Ligeiro recuo do PP, tímido avanço da esquerda
Estado espanhol · Combate, junho de 2003, edição em linha
Jornal2003Os resultados das eleições municipais e regionais do passado 25 de Maio, consideradas como uma "primeira volta" das legislativas pelos principais partidos e com uma taxa de participação 4% acima das anteriores, significaram uma relativa decepção para aqueles que, por razões diversas, como a catástrofe do "Prestige" ou a guerra do Iraque, se mobilizaram contra o governo do PP. De facto, se bem que em termos absolutos o PSOE obteve cerca de cem mil votos a mais que o PP e registou-se uma certa recuperação da Esquerda Unida (IU) e um relativo ascenso de algumas forças da esquerda nacionalista, em termos globais o PP de Aznar não viu enfraquecidas as suas posições de poder na maioria das capitais e parlamentos autonómicos (lembremo-nos que agora não houve eleições na Catalunha, País Basco, Galiza e Andaluzia).
Contrariamente às expectativas geradas à esquerda com a extraordinária mobilização contra o apoio do governo à guerra de Bush contra o Iraque, pudémos observar que o desejado "efeito Blair" teve um alcance muito limitado se o compararmos à resposta massiva por parte do eleitorado do PP, muito superior ao reflexo que aquelas lutas tiveram no voto nas formações de esquerda que podiam ser expressão da vontade de castigar o governo neste acto eleitoral. A tudo isto há que acrescentar a diversidade de situações e problemas específicos que, no plano local e regional, influenciam este tipo de eleição.
Porventura o dado que melhor revela o escasso efeito das mobilizações dá-se na Galiza, onde os protestos contra o "Prestige" apenas produziram uma quebra de 4 pontos do PP e não impediram a sua continuidade na zona mais afectada pelo desastre, a Costa da Morte; por outro lado, o Bloco Nacionalista Galego só subiu 1 ponto percentual e o PS Galego conheceu uma recuperação significativa, ainda que limitada.
Na Catalunha, o voto da esquerda social mais implicada nas mobilizações parece dirigir-se mais a formações como a Esquerra Republicana de Catalunya e e Iniciativa per Catalunya-Els Verds-EuiA, que subiram significativamente frente ao PS catalão na cidade de Barcelona. Também em Aragão pudémos observar um novo ascenso de uma formação nacionalista de esquerda, a Chunta Aragonesista, junto com um PSOE que se tinha oposto ao Plano Hidrológico do governo central. Pelo contrário, em Murcia o PP reforçou-se com uma nova maioria absoluta, graças à popularidade que tinha esse mesmo Plano na região, tal como aconteceu no País Valenciano. Na Extremadura e Castilla-La Mancha, feudos do PSOE, este viu revalidada a maioria absoluta, graças também ao papel "populista" que jogaram os seus líderes regionais, enquanto nas Astúrias, outro bastião do PSOE, este perdeu a maioria absoluta, embora continue no governo com o apoio da IU.
Mas os focos de atenção mais emblemáticos dos resultados deste confronto eleitoral foram sem dúvida a cidade de Madrid e as Baleares. Na primeira o candidato "light" do PP, Ruiz Gallardón, conseguiu a maioria absoluta, enquanto nas ilhas o PP acaba com o governo da "esquerda plural" graças, sobretudo, à queda de um partido nacionalista, o PS de Maiorca. É verdade que na Comunidade de Madrid o PSOE e a IU obtêm, embora por escassa diferença, a maioria, mas esse resultado não consegue atenuar o impacto simbólico daquelas duas derrotas.
Um caso à parte é o de Euskadi, onde a ilegalização de quase todas as candidaturas promovidas pelo Batasuna não impediu que o apoio às mesmas se expressasse através de um voto nulo muito semelhante ao das passadas eleições autonómicas (mais de 10% dos votos expressos na Comunidade Autónoma Basca), provocando assim um profundo défice de legitimidade num número significativo de autarquias. Paralelamente, a coligação PNV-EA continua a afirmar-se face ao PP e ao PSOE – que não conseguem arrebatar-lhe a Câmara de Bilbau – enquanto a federação basca da Izquierda Unida aumenta em número de votos e vereadores e a província de Álava continua nas mãos da aliança PP-PSOE. Em Navarra, as forças "regionalistas" de direita são maioritárias, mas Aralar, uma cisão do Batasuna, irrompe com força no Parlamento autonómico.
No que se refere à IU, a avaliação geral dos resultados pela direcção federal é relativamente positiva, apesar deles estarem abaixo da expectativa gerada nos últimos meses. Há que ter em conta que este partido sofre desde há muito uma tendência decrescente (na que também tinham influência os conflitos internos e, por mais que uma vez, a elaboração de listas pouco representativas da pluralidade desta formação e da sua relação com a esquerda social) que ameaçava até a sua sobrevivência institucional em lugares como Madrid e que graças ao seu envolvimento nas mobilizações conseguiu uma recuperação eleitoral, provavelmente graças ao voto jovem e antigos abstencionistas. Nestas eleições municipais, as listas impulsionadas pela IU alcançaram 7,4% dos votos, mantendo a maioria na emblemática cidade de Córdoba, subindo na província de Sevilha, nas Astúrias, Navarra, País Valenciano e Catalunha (aqui coligada com IC-Els Verds). Apesar disto, mantém-se uma presença institucional muito débil em lugares como Aragão, La Rioja, Canárias, Cantábria, Galiza, Castilla-La Mancha e Castilla e León. Agora abre-se o risco de que uma orientação maioritária tendente a governar em qualquer circunstância com o PSOE em municípios e Comunidades Autónomas, como Madrid ou Astúrias, conduza a uma posição subalterna face a esse partido, em detrimento de um perfil alternativo e diferenciado.
Rumo a um novo ciclo?
Um balanço geral do que aconteceu a 25 de Maio vem desmentir as ilusões de que se abriria um novo ciclo de desgaste crescente do PP e de perspectivas de uma vitória da esquerda nas legislativas de Março do ano que vem. Nem uma coisa nem outra estão garantidas, já que a distância entre a mobilização social e a sua expressão eleitoral se revelou muito superior às previsões, e na explicação desta diferença incidem muitos factores, tanto os de "longa duração" – o peso de uma cultura de cinismo político herdada da transição e de décadas de hegemonia neo-liberal – como outros relacionados com o discurso do "medo" (da "coligação radical Zapatero-Llamazares", da "ruptura com Espanha"…) agitado por Aznar e com o fraco enraizamento social dos partidos de esquerda. Em resumo, a onda de lutas vivida nem sequer chegou a ter a penetração social suficiente para poder passar para o plano político-eleitoral e, sobretudo, para ie assentando as bases de uma nova cultura política "contra-hegemónica". A tarefa da esquerda anti-capitalista e alternativa terá de estar orientada para a criação das condições para recuperar um novo alento no estimular da mobilização social e no aprofundar do desgaste do PP, evitando qualquer tentação na esquerda, como já existe no PSOE, de abandonar a luta nas ruas para assim se colocar melhor na disputa do "centro" político com o PP.
Jaime Pastor, membro do Espaço Alternativo e do Conselho Político Federal da Esquerda Unida (IU).
Texto da edição em linha do jornal (1999–2003), recuperado das cópias do Internet Archive e do Arquivo.pt.