésia e de 1973 no Chile. Mas estas foram derrotas nos enfrentamentos maiores com as classes dominantes e, quase imediatamente após estas derrotas, a resistência começava na clandestinidade e colocava-se a questão de como atrair a reconstrução.

Nos início dos anos 90, os partidos sociais-democratas, nos países onde tinham raízes históricas longínquas, eram a partir desse momento os instrumentos directos da ofensiva restauradora do neoliberalismo e comprometiam-se no primeiro plano das guerras imperialistas, nesta sucessão que arrisca dar lugar a uma nova jornada sangrenta nas próximas semanas. Em convergência temporária, a União Soviética e as outras sociedades burocráticas da Europa oriental desmoronaram-se ao iniciar um processo de restauração capitalista pura. Tudo isto era percebido por centenas de milhões de militantes não apenas como uma derrota maior, uma evolução negativa da relação de forças à escala internacional, mas também e muito frequentemente sobretudo como uma perda de identidade, a perda da sua própria razão de ser.

A IV Internacional, fundada em oposição ao estalinismo e para continuar a batalha dos comunistas contra a social-democracia, estava em condições de apreender os aspectos contraditórios deste processo. Mas não podíamos estar ao abrigo dos estragos que alteravam o movimento operário no seu todo. Isto explica uma série de golpes que sofremos ao longo dos anos 90.

Como veremos nos nossos debates, a data simbólica de Seattle marcava a abertura de uma nova etapa, cujos traços marcantes apareceram muito mais claramente nas três sessões fundadoras de Porto Alegre e na gigantesca manifestação de Florença. Foi neste contexto que o nosso movimento conheceu um novo impulso ao participar activamente nas novas lutas e nos novos movimentos e representando neles um papel que justamente apreciaram todos aqueles com quem colaborámos no espírito pluralista mais aberto.

Em principio, nunca sofremos dessa doença fatal do movimento operário que é o cretinismo parlamentar, mesmo se sofremos, em diferentes épocas, desvios, do Sri Lanka a países de outros continentes. Assim, não temos medo de sublinhar como um reflexo da nossa influência crescente que na última década tivemos eleitos numa série de países, do Brasil às Filipinas, da Dinamarca a Portugal e ao Parlamento Europeu. No Brasil, um camarada como Miguel Rossetto, cujas qualidades e espírito militante conhecemos, é actualmente membro do governo surgido do sucesso popular sem precedentes que representou a eleição de Lula. Miguel assumiu uma responsabilidade crucial com a tarefa de levar a cabo uma reforma agrária radical, susceptível de criar uma dinâmica mais geral de ruptura do sistema. Seguiremos e apoiaremos a sua batalha, apoiada por todos os sectores mais avançados do Partido dos Trabalhadores e do Movimento dos Sem-Terra e, calando uma angústia subjacente pela dificuldade extrema da tarefa, exprimir-lhe-emos neste congresso a nossa solidariedade mais calorosa.

Nas primeiras batalhas da oposição de esquerda internacional contribuiram jovens militantes, homens e mulheres, formados/as politicamente no crisol dos anos da revolução de Outubro e da fundação da III Internacional. Uma segunda geração política emergiu e deu um contribuição maior à construção do nosso movimento no final da Segunda Guerra Mundial. Uma terceira, que continua presente nesta sala, é a geração de 1968 e das lutas dos anos seguintes. Em seguida, houve uma espécie de vazio, demasiado longo, talvez. Mas actualmente eis o sinal mais claro da mudança que está em vias de produzir uma quarta geração activa e representada, também ela, nesta sala, ainda que numa medida que não reflecte suficientemente o seu papel nas lutas de numerosos países. Esta geração, que não sofreu os custos dos recuos e das derrotas maiores, amadureceu num contexto dramaticamente explosivo. Toma cada vez mais consciência do que se aposta diante de nós: evitar precipitar na barbárie, assistir à destruição do planeta. A sua motivação é, assim, existencial no sentido mais estrito do termo. Pedindo emprestada uma metáfora pungente utilizada por um intelectual revolucionário dos Estados Unidos a propósito de intelectuais de outras épocas, estes jovens são e podem-se perceber como «exiles from a future time», exilados de um tempo futuro. É por esta razão que eles lutam para escapar a este exílio, para tornar possível um mundo novo.

Participei em catorze dos quinze congressos da IV Internacional, falhando o primeiro apenas por uma questão de idade. Se alguém me perguntasse se tinha uma ideia do que poderia ser o nosso próximo congresso, tentaria esboçar duas hipóteses:

Se este congresso decorrer no prolongamento da dinâmica actual, conheceríamos de qualquer forma uma transformação ainda maior que a que conhecemos actualmente.

Mas, segunda hipótese, se a dinâmica actual se aprofundasse, se generalizasse e levasse a abalos revolucionários ainda mais profundos que os actuais, podíamos esperar que em qualquer parte do mundo, numa data que se poderia averiguar mais decisiva que Março de 1919 (fundação da III Internacional) e Setembro de 1938 (fundação da IV Internacional) se mantenham reuniões onde se reuna o conjunto de todas as forças revolucionárias mais válidas, independentemente das suas origens e dos seus percursos, para fazer nascer um movimento operário internacional qualitativamente novo, capaz de levar a cabo as tarefas urgentes e dramáticas que estão já actualmente e estarão ainda mais no futuro na ordem do dia do género humano!

Discurso de abertura do Congresso por Lívio Maitan, dirigente da IVª Internacional e o Partido da Refundação Comunista. Traduzido por Inês Pereira.

Texto da edição em linha do jornal (1999–2003), recuperado das cópias do Internet Archive e do Arquivo.pt.

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