Ninguém podia ficar indiferente à guerra do Vietname ou à das colónias
Entrevista a adelino fortunato · Combate, novembro e dezembro de 2003, edição em linha
Jornal2003Adelino Fortunato foi, há trinta anos atrás, um dos mais activos militantes na construção da chamada corrente trostkista no Norte. Foram muitos aquel@s que chegaram ao enunciado do trotskismo através do seu esforço concreto de recrutamento e de organização de núcleos de activistas, quer no meio estudantil, quer no meio operário. Um desses recrutados fui eu próprio, no rescaldo do boicote ao festival de coros e à queima das fitas na Universidade do Porto no ano de 1971, e, também por isto, impunha-se ouvir um pouco da nossa história através destas entrevistas que o Combate decidiu fazer.
O Lino foi, provavelmente, o principal quadro político do núcleo organizado que deu origem, em Maio de 1973, à União Operária Revolucionária (UOR), que mais e melhor soube desenvolver e organizar diversos contactos e militantes operários no Porto, os quais, por sua vez, vieram (alguns) a aderir à UOR. Talvez por ter origem numa família operária, o facto é que o Lino, mesmo sendo um activista estudantil de Económicas, no Porto, sempre teve maior facilidade do que qualquer um de nós, para iniciar e alimentar contactos em meio operário e popular. Muitas foram as noites passadas em alguns bairros populares do Porto, como os da Pasteleira, Fonte da Moura ou Carvalhido, a organizar círculos de leitura e de discussão políticas e a organizar algumas lutas de resistência operária. Não posso deixar de recordar, por exemplo, que o 25 de Abril, “apanhou-nos”, aos dois, a fazer uma distribuição clandestina de uma convocatória para o 1º de Maio, na zona fabril do Lordelo, numa noite que classificámos na ocasião, como “estranhamente tranquila”.
Quanto à entrevista, agrada-me particularmente o facto de me continuar a rever em muitas das afirmações nela incluídas, especialmente as que se referem ao balanço político do muito que se fez neste percurso. Mas talvez aquilo que me permito sublinhar será o facto de constatar que, passados estes anos todos, o Fortunato não engrossou as fileiras dos desistentes da política e da necessidade da construção duma alternativa política à esquerda reformista e desistente. É certo que, pessoalmente, gostaria muito mais que o Adelino Fortunato, independentemente das vidas profissionais (que todos nós tivemos e temos), tivesse mantido laços políticos e organizativos mais fortes e permanentes relativamente a tudo o que se construiu ao longo de três décadas. Infelizmente, isso não foi de todo possível. Mas, esta entrevista também nos dá a esperança de podemos continuar a acreditar num caminho conjunto, no futuro. É o que fica. E já não é pouco. HS
Podes contar-nos como começou a tua participação na actividade política?
Os meus primeiros passos foram no movimento estudantil do Porto no início dos anos 70. Era estudante de Economia na FEP e houve uma série de lutas e de mobilizações por causa de reivindicações várias. Depois, dentro desse processo, fiz alguns contactos políticos, sobretudo com gente do PCP, que evoluíram rapidamente para a área do trotskismo. Houve uma pessoa que fez de elo de ligação. Chamava-se Chico, mas não me recordo do nome completo, e era estudante de Economia, pois em reuniões da AE da FEP defendia ideias muito diferentes das dos militantes vinculados ao PCP, e mesmo aos maoístas que também tinham muita influência. Mais tarde também tive contactos com o Francisco Vale e integrei-me no movimento que existia na altura, que eram os Grupos de Acção Comunista. Comecei a ter reuniões e participei uma célula.
O que é que atraiu do trotskismo numa altura em que predominavam outras tendências ideológicas à esquerda do Partido Comunista?
Eu sempre pensei que o trotskismo era uma crítica mais fundamentada ao estalinismo, teoricamente muito mais sólida da que faziam os grupos maoístas. Estes eram grupos essencialmente virados para o activismo. Havia toda uma série de referências a Mao e à China, mas o militante médio destes grupos não tinha uma ideia muito clara das diferenças que o separavam da URSS e do PCP. Pelo contrário, os trotskistas tinham um programa muito diferente das outras organizações, e isso era muito atraente. Como era também atraente a coerência e a solidez do programa político, e a demarcação face às outras correntes que existiam na altura.
Que tipo de intervenção política fazia este grupo?
Para além da discussão política fazíamos uma intervenção no movimento associativo da Faculdade, que era bastante activo na altura. Depois começaram a estruturar-se intervenções noutras frentes fora do movimento estudantil. Distribuíamos panfletos nas fábricas, fazíamos pichagens, organizávamos grupos de discussão nos bairros. Lembro-me dum episódio na Faculdade de Medicina do Porto, ainda antes do 25 de Abril. Tínhamos lá um militante e preparávamos sempre as suas intervenções para os plenários, mas ele depois não intervinha por vergonha. A dada altura eu fui a esses plenários da Faculdade com ele e acabei por falar para defender os nossos pontos de vista. Da primeira vez passou, mas da segunda fui “desmascarado” pelos estudantes de tendência maoísta, da OCMLP, que eram a força dominante e expulso da reunião que decorria, dando eles a entender que eu podia ser um provocador.
Portanto, era uma actividade política baseada numa dedicação total, que ocupava praticamente todo o tempo. Desde antes do 25 de Abril até os anos 80 não fizemos mais nada que actividade política, até porque não tínhamos disponibilidade psicológica para qualquer outra coisa. Militar nesta altura era quase ser um profissional, ocupava todo o dia.
Em 1973 o movimento dos GAC sofre uma crise e no Porto surge a União Operária Revolucionária, organização que não participa no Congresso de fundação da LCI em Dezembro de 1973 mas que se integra na Liga a seguir ao 25 de Abril. Podes contar-nos como foi esse processo e qual foi a tua participação nele?
O aparecimento da UOR foi o resultado de um debate interno em que se confrontaram diferentes perspectivas estratégicas e tácticas para o movimento. Os elementos mais antigos, como o Francisco Sardo, tinham ligações essencialmente ao meio estudantil. Quando o grupo se expandiu com outros elementos começou a haver intervenção no sector operário e surgiram novas pressões, pressões diferentes, outra sensibilidade ao “movimento” da época. Isto levou a um debate que não foi bem resolvido, e a uma cisão que deu origem à UOR, uma pequena organização com meios muito limitados e que baseava a sua intervenção no voluntarismo dos seus militantes, teve uma vida muito curta.
O motivo imediato da ruptura é muito significativo do tipo de divergências que existiam. Não posso precisar a data, mas houve uma greve nos serviços municipalizados de água do Porto nos primeiros meses de 73 e surgiram divisões sobre a intervenção a fazer. Para nós, não intervir era algo que estava fora de questão, porque uma mobilização de trabalhadores era muito importante, enquanto os outros membros da organização pensavam que se devia ser muito mais cauteloso. Um dos seus argumentos era que aquela luta decorria ao pé da sede da PIDE…
De resto, a intervenção que se fazia era no movimento estudantil, e tínhamos uma influência imensa nos liceus e nas escolas técnicas da área do Porto e Gaia. Tínhamos também contactos nos bairros e nas fábricas, o que era muito importante. Eu era o “homem da Pasteleira”. Até tínhamos uma pessoa na clandestinidade. Também houve alguma extensão do grupo para Amarante e Braga. Tentámos intervir no movimento grevista que se desenvolveu na indústria nos meses imediatamente anteriores ao 25 de Abril, publicando alguns panfletos.
Depois, com os acontecimentos do 25 de Abril, houve uma aproximação inevitável com a outra organização, a LCI, e uma unificação semanas depois do golpe dos capitães. A corrente de movimentos era tão enorme que, para se poder fazer uma intervenção com algum eco, era preciso uma organização mais numerosa. Fomos assim absorvidos pela LCI e creio que foi a opção mais correcta.
Houve alguma ideia no sentido de ligar esta organização a alguma tendência do trotskismo internacional?
Não, não houve nada disso. Houve alguma tentativa de contactar com a Quarta, mas não com outras tendências.
Que tipo de imprensa tinham, dentro da vossa intervenção?
Publicámos um jornal que se chamou O Proletário Vermelho, publicado pela LOR. Utilizávamos uma sigla para o movimento estudantil que era Combate Revolucionário, e havia outra para o movimento operário que era a LOR, Luta Operária Revolucionária. A existência destas siglas todas era justificada por questões de segurança. Publicávamos os panfletos assinados como LOR ou como CR.
Como é que se deu a reunificação com a LCI? Houve alguma tensão posterior relacionada com a existência de duas organizações?
Não me consigo lembrar muito bem, mas foi no decurso da própria actividade política no Porto depois do 25 de Abril. Deve ter sido a propósito da necessidade de participar nalguma manifestação, onde participavam todas as correntes políticas de esquerda, que a aproximação se deu naturalmente. Isto foi em meados de Maio de 1974, não me lembro muito bem porque nesse momento havia manifestações todos os dias, pelos motivos mais variados: os estudantes de tal escola, ou os operários em greve de tal fábrica, ou aquele que tinha sido libertado.
Sobre a segunda questão, há sempre problemas que se mantêm quando há uma fusão mas o facto de, no Porto, a UOR ser a maioria, ou quase, e de, por sua vez, a organização do Porto ser a maioria da LCI, criava uma situação particular. Afinal eram os elementos vindos da UOR que formavam a direcção da organização do Norte, enquanto outros elementos do Porto que não passaram pela UOR faziam parte da direcção nacional.
Mais tarde, no Verão de 75, teve lugar o II Congresso da LCI, muito disputado e que decide aderir à FUP/FUR com outras correntes de extrema esquerda, e também durante um período muito curto com o PCP. Qual foi a tua participação neste congresso?
Naquele congresso defrontaram-se quatro tendências. Eu fazia parte da tendência 4, e a que conseguiu impor-se nos debates foi a tendência 3, do Francisco Vale. A tendência 2 era a do Francisco Sardo, e a 1 do João Cabral Fernandes e do Francisco Louçã. A tendência 3 defendia a entrada na FUR e o apoio à extrema esquerda militar com Otelo e o COPCON, e nós não éramos favoráveis a isso, porque isso nos retirava independência política. A grande diferença era em relação à caracterização que fazíamos do MFA. Sempre defendemos uma posição muito crítica face ao MFA, com o qual era necessário marcar as diferenças.
A tendência 3 teve o apoio de 35% dos delegados. Foi eleito um Comité Central com representação proporcional das quatro tendências e um Secretariado só com elementos da tendência maioritária.
O Congresso teve lugar no início do mês de Agosto na Faculdade de Medicina de Lisboa, ao Campo Santana, e participaram cerca de cento e tal delegados. Não me recordo se os delegados eram em proporção de um para dois ou um para três.
De qualquer maneira, no início de 1976 há um novo congresso que altera aquela correlação de forças, fazendo surgir uma maioria diferente. O desenvolvimento da linha da tendência 3, ligando-se aos elementos da esquerda do MFA e dando apoio à FUR e ao último governo de Vasco Gonçalves, e a evolução da situação política, nomeadamente os efeitos do golpe militar de direita de 25 de Novembro, foram muito penalizadores e houve necessidade de construir uma maioria mais sólida a nível nacional. E isso surgiu da ligação entre o núcleo principal de Lisboa, com o J. Cabral Fernandes, o F. Louçã, o António Gomes (entretanto já falecido), e os militantes do Porto que vinham da UOR. E acho que fizemos bem, pois a LCI ganhou em solidez organizativa e adoptou uma linha política mais adequada à situação da época. Eu próprio tive alguma participação neste processo.
Como eram as relações com outros grupos da extrema esquerda?
Era muito complicado, porque havia um sectarismo enorme. Não havia aproximação com ninguém, e toda a gente tratava de ganhar o seu espaço. Se bem que nesse sentido a nossa posição fosse um bocado diferente, porque tentávamos fazer pressão junto do PS e do PCP para desenvolver acções de massas, e fazíamos propostas nesse sentido para os confrontar com as suas bases, o que era uma prática muito própria do trotskismo. Isso, levava-nos ao desdobramento em iniciativas com o objectivo de obter uma resposta da parte das direcções daqueles partidos, fosse positiva ou negativa, o que, aliás, nunca veio a acontecer. Em relação aos maoístas era parecido, porque a sua opinião acerca do trotskismo era muito negativa e evitavam misturar-se connosco.
Como valorizas toda esta experiência depois de trinta anos?
A integração no movimento trotskista no início dos anos 70 foi a minha opção para combater a ditadura, a minha forma de lutar contra o anterior regime e o período posterior foi a continuação natural dessa luta. Neste aspecto a valoração que faço é muito positiva, acho que valeu realmente a pena. Numa perspectiva mais pessoal também foi muito interessante, foi uma fonte de experiência política de valor incalculável.
Não te tens arrependido com o passar do tempo de te teres envolvido a mais, de teres perdido outras oportunidades na tua vida?
Não, nada disso. Eu acho que as pessoas fazem em cada momento o que pensam que é mais correcto, e creio que foi o que eu fiz. Se tivesse feito o contrário, acho que sim, me arrependia. Foi aliás o que muita outra gente fez na altura. Foi toda uma geração que na fase final de ditadura foi sensível aos bloqueios e os impasses que o regime mostrava e que prenunciavam a sua queda. E foi mais do que isso, pois havia toda uma identificação com símbolos como a guerra do Vietname e o Maio de 68, ou a queda de Allende no Chile, que foi um acontecimento que nos influenciou muito. Eram acontecimentos que exigiam de nós um posicionamento, não se podia ficar indiferente em relação à guerra do Vietname ou à guerra nas colónias portuguesas. Era muito diferente do que acontece hoje em dia, onde as pessoas não são obrigadas a tomar posições perante nada.
Pensas que a tradição do trotskismo é de alguma utilidade para a intervenção política na actualidade?
Penso que uma boa parte dos factores que originaram o trotskismo como corrente política dissiparam-se. O fim da União Soviética retirou algumas das premissas que davam sentido à corrente trotskista. Isto não quer dizer que não continue a existir estalinismo, nem que essa demarcação tenha deixado de fazer sentido. Mas entretanto o mundo mudou completamente com o colapso dos países de Leste, que era algo que o trotskismo previa, mas não da forma como isso veio a acontecer. Neste aspecto tenho dúvidas sobre a existência de organizações trotskistas hoje. Creio que há toda uma série de coisas sobre o socialismo, sobre uma sociedade futura que precisam ser repensados de maneira diferente. É muito discutível continuar a defender conceitos como, por exemplo, a ditadura do proletariado. A opinião pública (onde os trabalhadores têm a maioria) em todo o mundo desenvolvido é contra as ditaduras. As sociedades modernas criaram condições para a extensão da democracia e qualquer projecto de sociedade diferente tem de ser atraente deste ponto de vista.
Por outro lado, o ideal de uma sociedade socialista sempre foi o de uma sociedade planificada, pelo menos dos grandes meios de produção. Ora, eu creio que isso se coloca hoje de maneira diferente. As sociedades desenvolvidas são muito diferentes das realidades que os grandes vultos do marxismo enfrentaram ou imaginaram. Os sectores da actividade económica mais dinâmicos de hoje também dependem de alguma criatividade individual. As economias modernas vivem muito do que se conhece como “economia do conhecimento”. A investigação e a inovação também estão ligadas à criatividade de agentes económicos individuais e, por isso, eles são pilares essenciais. Portanto, o crescimento económico hoje não pode ser completamente planificado, porque depende de alguns factores que não são planificáveis. E qualquer tentativa de planificação global leva a uma sociedade bloqueada.
Em alguma medida foi o que aconteceu na União Soviética. Na URSS o sistema funcionou enquanto se desenvolveu uma indústria pesada poderosa. O progresso técnico dominante da época fazia apelo a uma investigação centralizada e rotinizada. O conhecimento novo era acumulado e usado por esses grandes empreendimentos. Mas hoje esses sectores industriais são perfeitamente secundários na economia. A circulação da informação é fundamental, algo que na URSS não existia. Nem fotocópias se podiam fazer.
Quais são os elementos que devem configurar uma alternativa de esquerda face ao mundo que conhecemos?
Deve ser qualquer coisa baseada numa extensão da participação democrática dos cidadãos e na possibilidade de estimular a criatividade, para ter viabilidade. O contraponto da criatividade e de alguma dose de descentralização, na minha opinião, deve ser encontrado em fórmulas de regulação económica e social, com organismos independentes que façam apelo ao debate aberto e à participação permanente de todos cidadãos na defesa dos seus interesses.
Que pensas do projecto do Bloco de Esquerda e da sua actuação na política nacional?
Acho interessante. Ocupa um espaço fundamental na cena política e faz algumas propostas importantes. Hoje, de facto, o BE é a oposição ao governo, e isso deve-se, em grande parte, ao Francisco Louçã, que é um deputado acima da média. Isto não quer dizer que o PS não tenha bons deputados, mas um deputado do PS tem muito menos oportunidades de intervenção.
Esta situação prende-se com a crise que vive o PS e com o facto de o PCP ser um partido cinzento, sem chama. O PCP vive da ligação com o movimento sindical, com sectores operários em crise (na indústria e agricultura) e com algumas autarquias – o que não quer dizer que esses elementos das autarquias não façam asneiras umas atrás das outras. Mas são sectores em decadência na sociedade portuguesa, o que gera uma política burocrática e anquilosada. A política autárquica do PCP é muito duvidoso que seja de esquerda, fora de alguns centros do Alentejo que estão despovoados e não sofrem pressões do sector imobiliário. Nos grandes centros urbanos a política do PCP não se diferencia da dos restantes partidos. E o que surge de mais interessante dentro do partido acaba por sair mais ou menos rapidamente.
Creio firmemente que as alternativas mais interessantes para a esquerda em Portugal passam pelo que se passar com o PS e com o BE.
Entrevista de Heitor de Sousa
e Miguel Pérez
Texto da edição em linha do jornal (1999–2003), recuperado das cópias do Internet Archive e do Arquivo.pt.