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Arquivo da LCI, do PSR e da APSR, secção portuguesa da IV Internacional, e da sua imprensa, 1973–2013

Livio Maitan e o fio condutor

António Louçã · dezembro de 2004 · Revista Combate · 1.062 palavras

Combate n.º 281, dezembro de 2004 a fevereiro de 2005, pp. 26–27

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O DILEMA É ESSENCIAL, porque não se trata de uma questão suscitada apenas em circunstâncias excepcionais. Esse “quando” é “sempre”. A revolução é, por natureza e definição, o reino do imprevisto. Em cada viragem inesperada dos acontecimentos, surge a tentação de lançar borda fora a teoria e o programa revolucionários.

Ver o que há de novo em cada situação histórica é meio caminho andado para nos interrogarmos sobre o nosso ponto de partida. Perguntas difíceis, que ao longo do século passado paralisaram muitos companheiros, aterrados pelo abismo de incertezas que parecia abrir-se à sua frente. Uma das respostas possíveis, a resposta sectária, consiste em negar a existência do que é novo, em esconder a cabeça na areia e em procurar, à viva força, ver no caudal tumultuoso da vida uma mera con- firmação do que já estava dito. Mas difíceis também, as perguntas, porque cada pacote de novidades que nos surge pela frente tem criado com regularidade e frequência uma legião de entusiastas que surpreendem um átomo de novidade e logo julgam ter descoberto a pólvora. Armados com este último grito da sabedoria, julgam poder dispensar o “envelhecido” marxismo como guia para a acção. Um relance sobre a história do século passado, mostrar-nos-ia que o batuque sobre a obsolescência do marxismo é, ele próprio, velho como esse século, e com uma fatal tendência para se repetir a si próprio e à sua cassette.

É isto que confere especial significado a uma vida longa, com as inevitáveis incoerências de quem escuta, observa e intervém num filme rebelde a todos os guiões, e que, apesar desse carácter activista e irrequieto, mostra, no fim do caminho, um fio condutor para além das peripécias de cada momento. O fio da vida militante de Livio Maitan começa com o seu recrutamento para a Resistência, durante a ocupação nazi do Norte da Itália. Obrigado a fugir para a Suíça, recebe a notícia da Libertação num campo de refugiados. No imediato pós-guerra adere à IVª Internacional, onde vai militar durante mais de meio século e, em breve, desempenhar um papel dirigente de primeiro plano. A jovem organização e os seus jovens dirigentes logo se vêem confrontados com o primeiro grande imprevisto: das ruínas da guerra, do descrédito da burguesia, dos horrores de Auschwitz, Katyin e Hiroshima, não emerge um proletariado disposto a quebrar as suas cadeias, e sim uma vaga de fundo favorável à política estalinista. A Internacional responde a este quadro inesperado com uma política chamada de “entrismo sui generis” e recomenda às suas secções que se integrem nos partidos estalinistas.

Sobre os debates que envolveram e justificaram essa política, muitas citações se têm feito, mas nenhuma tão eloquente como este facto: Livio Maitan, Ernest Mandel e Pierre Frank sobrevivem à dinâmica auto-dissolvente do entrismo e mantêm a luta pela construção de uma Internacional revolucionária. Maitan, Mandel e Frank constituem então a equipa dirigente da IVª Internacional. Pelo caminho, resistem ainda à deriva ministerialista de Michel Raptis (Pablo) na Argélia e da importante secção da IVª Internacional em Ceilão: mesmo se o mundo do pós-guerra não é ainda o das revoluções proletárias, o movimento trotskista existe para lutar por elas, e não para se deixar calar com o prato de lentilhas de uma qualquer participação em governos social-democratas, estalinistas ou nacionalistas pequeno-burgueses.

Dir-se-á que, ao reconhecer acertadamente o alcance da revolução cubana de 1959, essa equipa dirigente aceita o bébé e também a água do banho, a guerrilha erigida em estratégia continental para a tomada do poder. E, com efeito, o balanço da política guerrilheirista na América Latina foi um de pesados retrocessos. Dentro da Internacional, Livio mantém a este respeito acaloradas discussões com Hansen, Moreno, Vitale e outros – que têm razões para criticá-lo, mas que nem por isso se salvarão, eles próprios, de pecar aqui e além, após a revolução sandinista de 1979, por seguidismo à social-democracia, ao castrismo, ao nacionalismo. O debate sobre a estratégia da guerrilha é, em qualquer caso, um debate entre revolucioná

rios, que se trava dentro da Internacional e que nada tem a ver com as rupturas de princípio causadas por participações governamentais citadas atrás.

Com a queda do Muro de Berlim em 1989 e a desagregação da URSS a partir de 1991, a realidade da luta de classes volta a pregar uma partida às expectativas de tantos e tantas de nós. Se, nas situações de duplos, triplos e múltiplos poderes que passam a florescer nos países do antigo hemisfério estalinista, esperávamos assistir à irrupção de conselhos operários, embriões de regimes de democracia directa, tivemos que desenganar-nos rapidamente. Do colapso das nomenklaturas burocráticas não resulta nenhuma revolução de Outubro que sirva de pólo aglutinador a um reagrupamento das vanguardas combativas em todo o mundo. Não resulta sequer um processo com a capacidade de irradiação das revoluções cubana e nicaraguense. Resulta sim um salto qualitativo na crise dos partidos comunistas. E resultam processos de transformação profunda em forças revolucionárias ou centristas com as quais a anterior colaboração das secções da IVª Internacional só podia ser meramente pontual. Em alguns casos, a resposta aos desafios inéditos apresentados por esta nova situação tem passado por reagrupamentos, em que os partidos trotskistas se tornam simples correntes dentro de movimentos mais amplos.

Mais uma vez, Livio é um pioneiro deste tipo de iniciativas, ao participar em Itália na criação e na direcção do Partido da Refundação Comunista. Não cabe aqui esboçar algum balanço do que foi a luta de Livio para inscrever na política desse partido as contribuições de uma tradição revolucionária que ele representava como poucos. Os pioneiros, mais do que os prudentes seguidores, estão sempre condenados a utilizar um método de tentativa e erro que torna impossível ajuizarmos da sua acção por citações meticulosamente coligidas. Tomemos, mais uma vez, a prática como critério de verdade: num momento em que parece iminente uma viragem à direita do Partido da Refundação Comunista, com um apoio mais do que anunciado ao projecto governamental de Romano Prodi, o núcleo partidário que resiste e repensa o seu futuro tem como referência a pessoa, o exemplo, a prática de Livio.

Também para nós se trata de um exemplo que não morre com a pessoa. Livio foi um dos poucos que mantiveram ao longo de meio século o tal fio condutor sem o qual não seríamos o que somos. Eis uma dívida que só se paga na luta.

* Historiador. [email protected]

Texto extraído do PDF da revista que o combate.info publicou; as citações em destaque e as legendas foram omitidas.

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