De como a retórica também não faz um mundo novo
Combate, novembro e dezembro de 2003, edição em linha
Jornal2003Na sua coluna regular no Público, Esther Mucznik vem-nos habituando a um discurso circular. Seguindo acriticamente todo e qualquer ditame na política externa do eixo EUA-Israel, Mucznik fica permanentemente enfeudada nos redutos de combate ao anti-semitismo que, putativamente, vem crescendo nos cidadãos europeus. Compreende-se: é a justificação fácil para todas as oposições, o trunfo último de cabeceira para todos os argumentos. No seu texto de 28 de Novembro, a propósito do Fórum Social Mundial, Mucznik pulveriza com artifícios retóricos todo um artigo cujo conteúdo é um desprezo intelectual das alternativas:
[1] A extrema-esquerda, onde quer que esteja, não está certamente nos fóruns sociais a «imprimir cada vez mais a sua marca no movimento, com a sua velha visão de um mundo dividido em bons e maus». A diabolização dos adversários é uma constante nos artigos de Mucznik. Mas os ornamentos retóricos têm destas coisas: quebram, por vezes. Não nos esquecemos quem dividiu o mundo em «bons» e «maus» logo após o 11 de Setembro de Nova Iorque e Washington. A miopia ideológica tem curto alcance, mas a memória perdura. Ainda somos todos terroristas pela oposição aos jogos de guerra de Bush e sua turba de falcões pós-coloniais. «Ou estão connosco ou estão contra nós», acusaram-nos. Mutilaram-nos no debate. Mucznik sabe-o. Mucznik defendeu-o.
[2] Não existe nenhuma perseguição anti-semita nas objecções à política torrencial de Sharon. E persiste iludida a irmandade neoconservadora quando insiste nesse proto-argumento. Milhares de judeus manifestaram-se contra a guerra no Iraque, como milhares de judeus partilham também da ferida palestiniana. Serão eles, os judeus que também se vêm para lá da selvajaria do Tsahal, os mais anti-semitas de todos os anti-semitas. É que a realidade fornece a matéria que debatemos: o governo israelita, dirigido por um carniceiro responsável pela morte de 3000 refugiados em Sabra e Chatilla, vive acossado pela extrema-direita, pelo fulgor teocrático dos colonatos, pelo acento discursivo do fundamentalismo mais mecânico, pela terra seminal que a tudo se permite. Não somos nós a recusar «dois povos, dois estados». Não foi também a «extrema-esquerda» que assassinou Rabin.
[3] Já não colhe a contínua tentativa de impor o «islão radical militante» como parte de uma «religião dos oprimidos» que a dita «extrema-esquerda» protege e afaga. Temos a noção das complexidades histórico-culturais, sim, mas não somos cúmplices: porque era a esquerda que militava pela emancipação do Afeganistão quando as execuções públicas na Cabul dos taliban eram mero produto de um aliado ocidental. Porque não é a esquerda que guarda na gaveta as facturas da venda de armamento a Saddam Hussein. Porque os curdos já eram chacinados à época da guerra contra o Irão. Porque a tirania saudita é o expoente da incoerência moral destes catequistas de todas as reconversões: da liberdade com adjectivos para os aliados de conveniência, da democracia das bombas para os mortos que ficam.
[4] É espantosa a lógica «violenta e sectária» que Muczik conseguiu depreender quando ouviu que «o Fórum é aberto e diversificado do ponto de vista ideológico, mas apenas para os que rejeitam o mundo que Bush representa.» Há tragédias de estilo assim: não nos fechamos em Davos com a segurança ecológica dos bastões policiais. Os fóruns sociais são espaços ímpares de discussão e pensamento crítico que congregam, num contexto de desterritorialização, uma massa alargada de activistas, actores e agentes sociais. Confrontamos, sem rodeios, o capitalismo que temos. É esse, e não outro, o centro da discussão. Numa atmosfera de abertura e inconformismo, a construção faz-se com os destroços do presente: na senda de um outro mundo, tão possível quanto indispensável. Com todos. Para todos. Contra o neoliberalismo que canibaliza a vida nas suas mais diversas expressões, uma contra-globalização dos laços solidários. Nos antípodas de tudo aquilo que Bush representa: a globalização das guerras. A totalização ideológica. A elevação da barbárie e da miséria a critério de razão. Tiago Barbosa Ribeiro
Texto da edição em linha do jornal (1999–2003), recuperado das cópias do Internet Archive e do Arquivo.pt.