A revolução cultural (versão 0.0)
O PREC em revista · Combate n.º 285, primavera de 2006, pp. 50–51
Revista Combate2006Carlos CarujoA EFEMÉRIDE do trigésimo aniversário do 25 de Novembro, revisitado maioritariamente como o segundo episódio da revolução de Abril que finalmente teria consagrado o espírito da democracia contra o totalitarismo perigoso que fervilhava no PREC, despoletou esta revista como forma de resistência, ao mesmo tempo que foi mote de um ciclo de conversas: “em Novembro é de Abril e de Maio que me lembro”. A “Abril em Maio sentiu a necessidade de se lembrar e de se mexer, para que a memória colectiva não se reduza ao zero da reformatação feita pelo consenso actual e para pensar a viagem da “vida intensiva” à normalização e à vida depois dela. No tempo dos silêncios, que os próprios analisam, já não é pouco. Ainda bem que se mexeu.
Abris, maios e novembros
Um dos papéis desta revista é pensar no que aconteceu, em mais de dez anos de actividade, com a associação cultural “Abril em Maio” que a edita. Nascida da vontade de romper com os circuitos habituais da cultura, de não se conformar com o papel de “consumidor” atribuído a todos/as nós, tornou-se um pólo de agitação cultural único que realizou feiras com produtos que eram mais do produtos, debates, conferências e conversas, sobre cultura e outras coisas incómodas, como o colóquio sobre a Expo realizado contra a maré da unanimidade nacional na altura ocupada com a celebração dos “Oceanos”, exposições, escritos, agendas, oficinas, entre as quais a “leitura furiosa” para os zangados com a leitura e escrita. E etc. pois claro. Porque não cabe nunca tudo no que dizem os balanços.
Dá a entender a PREC que, como qualquer outra associação, a “Abril em Maio” foi também lugar de vontades encontradas e desencontradas e de crises. E dá a entender que, mais do que auto-celebração, o seu balanço é mais uma procura de novas soluções para o seu activismo. Um repensar que faz sempre falta para quem não quer ficar com o calendário parado em Novembro. Novos encontros hão-de surgir.
Cultura, arte e revolução
A PREC faz-se também do debate em aberto, da polémica sobre as polémicas da cultura antes e depois do período revolucio
Carlos Carujo* imagem de ângelo ferreira de sousa
nário. Encontramos assim a história dos artistas-dissidentes que a história esquece no texto de Jorge Silva Melo: Mário Dionísio, Palolo, Batarda. Encontramos a polémica entre o neo-realismo e o surrealismo. Entre o excesso surrealista, a crítica da ortodoxia, da instrumentalização política da arte e da pauperização das linguagens e a análise do papel da literatura neo-realista para vencer medos e preparar o 25 de Abril (segundo Luís Trindade), mostrando “um povo alternativo ao português conformado e conformista do salazarismo.” Sendo assim, “o PREC pode assim ser visto como um ano e meio de neo-realismo.” Outros vêem nele dias de surrealismo feito acção.
A categoria excesso
Todos vemos, ouvimos e lemos. O PREC é-nos apresentado como tempo excessivo por natureza. Desde os excessos de juventude que servem para muitas desculpas, até aos excessos perturbadores da economia que só se terá recomposto quando voltou a encarrilar na normalidade. O excesso é a categoria de eleição actual para analisar o PREC. A PREC tentou desmontar esta categoria. Assumi-la, dar-lhe novos sentidos, testá-la em outras situações, invertê-la. Daí nasceram alguns dos textos da revista e uma quantidade de teses variadas.
Por exemplo, António Louçã defende que não foi o excesso que produziu a revolução mas “múltiplas saturações no quotidiano das massas”, sobretudo a guerra. Assim, teria sido a vontade conservadora de querer “ser deixado em paz” dos jovens soldados e não os supostos excessos utópicos dos que mais tarde se engalanaram como fazedores de revoluções que teria produzido, em primeiro lugar, a revolução. O bom senso e a vontade de normalidade como produtores de revoluções.
Por sua vez, Diego Palacios Cerezales sublinha os excessos da normalização: teria sido o regresso dos excessos do Estado, na sequência de um tiroteio da GNR, que causou quatro mortos, a 1 de Janeiro de 1976 para dispersar uma manifestação, a marcar
o final de um tempo de excepção. Excepção devida à crise dos aparelhos repressivos do Estado. Seria o travar do excesso que a normalidade sempre implica a fazer o PREC. A interrupção dos excessos da normalidade seria a produtora de revolução.
Pôr, rapar, emperrar, concluir
Muitos mais excessos se podem encontrar assumidos na reduzida letra da PREC, tantos que, para quem já a leu, esta revisão da matéria só pode ser considerada bastante redutora e injusta para com vários textos interessantes. A conclusão fica emperrada nesta riqueza que sugere muito mais ideias e discussões. Assim, só pode desembocar num convite a quem ainda não leu para ir ao encontro desta revista.
Mas, já que é tempo de concluir, deixo dois balanços contrastados tendenciosamente: o primeiro de um leitor chamado Pacheco Pereira que, apesar de atribuir (ou talvez mesmo por lhe atribuir este em particular) um prémio Nobel por simpatia ou por “arrastamento” à “Abril em Maio” – segundo ele “o Prémio Nobel a Pinter foi também por arrastamento um prémio ao “Abril em Maio”, às suas idiossincrasias e obsessões, às suas paixões e ódios, e aos seus gostos temperados por um sentimentalismo radical e agreste” – não gostou do que leu, nem do papel em que estava. Achou rebarbativo e que não seria do melhor da “Abril em Maio”. No seu balanço crítico não esclareceu contudo o que pensava ser o melhor da “Abril em Maio”.
Na minha modesta opinião, eu que não atribuo prémios nem por simpatia (ou talvez mesmo por falta dela), gostei. Talvez pela rebarbativa capacidade de continuar a dar água pelas barbas aos proprietários da cultura instituída. E sobretudo pela rebarbativa ideia de “fazer recuar as fronteiras do possível”.
* Carlos Carujo é professor e editor desta revista. [email protected]
Texto extraído do PDF da revista que o combate.info publicou; as citações em destaque e as legendas foram omitidas.