combate

Arquivo da LCI, do PSR e da APSR, secção portuguesa da IV Internacional, e da sua imprensa, 1973–2013

EUA: a caminho da guerra infinita

Luís Branco · novembro de 2002 · Jornal · 1.003 palavras

Combate, novembro e dezembro de 2002, edição em linha

Novembro já passou e Saddam pode respirar de alívio. Os inspectores da ONU estão de volta ao Iraque e por ali ficarão nas próximas semanas. Mas a ameaça da invasão não esmoreceu nem vai esmorecer: ela já deu aos republicanos uma vitória inédita nas eleições para o Congresso e concentra ainda as atenções dos norte-americanos, bem mais do que a situação económica que não dá sinais de retoma ou os escândalos das falências que abalam a administração.

Para os falcões, é tudo apenas uma questão de tempo e a estratégia da Casa Branca não muda com este compasso de espera. Independentemente dos resultados das inspecções, Bush já avisou que o objectivo é acabar com Saddam Hussein e colocar outro no lugar dele, alguém de confiança e que permita o acesso dos honrados accionistas das companhias petrolíferas mais próximas da família à segunda maior reserva mundial do ouro negro.

Do trabalho dos inspectores não há muito a esperar. A equipa que lá esteve antes - e que Clinton mandou regressar à base para poder bombardear à vontade na "Operação Raposa do Deserto" em 1998 – tinha concluído que a missão de destruição do arsenal iraquiano estava praticamente concluída e que o país tão cedo não teria os meios para reorganizar o seu sistema de armamento aos níveis de 1991.

As sanções económicas que os EUA impuseram a Bagdade ditaram a incipiência da sua capacidade militar e industrial, para além de, segundo a UNICEF e a OMS, serem responsáveis por mais de um milhão de mortos, dos quais mais de seiscentos mil são crianças com menos de sete anos. E é já sabido e aceite pelos governos dos países membros da NATO que mesmo que os inspectores voltem dos palácios presidenciais sem terem visto nada de suspeito, os EUA impedirão as sanções de serem levantadas, usando qualquer pretexto para continuar a impor a desgraça àquela parte do planeta.

O aparente erro de pontaria da admnistração Bush começa a ser apontado com desconforto à medida que os ataques terroristas se vão repetindo no Quénia, na Indonésia ou no Iémen. A cada semana que passa, os aliados dos EUA apercebem-se que a ameaça a que Bush declarou guerra após os atentados de Nova Iorque e do Pentágono não vem do Iraque. Mas não é Bush que está enganado: a nova doutrina militar norte-americana teve sempre como objectivo o controlo das reservas naturais do gás e do petróleo e a supremacia armada imposta a amigos e inimigos. Neste capítulo, a soberania nacional, o direito internacional e o multilateralismo são bons objectos de estudo para quem se dedique a ler os livros de história do século XX. Para os novos senhores de Washington, esse tempo teve o destino das torres gémeas.

À arrogância norte-americana respondem os principais intérpretes das resoluções das Nações Unidas com o silêncio cúmplice de um Putin, a subserviência congénita de um Blair ou a prudência resignada de um Chirac. Que ninguém conte com eles para levantarem a voz contra os ultimatos da Casa Branca à ONU. É na opinião pública internacional, nos movimentos pela paz que saíram às ruas de Florença em Novembro, que reside a esperança de um mundo que não se submeta ao terror da guerra infinita contra o inimigo sem rosto.

Kissinger: o investigador “independente”

Foi no meio de grande polémica que George W. Bush nomeou Henry Kissinger para chefiar uma comissão responsável pelo apuramento de toda a verdade sobre o 11 de Setembro de 2001. A razão é simples: era de facto muito difícil encontrar alguém pior para desempenhar essa tarefa.

O percurso de Kissinger na preparação e financiamento de acções terroristas em todo o planeta é conhecido: foi braço direito de Nixon na guerra do Vietname e co-responsável por centenas de milhares de mortos, como recompensa por ter sabotado as conversações de paz de Paris durante a campanha eleitoral de 1968; apoiou o general paquistanês Yahya Khan no derrube do governo eleito no Bangladesh e na consequente guerra civil que causou igualmente centenas de milhares de mortos; orientou a operação da CIA que provocou o “primeiro 11 de Setembro” - data do golpe de Estado chileno que leva à instauração da ditadura de Pinochet - ; aprovou, enquanto secretário da administração Ford, a invasão de Timor-Leste pelas tropas de Suharto; encorajou, desde o início, os métodos da "guerra suja" da ditadura argentina, enaltecendo os seus resultados (quase 30 mil "desaparecidos") na "erradicação do terrorismo".

Com a nomeação de Kissinger, não é só um suspeito de co-autoria e cumplicidade em muitos crimes contra a humanidade que é elevado à condição de "investigador". A forma como saíu da Casa Branca, acusado de montar escutas aos seus colaboradores e levando consigo muitos documentos sensíveis de investigações como se fossem "objectos pessoais", prova que este homem é um especialista no encobrimento da verdade, e não o contrário. Mas é exactamente isso que a administração Bush/Cheeney queria, depois de meses de bloqueio à constituição de uma comissão que apure responsabilidades perante a opinião pública sobre o que falhou e porquê naquele dia 11.

O jornal "The Nation" lembra agora que apenas dois dias antes da queda das torres gémeas, o programa "60 minutos" da CBS relatava o testemunho da família de Rene Schneider, que acusa Kissinger em tribunal de ter pago 35 mil dólares aos assassinos deste general chileno em Outubro de 1970. Em apenas dois dias, nos écrans televisivos, Henry Kissinger passou de ex-governante "apoiante de terroristas" a comentador "especialista em terrorismo". Agora, é ao mesmo tempo investigador e investigado: ainda segundo o The Nation, para além do caso Schneider, outras onze vítimas da ditadura chilena acusam-no de ajuda e encorajamento ao regime de Pinochet. Note-se que neste processo Kissinger é defendido por Michael Townley, o responsável pela explosão do carro-bomba que em 1976 matou o embaixador de Allende em Washington, Orlando Letelier. A par deste processo, também o juíz Garzón e a justiça francesa já anunciaram a vontade de interrogar o recém-nomeado "investigador independente" sobre outros casos em fase de inquérito.

Luís Branco

Texto da edição em linha do jornal (1999–2003), recuperado das cópias do Internet Archive e do Arquivo.pt.

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