Dois estados, só temporariamente entrevista com o secretário-geral da Frente Popular de Libertação da Palestina, Ahmed Sadat
Combate, novembro e dezembro de 2002, edição em linha
Jornal2002Com Ahmed Saadat encontram-se detidos desde 1 de Maio de 2002 quatro outros militantes da Frente Popular de Libertação da Palestina (FPLP), acusados de ter abatido o ex-ministro israelita do Turismo, Rehavam Zeevi, um general conhecido pela sua campanha a favor da limpeza étnica da população árabe palestiniana e a favor dos "assassínios selectivos" de activistas palestinianos. Saadat está detido por ser dirigente da FPLP. Embora um tribunal palestiniano tenha ordenado a libertação dos cinco militantes, a Autoridade Palestiniana decidiu mantê-los na prisão de Jericó. A prisão é guardada por carcereiros da CIA, que no fim de cada dia transmitem aos serviços secretos israelitas a identidade das visitas dos presos.
Qual é a estratégia que vos permitirá reconstruir um forte movimento palestiniano?
A resistência está hoje numa situação muito difícil. Mas mesmo assim se nota que ela continua a ter algum impacto, nomeadamente em Israel, quer pela instabilidade social crescente, quer pela crise económica que atinge os israelitas desde há vários meses. é preciso construir bases para que a resistência continue e se torne cada vez mais forte. Isso implica várias coisas: em primeiro lugar, é preciso construir uma resistência popular, aberta a todos, na qual o conjunto da população encontre o seu lugar. E, para que não se reproduzam os erros do passado, i.e., para que não seja o povo a sacrificar-se e a burguesia a beneficiar, é essencial não separar a resistência contra a ocupação do combate pela democracia. Hoje convém construir uma OLP forte e democrática, única instância que poderia representar os interesses da população palestiniana, incluindo os refugiados. Trata-se de combinar uma "unidade por baixo" com uma "unidade por cima".
O segundo elemento fundamental é o de nunca esquecer que a nossa luta tem de ser recolocada no contexto internacional e portanto no sistema imperialista mundial. Israel é um Estado cujo papel essencial é o de defender os interesses do imperialismo na região. Isto tem fortes semelhanças com a situação da África do Sul no tempo do apartheid. A nossa luta é fundamentalmente anti-imperialista, a questão palestiniana está hoje no centro dos problemas mundiais. é por isso que temos de construir uma resistência ligada aos movimentos anti-imperialistas do mundo inteiro. A solidariedade de que precisamos é uma solidariedade anti-imperialista, e aqui penso nomeadamente no movimento anti-globalização que se desenvolveu nos últimos anos. Se queremos triunfar, temos, é certo, de construir uma resistência popular, mas temos também de evitar alguma vez separar o local do global, e ter consciência de que a nossa luta se integra nas lutas contra o imperialismo e a globalização capitalista, as quais devemos endereçar-nos.
Falámos de estratégia. e quanto ao projecto politico?
Na FPLP não pensamos que a solução "dois Estados para dois povos" seja uma solução viável. Mesmo que conseguíssemos satisfazer essa reivindicação, o problema ficaria longe de estar resolvido, em primeiro lugar porque o Estado de Israel continuaria a existir tal como é. E sobretudo haviam de colocar-se duas questões principais:
- O que é que se faz dos refugiados? Para nós, a questão do direito de regresso dos refugiados, que representam mais de metade dos palestinianos, é uma questão fundamental, na medida em que o direito de regresso é um direito inalienável, Ora, com a solução "dois Estados para dois povos", exclui-se de facto os refugiados. Está fora de questão que eles vivam na Cisjordania ou em Gaza… Como vê, o principal problema permanece.
- O que é que acontece aos palestinianos de 1948 (os chamados árabes israelitas. N. do T.)? O problema também é importante, na medida em que se trata de mais de um milhão e que eles são antes de mais palestinianos e sofrem também a opressão do Estado de Israel.
Não vou alongar-me, mas como vê a solução dos dois Estados não pode ser senão, no melhor dos casos, uma solução temporária. Uma solução real para o conflito teria de responder a três dados fundamentais: o fim da ocupação, o regresso dos refugiados e o estabelecimento de um poder realmente democrático no conjunto da Palestina histórica. Quando nos debruçamos sobre a Historia, é essa a única solução legítima. (…)
Claro que é uma resposta que ataca de frente o imperialismo a nível mundial e, bem entendido, os imperialistas nunca a aceitarão. Isso significa que a nossa resistência vai continuar, que terá altos e baixos, mas é evidente que para atingir os nossos objectivos precisaremos de tempo. E de apoio. Mas acho que o surgimento do movimento anti-globalização é um sinal eminentemente positivo. Além disso, a vossa presença aqui e o facto de nos termos encontrado leva-me a dizer que, mesmo se o período actual é difícil, o futuro talvez não seja tão sombrio.
Entrevista de Julien e Pierre-Yves Salinge para a revista Inprecor, traduzida por António Louçã
Texto da edição em linha do jornal (1999–2003), recuperado das cópias do Internet Archive e do Arquivo.pt.