combate

Arquivo da LCI, do PSR e da APSR, secção portuguesa da IV Internacional, e da sua imprensa, 1973–2013

O começo da intifada iraquiana

julho de 2003 · Jornal · 912 palavras

Combate, julho de 2003, edição em linha

C erca de seis dezenas de soldados norte-americanos morreram no Iraque desde o fim oficial da guerra, dos quais pelo menos duas dezenas em consequência de acções armadas iraquianas. A maior parte dessas acções começou por registar-se em regiões como as de Bagdade, Fallujah ou Tikrit, em que era mais forte a influência do Partido Baath. A localização geográfica dessa primeira vaga de resistência serviu ao Governo norte-americano de Paul Bremer como pretexto para afirmar que estes são os últimos espasmos de um saddamismo agonizante. A desmobilização da maioria do exército e o saneamento da administração pública, varrendo dela todos os membros do Partido Baath, foram assim apresentados como remédios eficazes para, a médio prazo, cortar as raízes da revolta.

Mas esta imagem nada tem a ver com a realidade. A sua falsidade é atestada por uma simples recapitulação dos acontecimentos da guerra e por outros muito mais recentes.

Os acontecimentos da guerra surpreenderam, em primeiro lugar porque se olhava o grosso do exército iraquiano e das milícias como uma tropa fandanga, que não resistiria mais de um fósforo. Nas regiões do Sul, de maioria chiita, esperava-se que essa resistência fosse especialmente débil. Em segundo lugar, esperava-se uma resistência mais forte em torno de Bagdade, onde estavam concentradas as famosas doze divisões da Guarda Nacional, com as suas tropas "de elite", frescas, bem pagas, bem alimentadas e bem equipadas. A batalha de Bagdade, chegou-se a vaticinar, podia assemelhar-se a uma batalha de Estalinegrado, com combates casa a casa, e a eficácia dos bombardeamentos aéreos drasticamente diminuída pelo carácter corpo-a-corpo dos combates entre dois antagonistas "abraçados".

Ora, tudo se passou ao contrário. O porto de Umm Qasr, na ponta sul do país, defendido quase exclusivamente por tropas milicianas, numa região desafecta ao regime, tardou vários dias em cair e foi objecto de diversos comunicados triunfais e outros tantos desmentidos do Centcom. A cidade de Bassorá, palco da insurreição chiita de 1991, não se revoltou nem abriu os braços aos invasores. Pelo contrário, sofreu um cerco muito mais longo que a capital, mas resistiu muito mais do que esta.

As histórias de soldados iraquianos coagidos a combater terão sido verdadeiras, nesta guerra como em todas. Mas elas não explicam que as cidades abandonadas, desabastecidas, sequiosas e famintas tenham aguentado tanto tempo. Soldados coagidos a combater, se forem uma maioria, encontram rapidamente uma forma de desertar ou de se render. Isso não aconteceu, porque já nesse momento o ódio ao sanguinário regime saddamista não os iludia sobre o significado da ocupação anglo-americana.

Não surpreende portanto que a maioria chiita do sul do Iraque tenha começado logo depois da guerra a protagonizar as mais activas manifestações contra a ocupação. E não surpreende que o secretário de Estado Donald Rumsfeld se tenha visto obrigado a fazer desde logo um aviso à navegação: democracia sim, mas só se a maioria não tiver a veleidade de colocar no poder um governo chiita.

Entretanto, mais para Norte, Bagdade entregou-se quase sem um tiro. Os quadros fieis do partido tinham muito mais a perder do que os andrajosos milicianos das cidades cercadas no Sul. Eles tinham ganho dinheiro e poder sob o regime saddamista e alimentavam a expectativa de ser necessários na administração de transição. É possível que conhecessem a discussão interna do Governo de Bush sobre o dilema de recuperar quadros saddamistas (tese de Colin Powell) ou de varrer a maior parte deles (tese de Cheney e Rumsfeld). Na verdade, as decisões de Bremer sugerem que não se fez muito caso das propostas continuistas de Powell, o que só agora deve estar a empurrar os bonzos do Partido Baath para a beira de pegarem em armas. Sempre que alguém reivindicou algum atentado contra as tropas norte-americanas, foram até agora organizações relativamente desconhecidas e que se diziam, também, contra a ditadura de Saddam. Mas é possível que, depois de ter sido recuperada uma minoria de polícias, os militares desmobilizados e os restos do partido estejam agora em vias de virar para a resistência. A política dos ocupantes continua, todos os dias, a lançar mais lenha na fogueira e a propiciar contra a ocupação as coligações mais improváveis, com a excepção, por enquanto, dos curdos.

No sul do país, que parecia aquietado desde a desgastante resistência de Umm Qasr e Bassorá, reacende-se entretanto a chama da resistência. Na última semana de Junho, os soldados britânicos foram alvo de um primeiro atentado, o helicóptero que trazia reforços foi atingido, e seis polícias militares britânicos foram mortos pela população revoltada de uma aldeia próxima de Bassorá.

A Intifada iraquiana está agora a começar, mas poderá ter consequências muito mais imediatas sobre a política mundial do que a palestiniana. Ela não começa com pedras, mas com armas automáticas que, ao contrário das químicas e biológicas, existem. Ela não tem como alvo israelitas civis e militares, agarrados com obstinação à terra que querem colonizar para o próximo milénio, mas soldados que estão longe das famílias e querem voltar a casa. É muito duvidoso que a Administração Bush consiga, em tempo útil, recrutar, em países subordinados, polícias e GNRs com suficiente quantidade e preparação para substituir os 120.000 ocupantes norte-americanos. Por muitas ajudas simbólicas que recolha nesta fase, ela terá de manter os seus próprios soldados na primeira linha para morrerem sob as balas iraquianas. E aí resta-lhe um dilema simples: ou foge em frente, atacando o Irão; ou foge para casa como fez no Líbano dos anos 80 e na Somália dos anos 90.

António Louçã

Texto da edição em linha do jornal (1999–2003), recuperado das cópias do Internet Archive e do Arquivo.pt.

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