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Arquivo da LCI, do PSR e da APSR, secção portuguesa da IV Internacional, e da sua imprensa, 1973–2013

Da revolta social aos integrismos

Mamadou Ba · dezembro de 2004 · Revista Combate · 2.359 palavras

Fundamentalismos e lutas de classes · Combate n.º 281, dezembro de 2004 a fevereiro de 2005, pp. 35–38

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O PROPÓSITO desta reflexão não é explicar nem tão pouco justificar o fundamentalismo islâmico, mas sim suscitar o debate, refutando o argumentário do determinismo sociológico na violência fundamentalista.

Entre modernização e conservadorismo

Para abordar o tema do fundamentalismo islâmico é preciso situá-lo ou pelo menos contextualizá-lo no tempo e no espaço do mundo islâmico. Podemos fazê-lo retendo apenas cinco tendências principais, para não falar das tentações, que perpassam a história contemporânea do Médio Oriente.

Primeiro, o reformismo laico e autoritário, iniciado por Kemal Attaturk, para quem o Estado tinha que “domesticar” o Islão afim de assegurar uma marcha forçada para a modernização. São práticas que suscitaram a admiração de personagens do mundo muçulmano, como foi o caso do Xá do Irão, de Bourguiba da Tunísia, mas que suscitaram a oposição dos sectores mais conservadores da Turquia em particular e do mundo islâmico em geral.

Em segundo lugar, tivemos a tentação comunista, enunciada nas “nações proletárias” dos anos 20, ideia parcialmente retomada na conferência de Bandung em Abril de 1955. Esta corrente defendia a acomodação a uma laicidade mais anticlerical do que anti-religiosa, tendo sido patrocinada pelo Bloco de Leste e culminado com ocupação do Afeganistão

pela URSS. A oposição de todos os sectores conservadores do mundo islâmico foi feroz. Essa ideia, apesar de não se declarar manifestamente anti-religiosa, atingia o coração do dogmatismo religioso e punha em causa o poder do clero sunita e xiita, ameaçando a longo prazo o controlo sobre as massas de fiéis. Nesse contexto, nasceram os mujahedines para lutar contra o avanço do comunismo ateu.

A terceira tendência, nacionalista, vai culminar na ideologia do pan-arabismo sob a égide de Nasser, materializada na nacionalização do canal do Suez. No entanto, este projecto de reconstrução da unidade árabo-muçulmana fracassou perante as manobras das potências ocidentais, acabando por abrir cinicamente o caminho ao fundamentalismo. As potências ocidentais, na sua obsessão anti-comunista, apoiaram os sectores radicais muçulmanos, socorrendo-se, por exemplo, da perigosíssima relação que o presidente egípcio Anuar Sadaat tinha com estes movimentos e às mãos dos quais acabou por sucumbir.

A quarta tendência foi inaugurada pela revolução iraniana. A esquerda iraniana acabou estrangulada e o poder nas mãos dos mullahs xiitas - afinal de contas, uma teocracia ultraconservadora de discurso revolucionário e anti-imperialista.

Por fim, a afirmação do fundamentalismo islâmico e a islamização geral da luta política no Médio Oriente. Desacreditadas as correntes nacionalistas e pan-arabistas, o Islão passou a exprimir uma dupla contestação: por um lado, aos regimes corruptos e autoritários, e por outro, ao imperialismo ocidental. Os grandes movimentos islâmicos clássicos (Refah turco, FIS argelino, a revolução iraniana, o Hezbollah libanês, o Hamas palestiniano e uma parte dos Irmãos muçulmanos, o Jama-al-islamiya, etc) sempre mantiveram uma relação ambivalente com o poder – ora reprimidos, ora “normalizados” ou até apoiados. Foi o caso do Refah de outrora ou do Hamas, fomentado por Israel nos anos 80 como rival da OLP. Os “neo-fundamentalistas” souberam islamizar a globalização tornando as suas aspirações mais universais em termos de contestação.

Um projecto de poder

De facto, o projecto islâmico, como demonstrado pela revolução iraniana, concerne também e antes de tudo o poder político. Para o conseguir conquistar, os movimentos islâmicos (Argélia, Tunísia, Marrocos, Egipto, Jordânia, Líbano, Sudão, Kuwait, Indonésia, Filipinas, Cáucaso, Nigéria, etc.)

envolveram-se na vida politica dos seus países respectivos. Aproveitaram a derrota do nacional-arabismo durante a guerra israelo-árabe de 1967, a revolução iraniana e a queda da URSS (para a qual contribuíram em parte, através da guerra por procuração) para ganhar espaço de afirmação. Aliás, há uma coisa estranha na construção dessas alianças e contraalianças que é pouco sublinhado pelos “think-tank” ocidentais. É que muitas organizações islâmicas já ultrapassaram a singular característica religiosa dos seus primórdios. Tanto assim é que, nos programas destas organizações, notamos que a contestação e a intervenção têm cada vez mais contornos políticos e menos religiosos. O que resulta em alianças aparentemente contra-natura: o Hamas foi durante muito tempo apoiado pela Mossad para rivalizar com a OLP; o Hezbolah xiita libanês aliou-se aos mujahidines fundamentalistas sunitas para combater a União Soviética; os Irmãos Muçulmanos egípcios abraçaram o M16 inglês para combater o nasserismo, etc.

Também não é por acaso que nos últimos dez anos se assistiu a uma multiplicação de revistas de interpretação da cultura e da civilização muçulmanas. Mas é curioso que muitos pseudo-orientalistas nunca mencionem a evidência mais óbvia: a radicalização política não constitui uma consequência exclusiva da tendência religiosa. De facto, há outra razão além da simples islamização de um espaço político: o contínuo assédio imperialista ao mundo árabo-muçulmano.

Uma das matrizes desta leitura política sempre encontrou - e hoje mais do que nunca - a sua maior expressão na situação palestiniana. Nem o nacionalismo pan-árabe protagonizado por Gamal Abdel Nasser, nem o projecto de reconstrução da umma islâmica liderado pela Irmandade Muçulmana, nem as veleidades separatistas do Hezbolah apoiado pelo reino hachemita da Jordânia e muito menos a táctica de enfrentamento radical do Hamas, conseguiram de facto satisfazer as comunidades muçulmanas espalhadas pelo mundo perante o fracasso das elites árabo-muçulmanas em lutar para a efectivação de um Estado da Palestina. Aliás, não é preciso analisar pormenorizadamente os documentos políticos que vão desde cartas de princípios, comunicados de imprensa a programas políticos estratégicos de todos esses movimentos para notar que contêm todos uma referência à Palestina.

O caso da Palestina representa dois paradigmas essenciais do fundamentalismo islâmico: o primeiro é político: o apoio sistemático dos Estados-Unidos a Israel para abortar qualquer

tentativa de implementar um Estado palestiniano, a indiferença das outras potências mundiais face à causa palestiniana, a incapacidade da Liga árabe em impor uma solução política consensual a volta das diferentes visões existentes no mundo árabo-muçulmano acerca da Palestina, a ineficácia da ONU para também fazer valer o direito do povo palestiniano a um Estado, têm gerado uma frustração enorme que é capitalizada pelos movimentos islâmicos radicais. O segundo paradigma é religioso (e muito referenciado, de forma também altamente fundamentalista, pelos arautos da pretensa “guerra de civilizações”). Este paradigma não é de menosprezar porque de facto, alguns movimentos islâmicos de tendência salafista, têmno usado como argumento para desencadear uma suposta luta para recuperar a cidade de Jerusalém em geral e em particular, a mesquita de Al-Aqsa, local sagrado do culto islâmico. Recuperar Al-Aqsa significa não só purificar o Islão, mas restaurar o lustre e a dignidade perdidos. Neste campo, “todos os meios justificam os fins”. Assim, a Palestina também entra no rol das causas da proclamada Jihad islâmica.

A direita neoconservadora israelita personificada por Ariel Sharon jogou bem com este paradigma, politizando as aspirações religiosas dos palestinianos e dos muçulmanos do mundo inteiro. Nisso beneficiou também do apoio dos fundamentalistas hebraicos e em certa medida dos radicais católicos em geral e em particular dos americanos, tornando a questão de Jerusalém, uma questão fulcral que sempre conduziu ao impasse nas negociações de paz no Médio-Oriente.

A segunda Intifada nasce claramente de uma instrumentalização política dos locais de culto por Israel, culminando com a visita provocatória de Sharon à Esplanada das Mesquitas. Aliás, não será exagerado dizer-se que a segunda Intifada foi muito bem planeada pela Mossad, para justificar a repressão contra o Hamas, e desmantelar os grupos paramilitares organizados à volta da Autoridade Palestiniana. Esta estratégia tem sempre apoio nos sectores mais conservadores da sociedade israelita, pois aposta na inviabilidade de qualquer hipótese de Estado palestiniano. Entre a sacralização do político e a politização do religioso, cria-se uma nova legitimidade para o terrorismo de Estado israelita e para a resposta fundamentalista islâmica. A questão palestiniana transforma-se no epicentro da proliferação dos fundamentalismos islâmicos como representação da luta politica anti-imperialista.

É assim que se afirma uma geometria muito variável neste tipo organizações: elas estruturam as suas orientações na base

de uma leitura política profunda, o que muitas vezes é omitido pelos tais especialistas em Médio-Oriente. Estes “novosvelhos” orientalistas tentam encontrar a única explicação do desenvolvimento dos fundamentalismos islâmicos na “incapacidade orgânica” do Islão em se modernizar. Este argumento tem servido de base filosófico-política para desencadear as “guerras pela democracia”.

A base social do fundamentalismo

Sendo difícil traçar a fronteira entre as géneses burguesas dos fundamentalismos muçulmanos e as contradições de classe que se exprimem em tal contexto – com o aparecimento de uma classe média semi-proletarizada, receptáculo das reivindicações sociais dos mais desprotegidos –, não podemos, sob o risco de participar na mistificação neoconservadora do “choque de civilizações”, ignorar a dimensão anti-imperialista destes movimentos. É evidente que o espírito e a letra deste anti-imperialismo são insustentáveis à luz de uma estratégia marxista de luta de classes. Mas uma análise objectiva desta situação não pode fugir a uma leitura da relação dialéctica de poder, entre dominação e afirmação, entre opressão e emancipação, tendo em conta o carácter obviamente violento da investida do império.

De facto, indo às origens de alguns dos movimentos extremistas no mundo árabo-muçulmano, que preconizaram uma resistência feroz à “ocidentalização” das suas sociedades (desde logo, contra a cultura do consumismo débil, com a absorção das resistências à macdonalização social), podemos dizer que continuam constituídos por resíduos do pan-arabismo nasseriano (que aliás, no seu início, se apoiou em sectores islâmicos do exército egípcio) e pela tradição do primeiro movimento fundamentalista “moderno”, organicamente estruturado, a Irmandade Muçulmana. Fundada na década vinte, a Irmandade Muçulmana congregava sectores diversos na sociedade egípcia em torno de um projecto de Estado islâmico – com tudo o que isso implica em termos de autoritarismo, mas também como vaga aspiração de bem-estar das classes emergentes no contexto de uma sociedade colonial em fase terminal.

De forma sumária, pode dizer-se que a origem dos fundamentalismos, relacionada por uma conexão subtil e difusa com a pequena-burguesia, enraíza-se principalmente na classe média ameaçada e nos sectores sociais mais desprotegidas, que se insurgem contra a pauperização para onde o capitalismo neoliberal as empurra, pela mão dos regimes oligárquicos no mundo árabo-muçulmano.

Apesar de a Irmandade Muçulmana ter sido historicamente o catalizador da proliferação dos movimentos islamistas, o integrismo só ganhou consistência social quando o projecto minimal de Estado-Providência – “importado” pelo sistema colonial numa tentativa de manter os mecanismos de controlo e de exploração das matérias-primas dos antigos territórios – fracassou estrondosamente.

Um papel essencial na estruturação de muitos movimentos fundamentalistas pelo mundo árabo-muçulmano foi desempenhado pela Arábia Saudita, através de financiamentos destinados à construção de mesquitas e de escolas religiosas, vulgo “madrassas”. Estes financiamentos têm evidentemente um objectivo inconfessado: divulgar a corrente salafista, emanada do wahabismo para contrariar os avanços do nacionalismo árabe de Nasser, primeiro, e, a partir da revolução iraniana em 1979, do islamismo xiita. O wahabismo, interpretação rigorista e literalista do Corão, tem raízes históricas no século XVIII e é parte de um casamento de conveniência entre o poder espiritual e o poder temporal Ibn Ben Saud, o fundador da dinastia saudita. A Arábia Saudita é o centro de uma operação, em todo o mundo muçulmano, de expansão da sua corrente ortodoxa, apadrinhando financeiramente muitas organizações caritativas que eram simplesmente as correias de transmissão do seu fundamentalismo.

Por outro lado, em muitos países árabes, na aurora das independências, o exercício de uma estatização totalitária, exacerbada pela guerra-fria, fabricou um sem número de funcionários públicos e para-públicos que constituíram uma classe média rendida à promessa de justiça social incarnada pelos protagonistas dos movimentos de libertação nacional. No entanto, o sonho transformou-se rapidamente em quimera, quando da estatização totalitária se passou à demissão total do Estado. O liberalismo irrompeu com brutalidade na vida desta nova classe média, mercantilizando os serviços públicos básicos até então (mal) providenciados pelo Estado e transferindo-os para uma nova burguesia local, subordinada a Washington (Banco Mundial, FMI) ou às capitais dos imperialismos secundários (Clubes de Londres e de Paris).

A pilhagem dos recursos naturais pelas multinacionais, que também foram estruturando o mercado de trabalho no advento da economia de mercado nestes países, criou uma situação de ruptura drástica para gerações inteiras, oriundas das classes sociais mais desfavorecidas. Hordas de jovens qualificados – a massificação do ensino foi um dos poucos sucessos da fase de estatização autoritária – viram as suas expectativas ir por água abaixo. Assiste-se então ao definha

mento da estrutura sócio-económica que, apesar da pobreza latente, mantinha uma relativa paz social. As universidades, o que resta das fábricas e empresas estatais e outros sectores socio-profissionais, onde os clamores do descontentamento popular ecoam em surdina, transformam-se num verdadeiro barril de pólvora, onde os movimentos islamistas começaram a recrutar. No fim da década de setenta e no início da década de oitenta, o integrismo islâmico desenvolve-se rapidamente, sobretudo entre jovens universitários e trabalhadores sem perspectivas e ao mesmo tempo revoltados pelo luxo extravagante das classes políticas e empresariais locais.

O determinismo sociológico na análise do integrismo islâmico falha também porque, de facto, além das suas géneses sociais, é essencial o papel das potências ocidentais no seu desenvolvimento. O integrismo islâmico é, em larga medida, o produto de esforços diplomáticos, militares, políticos e financeiros das potências ocidentais. Na senda da guerra-fria, o bloco ocidental formou e armou movimentos fundamentalistas, quer para travar guerras por procuração (Afeganistão, Bósnia), quer para derrubar ou condicionar regimes árabomuçulmanos (Egipto, Síria, Líbia), para a abertura do acesso a matérias-primas e petro-dólares, essenciais para alimentar os mercados financeiros de que cada vez mais dependem as economias norte-americana e europeia.

Nesta tarefa, as potências ocidentais beneficiaram claramente da cumplicidade de alguns dos seus protectorados locais que, por sua vez e repetidamente, usaram os integristas para combater forças políticas progressistas, envolvidas assim numa tripla frente de batalha: contra o imperialismo neoliberal, a repressão dos seus governantes e a violência obscurantista do islamismo.

Olhando para este panorama, é claro que qualquer análise séria do fundamentalismo islâmico impõe, no mínimo, a desconstrução da justificação sociológica e determinista da violência islamista proposta pelos “novos-velhos” pseudo-orientalistas. Estes apóstolos do “choque das civilizações” querem impor a “ameaça islâmica” como justificação das guerras preventivas do império, ocultando a barbárie da própria justificação.

Ao debruçarmo-nos sobre as litanias do amor à democracia proclamada pelos falcões da guerra preventiva e pelos teóricos da guerra das civilizações, o que se afigura são as consequências trágicas de tais profecias, um amor estrangulador, fatal para a própria essência da democracia.

* Dirigente da Associação SOS Racismo. [email protected]

Texto extraído do PDF da revista que o combate.info publicou; as citações em destaque e as legendas foram omitidas.

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