Curtas: Bolívia, João Paulo II e Orçamento 2004
Combate, outubro de 2003, edição em linha
Jornal2003BOLÍVIA:
EMERGE A VELHA TOUPEIRA
A venda de gás natural boliviano é um negócio chorudo que pode interessar à Califórnia de Schwarzenegger, à burguesia chilena que controla o gasoduto, à nomenclatura boliviana que se faz subornar para apor a sua assinatura em contratos leoninos. Mas é um negócio ruinoso para os camponeses índios, que têm de viver do cultivo da coca e que perceberam perfeitamente qual seria o significado do contrato. Por isso vieram para a rua e derrubaram o governo de Sanchez Lozada. De um dia para o outro, o pequeno país latino-americano voltou a estar à cabeça das lutas altermundialistas. Mais de 80 mortos, não bastaram para aquietar os protestos dos camponeses. Bem pelo contrário, os mineiros vieram juntar-lhes a sua voz, enquanto as forças de esquerda procuravam combinar entre si uma alternativa de poder, em torno de Evo Morales, candidato revolucionário, do Movimiento Al Socialismo, que perdera por uma unha negra contra Lozada na eleição presidencial. Do lado inimigo, nem serviu de nada a advertência da Casa Branca de que iria "tolerar" a substituição de Lozada. O presidente que fala castelhano com sotaque de Wall Street foi mesmo derrubado, substituído temporariamente pelo seu vice e derrotado no plano de exportar o gás natural. A Bolívia, berço em 1952 da mais "clássica" revolução proletária da América Latina, reencontra o seu lugar na luta contra o imperialismo, quando a velha toupeira volta a emergir das minas de cobre e estanho.
JOÃO PAULO II: UM HERÓI DA CONTRA-REVOLUÇÃO
Foi inteiramente justificada a homenagem que prestaram ao papa os Murdochs, Berlusconis, Belmiros e Balsemões do mundo inteiro, e os governos mais beatos como é o português. Karol Woytila vai ficar na História como o papa polaco, escolhido em colégio pontifício com a missão de abrir caminho ao imperialismo na Europa do Leste. Cumpriu a missão com um êxito que certamente seria impossível sem o enorme apodrecimento dos regimes estalinistas, mas que também deve muito à sua tenacidade e ao seu talento político. No pontificado em que a História mais se acelerou, o papa também combateu ferozmente as revoluções mais prometedoras e esperançosas, como a nicaraguense e propagandeou incansavelmente as contra-revoluções passadas. Um dos seus instrumentos nessa luta foi a beatificação e canonização em série de padres franquistas, mortos na Guerra Civil de Espanha e noutros conflitos. A produção de santos neste pontificado foi superior à de todos os precedentes. O papa militou incansavelmente pelo obscurantismo do culto mariano, pregou energicamente contra a homossexualidade, o aborto e o divórcio, e abafou quanto pôde os escândalos de abuso sexual de menores por membros da Igreja. Especialmente insensível foi a sua campanha contra o preservativo em países africanos devastados pela Sida. Mas, a este reaccionário empedernido, não faltava também o jogo de cintura de um grande político: com a espada na mão direita, o papa agitava um ramo de oliveira na mão esquerda. Com 500 anos de atraso reabilitou Galileu, que tinha cometido a heresia de ver a Terra a girar em torno do Sol. Com a camuflagem de corrigir o anti-semitismo da Igreja, restabeleceu relações com Israel, que bem necessita da ajuda papal contra a Intifada. Em torno de temas como a contracepção, suscitou a convergência com os integristas islâmicos, na provável esperança de desenvolver uma constelação ecuménica em que a Igreja mais forte e mais rica - a católica, apostólica e romana – teria as melhores unhas para tocar guitarra. Neste contexto, não surpreende que o papa se tenha enfurecido contra a cruzada de Bush no Iraque, uma aventura que vinha estragar-lhe a teia urdida com tanta paciência e pôr em risco todas as pontes de diálogo com o Islão. Mas a este fugaz anti-belicismo papal preferem não se referir os papa-hóstias como Paulo Portas, que agora se desdobram em genuflexões e homenagens.
Orçamento para 2004: continuam os cortes
A obssessão pelo défice continua a arrastar o país para a crise. Para 2004, o governo vai voltar a agravar o IRS para quem ganha menos e baixar o IRC às empresas, apesar de nos primeiros 8 meses de 2003 ter recolhido menos 600 milhões de euros de IRC que em igual período no ano passado. E como 60% das empresas preferem fugir tranquilamente ao pagamento de impostos sem sofrer penalizações por isso, a diferença em relação ao que se vive hoje é nenhuma. Os salários vão voltar a diminuir, sendo actualizados em valores abaixo da inflação prevista. Claro que quem fica a perder são os salários mais baixos (o salário mínimo foi revisto em apenas 2,5%). Para contrariar a reessão económica, a direita responde com mais crise: o investimento público volta a cair (desta vez 5,8%) com cortes brutais na saúde, justiça e educação.
Texto da edição em linha do jornal (1999–2003), recuperado das cópias do Internet Archive e do Arquivo.pt.