Eleições na Palestina e Israel
Médio Oriente · Combate n.º 285, primavera de 2006, pp. 46–49
Revista Combate2006Michel WarschawskiNO ENTANTO, apesar do poder e da brutalidade impiedosa dos militares israelitas – que ficaram bem patentes nos massacres de Sabra e Shatila – a invasão do Líbano falhou.
De volta ao poder em 2001, Ariel Sharon estava determinado a ser bem sucedido onde falhara vinte anos antes. Sob a capa duma guerra preventiva e permanente contra o terrorismo, Sharon lançou uma ofensiva sangrenta contra os dirigentes, activistas e instituições no movimento nacional palestiniano. Queria destruir o movimento, sabendo bem que se o conseguisse, a sua estratégia faria emergir uma liderança alternativa.
“Israel não tem um parceiro Palestiniano” não foi a razão para a operação militar em larga escala nos territórios ocupados – foi o seu objectivo: para o antigo PM israelita, o unilateralismo era a única via para atingir as metas sionistas e as negociações foram consideradas um obstáculo que poderia forçar a compromissos inaceitáveis. Era portanto necessário eliminar qualquer parceiro potencial para futuras negociações.
Depois de neutralizar Yasser Arafat, o governo israelita desestabilizou o “moderado” Abu Mazen e prosseguiu a destruição em curso das infraestrutoras e da continuidade territorial da Palestina. Tanto o caos como muitas vezes os ataques terroristas eram os resultados esperados desta política, que só provava que ainda não existia um parceiro palestiniano.
Israel impediu intencionalmente a liderança palestiniana de poder tomar medidas em benefício do seu povo, quer a nível económico quer político, o que facilitou, tal como previsto, o colapso do apoio popular aos governantes e o fortalecimento da oposição islâmica. De facto, o Hamas não é só visto como o mais capaz mas também como distante dos fracassos da Autoridade Pa
lestiniana. O voto no Hamas foi mais um voto de protesto do que de adesão ideológica, como quem diz “vocês falharam, não confiamos mais em vocês, vamos experimentar algo novo.”
Ariel Sharon queria a vitória do Hamas para poder proclamar com maior convicção “Não temos um parceiro para a paz”. Estes resultados permitem a Israel continuar com os passos unilaterais de colonização, incluindo alguns realinhamentos na disposição das unidades militares ou o desmantelamento de colonatos mais isolados e difíceis de proteger.
Esta política pode render frutos por algum tempo, e a reacção da comunidade internacional e dos media, ameaçando secundarizar a questão palestiniana, corre de acordo com os planos da liderança israelita. Noutras palavras, o povo palestiniano vai enfrentar tempos muito duros a curto prazo.
Mas - e qualquer palestiniano sabe isto – como é que as coisas podem piorar mais ainda? Israel vai parar o processo de paz? Não existe nenhum processo de paz. Israel vai voltar aos assassínios selectivos? Eles nunca pararam. Israel vai destruir mais casas e arrancar mais árvores? È quase impossível fazer mais estragos que os que duram há cinco anos. Israel vai continuar a prender activistas? Esta política nunca se interrompeu. A comunidade internacional vai cortar no apoio económico? Já foi reduzido aos mínimos.
O Hamas trará a unidade nacional?
O sucesso de Israel pode no entanto não durar muito. Dado que foi eleito democraticamente e na presença de centenas de observadores internacionais, o Hamas tem algum crédito internacional. O facto de não ser responsável pelos compromissos prévios da OLP (o processo de Oslo) pode ajudá-lo a manter baixas as expectativas da população. A
Textos de Michel Warschawski *
O PARTIDO Trabalhista conseguiu limitar os estragos provocados pela criação do Kadima e a saída de muitos dos seus líderes, acabando por perder só 10% dos eleitos: vinte deputados em vez de vinte e dois. O enfraquecimento do Meretz3, um fenómeno contínuo desde 1999, não parou: a sua representação parlamentar passou de seis a quatro deputados. Os partidos fundamentalistas (Shas e Yahadut Ha Tora) aumentaram de dezasseis para dezanove lugares, confirmando assim a estabilidade da sua base eleitoral junto do público judeu. Apesar da abstenção alta (quase 45%), as listas árabes aumentaram a sua representação no parlamento israelita: de oito para dez deputados.
Em direcção à normalidade e separação
Menos de dois terços do eleitorado israelita fez o esforço de ir votar. Estes números indicam a principal característica desta eleição em Israel: uma inquestionável falta de paixão e um relativo desinteresse. A campanha eleitoral foi a mais aborrecida desde 1969 e os resultados confirmam que os israelitas estão fartos dos conflitos internos e da retórica ultra-nacionalista. O sucesso do Kadima, o partido do primeiro-ministro em exercício – e agora eleito - Ehud Olmert, é a consequência directa da aspiração do eleitorado a uma política mainstream, tanto ao nível político como social.
Os vinte e oito deputados do Kadima transformam-no no maior partido no novo Knesset, e o seu líder Ehud Olmert no próximo primeiro-ministro. Mas o sucesso do Kadima é relativo. Há dois meses, as sondagens previam quarenta e cinco lugares para o Kadima! Com a saída de Ariel Sharon, deu-se início a um processo de erosão, ao ponto de muitos analistas terem dito na
noite eleitoral que se as eleições fossem um mês mais tarde, possivelmente os trabalhistas teriam vencido. É por isso que, apesar da traição de Shimon Peres e muitos outros dirigentes trabalhistas que resolveram juntar-se ao Kadima, e também da campanha racista contra a ascendência marroquina de Amir Peretz, o seu jovem e combativo líder, o Partido Trabalhista conseguiu aguentar o resultado de 2003 e tornar-se no segundo maior grupo parlamentar.
O sucesso do Kadima e o colapso do Likud resultam dessa vontade de normalização sentida pela população israelita, bem como da sua relutância em seguir os protagonistas da “linha dura”. Os trinta e dois lugares alcançados pela direita pertencem à quarta parte do povo israelita que é adepta da “linha dura”, enquanto os 34 lugares dos trabalhistas, listas árabes e Meretz representam a quarta parte orientada para a paz. Metade da população não está motivada nem pelo Grande Israel nem pela paz, mas por uma forte vontade de separação, quer através de negociações quer imposta unilateralmente aos palestinianos.
Ehud Olmert – e Ariel Sharon antes dele – compreenderam o cansaço geral quanto ao discurso da “guerra permanente e preventiva” de Netanyahu e da direita em geral. Ele percebeu que uma atitude “centrista” seria mais popular, e fez os possíveis por mostrar que representava um corte com o status quo identificado com a perpetuação do conflito, independentemente da posição ou das acções palestinianas. “Vamos determinar as fronteiras entre nós e os palestinianos”, “Vamos acelerar a separação”, “Continuaremos o processo de separação unilateral” foram os slogans principais do Kadima, aos quais o Likud só pôde responder “Olmert põe Isreal em perigo, precisamos dum líder forte contra o Hamas!” -
Uma derrota importante em benefício do centro:
O kadima2 teve 28 e os desconhecidos da Lista
Dos reformados obtiveram 7 lugares.
NOTAS:
possibilidade de um verdadeiro governo de unidade nacional é agora real e a comunidade internacional irá lê-lo como um sinal de moderação. No período anterior era considerado uma viragem da Autoridade Palestiniana para uma linha mais radical.
Contrariamente às imagens racistas espalhadas pela imprensa local e internacional, o Hamas não é uma organização de fanáticos irracionais. Tem uma liderança política atenta que seguirá o exemplo bem sucedido do Hezbollah libanês. E poderá bem vir a juntar-se à OLP e aceitar a sua autoridade.
Talvez não seja excesso de optimismo dizer que a vitória do Hamas apadrinhada por Israel pode trazer justamente aquilo que os israelitas têm tentado sabotar: a unidade nacional palestiniana para combater a ocupação e reconstruir uma sociedade que foi sistematicamente desmantelada pela guerra israelita de pacificação. E pode trazer esperança e confiança renovada.
“Não negociaremos com o Hamas”. “Só nos encontramos com o Hamas no campo de batalha” – lembramo-nos destes slogans dos anos 80, mas nessa altura eram dirigidos à OLP. E sabemos que o governo de Israel já foi forçado a mudar radicalmente de política, pelo menos durante alguns anos.
Já há sinais de que a administração dos EUA recua na sua política de guerra total às organizações islâmicas e até anda à procura de alguns aliados entre elas. Por exemplo, os Estados Unidos começaram a trabalhar com algumas destas organizações no Iraque e conduziram conversações semi-públicas com os Irmãos Muçulmanos no Egipto. Mais cedo ou mais tarde, a comunidade internacional vai forçar Israel a negociar com o Hamas, como fez há quinze anos com a OLP.
Quanto à sociedade palestiniana, a vitória do Hamas representa claramente um duplo desafio. Primeiro, terá de confrontar-se internamente para manter e ampliar as conquistas sociais e cívicas que o Hamas pode ameaçar. Ao passo que este tipo de ataques aos direitos sociais e democráticos não incomoda a comunidade internacional, eles são uma das grandes preocupações do povo palestiniano. O segundo desafio é o de voltar a erguer o movimento nacional secular, sobretudo a Fatah, e devolver à OLP o seu poder e liderança.
Se estes dois desafios forem cumpridos, os últimos feitos de Ariel Sharon podem assemelhar-se aos do Líbano: uma vitória de Pirro.
* Michel Warschawski é jornalista e escritor, fundador do Alternative Information Center (AIC) em Israel. Publicou livros como On the Border (South End Press) e Towards an Open Tomb - the Crisis of Israeli Society (Monthly Review Press)..
Os dois textos que aqui incluímos foram originalmente publicados na revista News from Within do Alternative Information Centre, Jerusalem. Tradução de Luís Branco. www.newsfromwithin.org
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Não ao ultra-liberalismo
Para os eleitores, a normalização não é só a separação dos palestinianos, mas também uma inversão do neo-liberalismo selvagem na economia implementado na última década pelas políticas de Netanyahu... e Olmert, deixando um quarto da população abaixo da linha de pobreza. O êxito do parttido dos reformados e pensionistas é a prova de que muitos israelitas recusam uma política económica que ignora as necessidades da grande maioria da população. O sucesso do Shas, que conduziu a sua campanha eleitoral enfatizando as matérias económicas e sociais e aumentou substancialmente a votação, é só mais uma evidência da esperança dos eleitores em que o novo governo dê início a uma viragem radical em diracção aos milhões de novos pobres em Israel.
Amir Peretz mereee o crédito de “socializar” a campanha. A partir do momento em que o antigo secretário-Geral do Histadrut4 foi eleito líder do Partido Trabalhista e declarou guerra às políticas económicas neo-liberais, todos os candidatos viram-se obrigados a pelo menos tocar no assunto das reformas sociais, inclusivé Olmert, que tinha substituído Netanyahu na pasta das Finanças para aí continuar a sua política criminosa. O resultado relativamente bom dos trabalhistas está ligado a esta “campanha social” de Amir Peretz, bem como à sua credibilidade como adversário da economia “Netanyahu”.
O líder trabalhista exige agora a pasta das Finanças no próximo governo, de forma a poder garantir “uma melhor distribuição dos recursos nacionais”. Apesar dos compromissos sociais de última hora assumidos pelos dirigentes do Kadima, é difícil acreditar que Ehud Olmert, o responsável enquanto ministro por uma brutal política económica neo-liberal e considerado muito próximo das elites empresariais, venha agora permitir que a economia fique nas mãos de quem ele descreveu como um “populista perigoso”. Alguém a quem o editor de economia do Ha’aretz descreve como um comunista.
O voto da minoria palestiniana
Apesar de cerca de metade dos votantes palestinianos não terem participado nestas elei\ções, as tres “listas árabes” conseguiram aumentar a sua representação em 25%. Se a taxa de participação palestiniana tivesse sido a mesma do eleitorado judeu, o número de deputados independentes palestinianos poderia chegar aos doze, ou seja, um décimo do parlamento israelita. O principal
vencedor é a Lista Unida Árabe, composta por
islamistas moderados e alguns notáveis nacio-
nalistas, conseguindo quatro deputados. A Frente Democrática para a Paz e a Igualdade, liderada pelo Partido Comunista de Israel (hadash) e a Aliança Nacional Democrática (Balad) alcançaram três deputados cada.
Embora a opinião geral seja de que desde o assassinato de Yitzhak Rabin, os representantes árabes não foram capazes de usar o Knesset para melhorar a sua situação catastrófica, este resultado mostra que a maioria dos palestinianos em Israel estão de facto interessados em afirmar a sua existência nacional e os seus anseios políticos e sociais através desses representantes independentes. Esta demonstração é particularmente importante numa altura em que a extrema-direita racista aumenta a sua representação parlamentar e o discurso público anti-árabe é considerado hoje mais aceitável do que alguma vez no passado. Trinta anos após o Dia da Terra5, as difíceis conquistas dos palestinianos no combate à discriminação entre 1980 e 1996 parecem ter desaparecido quase todas.
O novo governo
Ehud Olmert tem bastantes hipóteses para formar uma nova coligação assente na sua maioria parlamentar. Quase todos os partidos judeus anunciaram a vontade de entrar no governo, da extrema-direita do partido “Israel é a Nossa Casa” de Avigdor Lieberman, descrito como “fascista” pelo antigo ministro do Meretz Yossi Sarid, até ao campo da esquerda, como o próprio Meretz. O governo terá dois objectivos centrais: melhorar (ligeiramente) as condições de vida da maioria da população israelita e continuar o processo de reorganização unilateral da Faixa Ocidental. Estes dois objectivos têm apoio garantido na população e também no novo Knesset.
A questão principal é a de saber se Ehud Olmert terá a determinação necessária para confrontar os que se opõem a estas políticas: por um lado as grandes empresas israelitas, o Banco Mundial e os capitães do sistema económico que são o suporte do seu próprio partido e por outro lado os partidos da direita que, apesar da derrota, ainda mobilizam centenas de milhar de manifestantes contra qualquer mudança que reduza o controlo israelita nos Territórios Ocupados.
Ao contrário de Ariel Sharon, que estava pronto a enfrentar qualquer pressão do exterior, Olmert é conhecido por ser um político sensível a pressões. Por outras palavras, o novo governo, que pode incluir partidos com agendas contraditórias, será uma arena para fortes confrontações em assuntos políticos e sócio-económicos. Aqueles que esperavam que Israel estava prestes a entrar num novo período de estabilidade estão redondamente enganados.
NOTAS:
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Texto extraído do PDF da revista que o combate.info publicou; as citações em destaque e as legendas foram omitidas.