Com as mulheres, por uma outra Europa
Combate, novembro e dezembro de 2003, edição em linha
Jornal2003Adriana LoperaVindas de todas as partes da Europa e também doutros continentes, mais de 2000 mulheres reunidas a 12 de Novembro em Bobigny (Paris) debateram sobre as suas condições de vida e trocaram as suas experiências de luta e resistências. Trabalho, precariedade e pobreza; divisão sexual do trabalho no quadro da globalização; mulheres e poder; mulheres migrantes; violência de género e direitos sexuais e reprodutivos (apresentado pelos três países da União Europeia onde estes direitos estão mais diminuídos- Portugal, Polónia e Irlanda) foram alguns dos temas abordados nos diversos espaços de discussão feminista.
Em Bobigny, e todos os dias em todos os lugares do mundo, continuamos a levantarmo-nos contra a Europa machista, sexista, patriarcal e discriminatória. Denunciamos o tratado constitucional que potencia o papel da mulher relegado a um segundo plano e que promove a desigualdade entre homens e mulheres. Repudiamos um tratado que abre as portas a uma ofensiva que tende a introduzir a herança cristã pondo em risco o conjunto das conquistas das mulheres no terreno das liberdades, especialmente o direito a decidir, o direito ao divorcio e o direito ao trabalho com direitos. Ceder a estas pressões acentuaria o peso do patriarcado.
Porque não aceitamos que se gravem na pedra as posições neoliberais baseadas no “respeito duma economia de mercado na qual a concorrência é livre”, o que não significa mais do que o desaparecimento do Estado Providência e o fim dos serviços públicos. Queremos mostrar a nossa maior aversão ao desenvolvimento de uma política de defesa comum na estreita colaboração com a NATO e com o militarimo que ela promove.
Levantamo-nos contra a Europa fortaleza dos tratados de Schengen que, ao abrigo de justificações relativas à segurança pública, proíbe a circulação de pessoas e leva a cabo políticas que penalizam, excluem e rejeitam @s imigrantes, especialmente as mulheres; as políticas neoliberais empobrecem sempre mais as mulheres, acentuam as desigualdades profissionais, impõem os contratos a tempo parcial, e permitem que as reformas das mulheres sejam escassas ou mesmo inexistentes. Recusamos uma Europa que se cala perante a violência de género e que apoia as guerras de todo o mundo.
Nós afirmamos que uma outra Europa é possível e apresentamos um caminho alternativo. Nesse sentido, lutamos por uma Europa da Paz, dos direitos humanos, desmilitarizada e que rejeite a guerra como solução para os conflitos internacionais; uma Europa que desenvolva o conjunto dos serviços públicos e na qual as mulheres façam ouvir a sua voz e participem com igualdade na tomada de decisões; uma Europa laica que se oponha ao aumento dos fundamentalismos religiosos e que assegure os progressos dos direitos fundamentais das mulheres; uma Europa com livre circulação das pessoas, que reconheça a tod@s uma cidadania plena, onde as mulheres sejam donas dos seus corpos e onde se respeitem todas as orientações sexuais. Em relação à prostituição, torna-se também necessário vencer os nossos próprios medos, que por vezes se reflectem em posições moralistas que em nada favorecem a nossa luta emancipadora.
A luta das mulheres pelos direitos de tod@s assume uma centralidade cada vez maior: as nossas reivindicações não são especificas, pelo contrário, estão no coração do combate à globalização neoliberal. Por isso estas lutas devem ser participadas tanto por homens como por mulheres, para assim atacar mais eficazmente as bases do estado patriarcal e do capitalismo. A assembleia de mulheres terminou num espírito de combate: numa manifestação de mais de 4000 pessoas percorremos as ruas de Paris e inaugurámos com festa e determinação o segundo Fórum Social Europeu. Adriana Lopera
Solidariedade
com o movimento
pelo referendo
em Portugal
Por iniciativa da Rede Lilás (Portugal), distribuíram-se folhas para a recolha de assinaturas pela solidariedade com o movimento pelo referendo do Aborto em Portugal que foram assinadas por 1616 mulheres e homens, demonstrando uma aceitação praticamente total de todos os participantes. A petição contou com assinaturas de associações como a de Mulheres iranianas, militantes de SOS racismo de diferentes países, Greenpeace, camponeses.... tod@s a defender uma outra Europa onde as mulheres disponham livremente do seu corpo e onde o aborto e a contracepção sejam livres e gratuitos e em condições adequadas de saúde.
Texto da edição em linha do jornal (1999–2003), recuperado das cópias do Internet Archive e do Arquivo.pt.