Cheiro de guerra
Editorial · Combate, setembro de 2002, edição em linha
Jornal2002Estamos à beira da guerra. Na verdade, de várias guerras.
A primeira guerra é a da pólvora: os Estados Unidos e a Inglaterra vão começar a bombardear o Iraque, pese embora uma opinião pública maioritariamente oposta nesses dois países, bem como a resistência de muitos outros governos. MAS esta guerra é necessária, dada a fragilidade da Administração americana. Corroída por escândalos sem limites, enfraquecida pela recessão económica, comprometida com Ariel Sharon na continuação da ocupação da Palestina e na recusa do direito à formação de um Estado independente, George Bush corre em frente. Só com um estado de guerra permanente é que pode reforçar a sua liderança, aproveitando a imensa superioridade militar das suas forças. E, ao mesmo tempo, subordina a Europa e enfrenta a Rússia e a China, reduzindo as suas políticas e respostas ao silêncio envergonhado. Deste modo, o imperialismo dominante reafirma a sua capacidade de actuação, apesar dos riscos que corre dada a necessidade de uma ocupação militar permanente do Iraque.
Sendo evidente que a guerra é vencida em pouco tempo, começam depois os problemas fundamentais desta estratégia: conter os curdos e evitar que a sua revolta contamine a Turquia, silenciar os regimes árabes, estruturar um regime alternativo autoritário. E começar os negócios: pois o que interessa ao governo americano "é o controlo futuro, se não do governo, pelo menos dos campos petrolíferos sauditas. E que melhor maneira de o fazer do que ter uma grande força militar presente no terreno na altura em que se der essa revolução? (...) Toda esta questão nada tem a ver com uma ameaça do Iraque - não há nenhuma. Isto não tem nada a ver com a guerra contra o terrorismo ou com moralidade. Saddam Hussein é obviamente um homem demoníaco, mas quando nós lhe vendíamos armas para controlar os iranianos, ele era o mesmo demónio que é hoje". Quem assim fala é Mo Mowlam, ex-ministra de Tony Blair, o acólito do presidente Bush.
A segunda guerra é a social, e é nacional - mas ocorre em todos os países dilacerados pelo liberalismo. Durão Barroso e Paulo Portas enunciaram esta guerra, ao proporem a privatização parcial da segurança social e ao proporem a alteração radical das leis do trabalho. Para culminar esta política, o novo orçamento, que será conhecido dentro de dias, deve vir a confirmar uma política de divergência real em relação à Europa, de diminuição dos salários reais e de redução do emprego. Numa palavra, esta guerra desenvolve um processo de empobrecimento dos pobres e de rapina dos recursos públicos, quando justamente se impunha a política contrária: a criação de emprego, o reforço do salário real, a redução do endividamento, o abandono do Pacto de Estabilidade.
Neste terreno, os trabalhadores são convocados a uma resposta geral, a uma greve nacional - o que os sindicatos estão precisamente a discutir neste momento. Sem essa greve geral, não haverá resposta à altura ao governo, mas só pode haver greve se for cuidadosamente preparada, se for unitária, se mobilizar toda a sociedade, se apresentar escolhas clarificadoras. Esse é o momento decisivo deste Outono quente.
Francisco Louçã
Texto da edição em linha do jornal (1999–2003), recuperado das cópias do Internet Archive e do Arquivo.pt.