O arquipélago da outra globalização
FORUM SOCIAL EUROPEU · Combate, novembro e dezembro de 2003, edição em linha
Jornal2003Quatro pólos de actividade em diferentes pontos da capital francesa. 50 mil participantes, 100 mil pessoas na manifestação final. O Fórum Social Europeu ofereceu 55 conferências, centenas de oficinas e seminários e mostrou a diversidade e a riqueza do “movimento dos movimentos” na Europa. Já depois do FSE, a Assembleia de Movimentos Sociais confirmou a sua capacidade de convergência, marcando uma agenda de mobilizações contra a Europa do capital e da guerra e recusando a constituição que a consagra.
Em França, o discurso político e mediático sobre o “movimento dos movimentos” é sobretudo abundante. Toda a grande imprensa compreendeu o interesse suscitado pelo FSE em amplos sectores e correspondeu com copiosas antecipações, reportagens e análises. Ao contrário do que sucede em Portugal, os jornais franceses de referência não estão tutelados por fundamentalistas do neoliberalismo e da guerra infinita, que conjugam o silêncio nas notícias com o insulto nos editoriais (em França, só a extrema-direita utiliza sobre o FSE argumentos semelhantes aos que, por exemplo, o director do Público verteu sobre o Fórum Social Português). Pelo contrário, ali a hegemonia mediática é de um centrão político em crise de credibilidade e que, no essencial, procura não aparecer isolado face à dinâmica altermundialista. É assim que um dirigente da CFDT (a central que assinou o pacto social com o patronato), o ex-ministro socialista dos assuntos europeus, Moscovici, e o presidente da ATTAC francesa, Nikonoff, se reúnem em mesa redonda para debater “alterpolítica, as saídas do movimento”, a convite do Libération.
Dito isto, o rescaldo do FSE só pode ser de desilusão nos media oficialistas e na esquerda de centro: é que Paris, de 12 a 15 de Novembro, foi tudo menos um momento de domesticação do movimento. Não espanta: em França, as “saídas” de sendeiro governista esbarram hoje na crise de proposta de uma social-democracia rendida à globalização privatista e na memória fresca da actuação do governo Jospin (a desilusão causada pela deriva liberal da aliança PS-PCF-Verdes acabou, lembre-se, por abrir o caminho a Le Pen para a segunda volta das presidenciais 2002). Mas sobretudo este movimento internacional não está disponível para qualquer cooptação: o seu seguro de vida é a diversidade e o balanço da experiência vivida por cada uma das suas mil subjectividades. O cálculo dos estragos causados pelo neoliberalismo nas sociedades europeias e o pensamento de alternativas para um “outro mundo” faz a diferença entre acção concreta local e ‘melhorismo’ global.
ANO UM, MOBILIZAR DE NOVO
Lançada logo após o 11 de Setembro, a “guerra ao terrorismo” tinha um lado B: o dobre de finados do movimento pela globalização alternativa. Enquanto Bush mandava bombardear o Afeganistão, o Wall Street Journal titulava “Good-bye Seattle”, proclamando o restabelecimento da unicidade do pensamento ameaçada nas ruas em 1999 e depois. Erro, e grande. O movimento dos movimentos tornou-se o centro da rede que permitiu o pronunciamento global contra a guerra. De um conjunto inicial de organizações em que se destacavam as ATTACs francesa e alemã, o Movimento de Resistência Global catalão, o Fórum Social Italiano e o Globalise Resistance inglês, a revolta contra a guerra alargou-se aos cinco continentes, a inúmeras organizações, ONGs, sindicatos, partidos e associações. E daí a um sector da cidadania que fez história a 15 de Fevereiro de 2003.
O movimento contra a guerra mudou a face da alterglobalização, sobretudo no seu perfil sindicalista: em Génova 2001, as direcções das três grandes confederações sindicais italianas apelaram a que não houvesse manifestações contra o G8, no que foram acompanhadas pela Confederação Europeia de Sindicatos. Em 2003, a CGIL, que já participara com a CES no Fórum de Florença, esteve no centro da mobilização contra o ataque ao Iraque, chegando a convocar a greve contra a guerra. Hoje a implicação dos sindicatos é determinada sobretudo pelas conjunturas nacionais (Alemanha: fracasso do IGMetall na igualdade de direitos laborais Leste/Oeste e estratégia concertativa da federação DGB; França: greves imponentes na primavera mas com poucos resultados). Mas a denúncia da guerra infinita e da ocupação do Iraque mantém-se como consenso de base no movimento. O 20 de Março, primeiro aniversário da ocupação, ficou fixado na Assembleia de Movimentos Sociais (v. texto) como data de mobilização global, reconhecida também nos EUA pelas duas coligações anti-guerra, a ANSWER e a United for Peace and Justice. Em Portugal, essa data mundial representa um desafio para o restabelecimento da Plataforma Contra a Guerra no quadro de transparência e unidade que permitiu juntar 80 mil pessoas em Lisboa no 15 de Fevereiro.
QUEM QUER UMA EUROPA-POTÊNCIA?
A segunda proposta em cima da mesa da Assembleia de Bobigny foi a de uma mobilização contra a Constituição Europeia. Trabalhada na autocracia dos gabinetes de Giscard d’Estaing, o tratado constitucional não é senão um acordo intergovernamental para estabelecer a Europa como potência concorrente na disputa dos proveitos da globalização. Apesar de destituído de qualquer percurso constituinte de sentido minimamente democrático, o texto não abdica da primazia sobre as constituições nacionais, dando carácter fundacional europeu ao neoliberalismo e ao militarismo. Passarão a ser garantias constitucionais desta Europa: “uma economia de mercado altamente competitiva”, “o compromisso de melhorar as capacidades militares”, “a estreita cooperação com a NATO” ou até “o direito ao trabalho e a procurar emprego”, que vem substituir o direito fundamental ao emprego. O parlamento continua esvaziado de poderes reais, concentrados num Conselho de Ministros europeu.
Mesmo sendo árdua a construção de uma mobilização no terreno europeu capaz de implicar seriamente as grandes organizações, a proposta aprovada na Assembleia dos Movimentos Sociais é a de uma mobilização a 9 de Maio, dia da Europa e data da assinatura em Roma do acordo de governos sobre a constitituição.
LONDRES 2004
A participação portuguesa no FSE rondou a centena de pessoas, metade delas vindas no autocarro fretado pelo SOS Racismo e pela ATTAC. Na manifestação de dia 15, depois de dias de dispersão pelos quatro pólos do FSE e de escolhas sobre os debates preferidos, quase todos compareceram no desfile d@s participantes portuguesas/es. A faixa das feministas da Rede Lilás juntou-se às bandeiras da ATTAC, aos jovens do Bloco e ao SOS Racismo (que teve de se afastar do altifalante dos sem-papéis para fazer ouvir as palavras portuguesas contra a Europa-fortaleza). Viam-se caras conhecidas do processo do Fórum Social Português, gente do CIDAC, da Acção Jovem pela Paz, Clube Utopia, UMAR. E como amigo não empata amigo, houve também quem preferisse desfilar com os seus grupos de afinidade: de activistas da imigração e LGBTs até ao PCP, que se juntou ao cortejo dos partidos comunistas não-franceses.
Se considerarmos os 1200 participantes de Madrid ou os 3 mil da Catalunha, o balanço modesto da participação portuguesa faz pensar. A ida ao Fórum, além de dispendiosa para uma bolsa normal em tempo de recessão (95 euros só a viagem no autocarro fretado), foi um segredo quase bem guardado entre as organizações participantes. Ora, mesmo a este título, a agenda de mobilizações saída de Paris é um desafio – um desafio à capacidade dos sectores mais dinâmicos do processo do Fórum Social Português de fazer da preparação do 20 de Março e do 9 de Maio ocasiões de divulgação do Fórum Social Europeu. O próximo encontro está marcado para Londres, Novembro de 2004. Jorge Costa
Texto da edição em linha do jornal (1999–2003), recuperado das cópias do Internet Archive e do Arquivo.pt.