combate

Arquivo da LCI, do PSR e da APSR, secção portuguesa da IV Internacional, e da sua imprensa, 1973–2013

O jogo do empurra

Gonçalo Vitorino · novembro de 2002 · Jornal · 1.051 palavras

Maré negra · Combate, novembro e dezembro de 2002, edição em linha

Mais um derrame de petróleo. Nada de novo ou que não se dê periodicamente. Mas desta vez a novidade é que aconteceu mesmo aqui ao lado, a escassas milhas da costa.

O petroleiro "Prestige", é um dos cerca de 1000 navios de casco simples que circulam no mundo, apesar das organizações internacionais aconselharem a utilização de um casco duplo. A fragilidade ou inexistência da legislação aliada à situação económica, leva a que estas sucatas ambulantes possam transitar livremente entre dezenas de países, utilizando bandeiras de conveniência a troco de alguns tostões.

A 3 anos de ser desmantelado, era propriedade da Mare shiping Inc., sedeada na Libéria, que serve de fachada a uma família de armadores gregos, os Coulouthros, sedeados em Londres, que por sua vez é controlada por uma empresa de fundos de gestão, a Universe Maritime, e é o terceiro petroleiro da sua empresa a afundar. Surpresa ou talvez não tanto, num mundo em que o controlo do petróleo envolve milhões, leva a invasões consecutivas do Iraque e a guerras intermináveis (ver página 12 e a edição de Outubro).

As reacções não se fizeram esperar. Entre Espanha e Portugal, começou o jogo do "empurra". Com fragatas, helicópteros e aviões (só faltaram os submarinos), os dois governos tentaram empurrar o petroleiro para a zona marítima contrária, tentando fugir ao problema. Com o navio prestes a afundar, não sendo certo que a opção de o transportar até à costa fosse a mais correcta, houve até quem quisesse bombardeá-lo, numa iniciativa que seria certamente lembrada como um dos maiores disparates de todos os tempos. Ao que parece, a ordem que levou o "Prestige" a partir-se em dois e afundar foi dada pela fragata portuguesa no local. Mas o certo é que o caso foi muito mal conduzido pelos dois lados da fronteira. Notou-se uma total ausência de uma estratégia comum, que agora se apressam a delinear, em conjunto com o governo francês. Em cima da mesa está um acordo que prevê o desvio de navios que transportem matérias perigosas para longe das costas.

O resultado está à vista. A costa da Galiza está a sofrer um dos maiores desastres de que há memória. Pouco a pouco, as manchas negras de combustível, que contêm pelo menos dois componentes cancerígenos (benzeno e enxofre) vão chegando à costa. E não há perspectivas de melhoras. A área atingida está integrada na Rede Natura e abrange zonas de pesca muito importantes. Quinze mil aves já morreram, incluindo diversas espécies em extinção. Neste momento, pelo menos uma espécie é já dada como extinta. À componente ambiental junta-se como sempre a consequência para quem depende do mar para viver, com a interdição de pesca numa faixa de 400 Km de comprimento, implicando directamente cerca de 1000 pescadores.

Em Santiago de Compostela, milhares de pessoas manifestaram-se com o lema "nunca mais!", numa iniciativa que contou com a presença de líderes sindicais, artistas e intelectuais. Uma segunda manifestação, uma das maiores na história da Galiza, juntou 200.000 pessoas no dia 1 de Dezembro, numa onda de indignação que está a crescer, e que conta com a presença solidária dos partidos da oposição. O reconhecimento da zona afectada como zona de catástrofe é a principal reivindicação imediata do movimento, que exige também que sejam tomadas medidas que evitem acidentes deste género.

O governo espanhol que faz face ao quarto desastre deste género em 26 anos, não dispõe de meios adequados de limpeza e de barragem de petróleo. Por cá não existem de todo. As iniciativas de prevenção da eventual chegada da maré negra às nossas costas, resumem-se a umas quantas barreiras no estuário do rio Cávado. O derrame de 10.000 toneladas de crude em 1987 pela avaria no petroleiro "Nisa", durante uma descarga e que se espalhou por Sines e Porto Covo e o "ano negro" de 1989 em que aconteceram dois acidentes (Madeira e Odemira/Sines) não parecem ter tido reflexos a nível de prevenção e meios de tratamento destes desastres cada vez mais frequentes. Enquanto isso, Durão Barroso acusa governos da União Europeia de fecharem os olhos ao transporte de matérias perigosas, quando se sabe que no porto de Leixões passaram já este ano vários navios que transportavam matérias perigosas em condições de segurança deploráveis. Resta saber se inclui o governo Português nesta "pala comum" em que a hipocrisia domina.

Por cá, assistiu-se a uma verdadeira onda de nacionalismo bacoco, patrocinada pelos telejornais de todas as TVs, em que só faltaram as rezas em Fátima para que o vento levasse a maré negra para a Galiza. Sinal de mentes com uma visão muito curta. A maré negra é a mesma, seja aqui, na Galiza ou no Alasca, que ainda hoje não recuperou do acidente do "Exxon Valdez", ocorrido em 1989. Com a agravante de estar a massacrar uma reserva natural vital na Península Ibérica. As consequências não podem ser medidas pela maior ou menor proximidade da costa. O petróleo afecta os ecossistemas de uma forma brutal, criando desequilíbrios de fauna e flora, pois cria uma camada que impede a passagem de luz, que causa a diminuição do oxigénio presente na água.

O Bloco não reagiu assim e foi o único partido português a deslocar-se à localidade galega mais afectada. Mas a sua abordagem deixa perceber a falta de trabalho e discussão dos temas ambientais, comuns de resto à esquerda portuguesa. A exigência de normas internacionais que regulem o transporte marítimo de petróleo e derivados é importante, mas há que pôr em causa um país e um mundo que apostam em formas de energia "sujas", como o petróleo ou o nuclear e não promovem o investimento em energias alternativas que são hoje bastante eficazes e não poluentes, como a eólica e a solar, posição aliás comum à maioria dos movimentos ecologistas.

Mas a história ainda não acabou. Há poucos dias, saiu do porto de Tallin, na Estónia, um petroleiro fretado pela mesma empresa do "Prestige", a Crown Resources, carregado com 50.000 toneladas de fuel óleo, em tudo semelhante ao naufragado e que passará por vários países europeus (incluindo Portugal). A Greenpeace anunciou já que fará todos os esforços para impedir a sua passagem e iniciou uma campanha de assinaturas on-line, dirigida à Organização Marítima Internacional, para que esta regule as condições de segurança dos navios que transportem matérias perigosas (ver http://act.greenpeace.org).

Gonçalo Vitorino

Texto da edição em linha do jornal (1999–2003), recuperado das cópias do Internet Archive e do Arquivo.pt.

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