combate

Arquivo da LCI, do PSR e da APSR, secção portuguesa da IV Internacional, e da sua imprensa, 1973–2013

outubro de 2003 · Jornal · 1.725 palavras

Combate, outubro de 2003, edição em linha

música

“Levanta-te e ri”

É uma presença desconcertante. Abraça e beija quem lhe aparece à frente. Diz, numa voz infantil, mesmo esganiçada, que dar beijos é um hábito «giro» dos portugueses que certamente vai tentar transportar para os Estados Unidos porque «é muito caloroso».

Assim é Rosie Thomas, cantora folk e comediante que tão depressa nos leva à gargalhada com piadas «nonsense» como às lágrimas quando canta numa voz frágil e etérea.

A fórmula a que ela recorre para agarrar o ouvinte tem pouca ciência: canções bonitas, despojadas, com piano e guitarra, contendo, por um lado, doces recordações de infância, e por outro, visões desencantadas do mundo.

O último disco «Only With Laughter Can You Win» percorre várias matizes – tem uma canção gravada numa igreja fazendo dueto com a mãe, outra em casa com o pai e ainda temas com vozes de amigos do universo da música. Arrisco-me a dizer que a ternura é um sentimento que atravessa todo o disco.

Mas o que torna Rosie particular é que quando a ouvimos cantar dificilmente imaginamos a comediante. Ela é nada mais que uma aproximação feminina ao polémico, e já desaparecido, Andy Kaufman. A personagem que ela encarna é Sheila, funcionária de uma pizzaria que usa um colar cervical, veste roupa de gosto duvidoso e apenas diz frases sem nexo. No palco, Rosie contracena com Sheila – ora entrando uma e saindo outra, um diálogo divertido com o público que, no fim, jamais a quer ver partir.

Rosie encantará, assim, quem gosta de folk, mas com sentido de humor e emoção à mistura.

ROSIE THOMAS

Discografia:

«When we were small», Sub Pop, 1999

«Only With Laughter Can You Win», Sub Pop, 2003

«Wages of Sin», dueto com Damien Jurado na colectânea «Badlands», homenagem a Bruce Springsteen

Sandy Gageiro

cinema

Jogo cão

Cidade de cães. Homens cães e mulheres cães. E um cão. Numa terrinha americana, território da moral e dos bons costumes, uma Graça vem perturbar tudo. Não, não é a nova ministra da educação: é Nicole Kidman, que é Grace.

A vilória é um tabuleiro, e a vida um jogo. Grace vem de fora. Mas deste "fora" só se sabe que há polícias e bandidos. Só resta ao espectador uma hipótese. Entrar ou não entrar no jogo. E entra-se. Basta não sair da sala.

Tudo se passa às claras (para quem vê). As portas e as paredes das casas não estão lá. Só o barulho das portas. É uma espécie de Big Brother: há até as reuniões da "comunidade" onde se discute sobre se Grace sai ou fica em Dogville. Mas é um Big Brother mais erudito. A música barroca aparece de vez em quando para nos lembrar disso. Mas será que tudo se passa mesmo às claras?

De onde vem essa música, por exemplo? De onde vem a voz do narrador, ao mesmo tempo pregadora e irónica? Pede-se ao espectador que entre no jogo. Mas quem fez esse jogo? Quem inventou as regras e para quê?

Para fazer uma "ilustração". Para, com um exemplo "típico" (embora caricaturado) de uma certa moral e de uma certa "civilização", mostrar as hipocrisias dessa moral, mostrar as duas faces da mesma moeda, onde se juntam Bem e Mal. Lars Von Trier põe-se nessa posição (quase invisível) de pregador de uma nova moral, que denuncia a que reina em Dogville. Põe em questão, aparentemente, os fundamentos dessa moral: a palavra e a argumentação, a ideia de "planificar" a acção, a racionalidade, a educação ("eu acredito na educação", diz a certa altura uma das habitantes, mãe de filhos com nomes de deuses greco-latinos). É também a moral da culpa/desculpa, do certo/errado, do crime/punição. Grace vem perturbar, porque é menina rica e citadina. Tem a "arrogância" de ser paternalista e desculpabilizadora em relação aos outros. Acaba por "encaixar" (de maneira perversa) em Dogville. E aprende uma lição, que é a que Trier quer que todos aprendam. Que o ser humano é "mau" e cão.

Quem inventou as regras foi Trier e o tom de Trier é ainda moralista, mas já duma outra moral. Envolve o espectador (apesar da divisão em capítulos, apesar das ironias, apesar do tabuleiro) para lhe impingir a sua tese. A representação regressa estranhamente a um novo naturalismo (há quem prefira dizer "underacting"), e procura um intimismo baseado nos sussurros de Kidman e na proximidade da câmara, além do uso banalíssimo e tradicionalíssimo da música. A câmara na mão e a montagem com saltos bruscos tornou-se (já era) o tique do artista, a sua imagem de marca.

O problema é que as velharias de Trier usam coisas novas e vêm com a aparência do novo e do radical. É essa a sua lição de marketing: provocatório à superfície e nos temas, inovador pelos tiques, ilusório e naturalista com uns pós de distância e ironia. E descobriu a pólvora: conciliar os seus jogos morais com o star system americano, "cinema de autor" que sabe alargar a sua fatia de mercado.

As contradições de Trier jogam-se aí: querer afrontar a moral fazendo "ilustrações" morais, ter a côdea arrojada e o miolo conservador. Obcecado pelo Bem e pelo Mal, Trier não consegue sair desse jogo onde se fecha (também não há saída de Dogville, é preciso voltar para trás...). Anda às voltas com o seu existencialismo soluçante.

O que ele adora, no fundo, é ver a Kidman sussurrando meia chorosa, filmada em tremelique com o Bach a acompanhar. Às vezes não há pachorra.

“Dogville”

de Lars Von Trier

Pedro Rodrigues

net

Será que aguentas?

A agitação estudantil está na ordem diária do alinhamento noticioso. Toda uma série de reivindicações ecoa nas ruas e nas faculdades, numa contestação à política deste governo para a Educação e para o ensino superior. O combate que se trava é claro: contra o agravamento das propinas, contra as prescrições, contra a ausência de representação paritária nos órgãos de gestão das instituições e contra a redução de vagas para o ensino superior. Enfim, contra a política obscena desta direita que lançou um assalto ao bolso dos estudantes, à sua inteligência e capacidade reivindicativa.

Sabemos que um ensino tendencialmente universal é um ensino universalmente gratuito. Donde as propinas são o elo mais visível de um ensino superior globalmente vedado às classes menos favorecidas. No que o aumento das propinas é um passo mais na ofensiva privatista da direita para o sector da Educação e representa, já neste ano que se inicia, o abandono do ensino superior por quem menos tem e menos pode pagar.

Tal como em tantos outros países da União Europeia, a resposta é evidente: apenas a abolição das propinas e um sistema fiscal de impostos mais justo e rigoroso pode garantir, na base primeira do Orçamento de Estado, uma cobertura crível de um alicerce indispensável ao nosso progresso social, cultural e tecnológico. Porque nem só de estádios e submarinos vive um país.

Esta luta é também pela democracia nas faculdades. Por isso contestamos as prescrições – uma fórmula eficaz de responsabilizar os alunos pelo seu insucesso escolar – e as restrições à norma paritária entre docentes e estudantes. Esquecendo todas as falhas técnicas e materiais dos estabelecimentos de ensino, desvalorizando a incapacidade pedagógica dos docentes e evitando levantar o véu sobre todas as causas efectivas do insucesso dos estudantes, este governo resolve administrativamente um problema essencialmente estrutural. E, na sua fúria autista, recusa aos alunos um papel activo nos órgãos de gestão. A solução apresentada é, visivelmente, parte do problema que se identifica.

Como tal, o ano lectivo que agora se inicia será fértil em lutas várias. A mobilização estudantil está a travar o combate contra a pilhagem deste governo PSD/PP. Numa oposição firme e determinada à liquidação operativa do ensino superior e à discriminação económica dos agentes de poder, clama-se por uma Educação aberta, gratuita, universal – socialista. Nas greves, nas manifestações, nas ocupações e nas assembleias, o presente que se decide é agora. E o futuro dos direitos que teremos é a vitória sobre a revolta que fazemos ouvir.

Campanha Nacional AAEE

www.seraqueaguentas.pt.vu

Tiago Barbosa Ribeiro

agenda1

TÓQUIO>HONG-KONG>XANGAI>SINGAPURA

Assim se chama a exposição do nosso colaborador Pedro Zamith. É na galeria monumental, ao Campo dos Mártires da Pátria. Inaugura a 8 de Novembro e podem vê-la até 21 Dezembro. Não percam!

agenda2

Um congresso para todos os músicos

Os músicos estão, finalmente, em pé de guerra. Cansados das boas intenções de sucessivos governos – e da total ausência de intenções do actual – começam a compreender que a introdução da dimensão artística e cultural nos discursos partidários, nas preocupações do poder, no estreito repositório que constituem as prioridades nacionais só pode ser fruto do seu empenho esclarecido e da sua sofrida sensibilidade.

A Comissão ad hoc emanada da Reunião Magna de Músicos reunida a 11 de Fevereiro na casa do Artista – a mais participada de sempre – em torno da questão da defesa da Música Portuguesa, concluiu da necessidade de realizar um grande Congresso Nacional dos Músicos, que permita promover um reencontro profundo de objectivos e compatibilização das diversidades.

Este Congresso terá lugar em Outubro (23 e 24, das 10h às 19 h) , na FIL / Parque das Nações, por ocasião e em espaço cedido pela Feira Musicália. Estarão em discussão dois documentos fundamentais, devendo abordar os principais problemas e inquietações que enfrentam os músicos no seu dia a dia:

1. Estatuto do Músico – profissionalismo da actividade musical no contexto da sua importância económica; certificação profissional, enquadramento contratual, segurança social, fiscalidade, ensino, protecção na discriminação, condições de trabalho e outros;

2. Estratégias para a reestruturação das organizações representativas dos músicos – estímulo de atitudes participativas da classe face à crescente instabilidade socio-profissional.

Estes documentos já estão disponíveis para consulta e discussão por Internet (site: musicaemusicos.org). Emendas ou documentos alternativos poderão surgir até uma semana antes do Congresso, garantindo-se a sua divulgação em estrita paridade, nos termos do regulamento.

Este fórum, de profundo interesse para uma classe que, cada vez mais, faz sentir o seu peso na economia mundial, conta com a participação em massa dos profissionais do sector, que terão oportunidade de debater os seus pontos de vista com representantes da indústria, de instituições estatais, organizações internacionais, escolas, produtores e afins.

Apelamos à tua participação activa para transformar este evento num marco fundamental da nossa música na cultura, cidadania e economia nacionais.

Documentação (e muito mais) aqui.

Luís Cunha

Texto da edição em linha do jornal (1999–2003), recuperado das cópias do Internet Archive e do Arquivo.pt.

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