combate

Arquivo da LCI, do PSR e da APSR, secção portuguesa da IV Internacional, e da sua imprensa, 1973–2013

breves desemprego: os números e as caras

março de 2003 · Jornal · 1.157 palavras

Combate, março de 2003, edição em linha

As primeiras vítimas nos EUA...

A anunciada guerra no Iraque já começou a provocar vítimas. Para além dos iraquianos, claro, são os muitos trabalhadores que se vêem em situações de desemprego, na Europa e mesmo nos Estados Unidos. A recessão económica e a falta de confiança dos investidores são as causas apontadas, a incerteza da situação de guerra completa o cenário das causas macro para as micro-tragédias de cada um e de cada uma das trabalhadoras no desemprego. As empresas até agora exemplos de estabilidade, as mais agressivas nos mercados financeiros, as mais competitivas, começam agora a restringir pessoal, ou a apresentar planos de restruturação que atiram para o desemprego grande parte dos seus funcionários.

Nos EUA, onde a taxa de desemprego subiu de 3,9% em 2000 para 6,8% em 2003, a AOL Time Warner, Kodak, Boeing, McDonald’s ou Merril Lynch efectuaram despedimentos massivos nos últimos três meses. Sectores como a indústria informática, aeronáutica, metalurgia e têxtil eliminaram mais de 10% dos seus postos de trabalho nos últimos dois anos.

...na Europa...

No outro lado do Atlântico, a política externa francesa na crise do Iraque não chega para conter a vaga de desemprego que assola o país. Falências e fecho de fábricas, restrições e contenção, descida da produção industrial. A título de exemplo, a France Telecom anunciou a supressão de 7500 postos de trabalho em França, 20 mil, se contarmos com todos os despedidos de todas as filiais ao longo de três anos. O Banco de França prepara o despedimento massivo de 3200 funcionários. Argumento: sobredimensionamento face ao euro e provável fecho de três em cada quatro balcões. Aeronáutica, indústria alimentar, automóvel, química... A crise social no país já atinge tais proporções que podemos deliciar-nos com o patrão da principal organização patronal, MEDEF, a denunciar "as decisões brutais e incompreensíveis" de certas empresas, logo secundado pelo primeiro-ministro Raffarin que anuncia ao país a sua "revolta" pelo fecho brutal de empresas.

Na frente interna, esta guerra já começou. As sua primeiras vítimas são trabalhadores que se vêem projectados para o desemprego, precários que agravam a precariedade do seu vínculo laboral, jovens e mulheres na frente em todas as estatísticas de desemprego. Nesta guerra global, os trabalhadores europeus e americanos só podem estar do lado em que as bombas começarem a cair no solo iraquiano. Afinal, não são também eles vítimas?

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.. e em Portugal.

Por cá o panorama não é melhor. De uma média de 4% em 2001, o desemprego atingiu 6,2% no último trimestre de 2002, num total que subiu de 349,8 para 442,5 milhares de desempregados. No país da evasão generalizada ao IRC, as falência fraudulentas beneficiam os empresários e criam verdadeiras catástrofes sociais em certas zonas. Os exemplos no sector têxtil e do calçado na região centro são a ponta de um enorme iceberg onde outros sectores são também afectados. Jornalistas, quadros técnicos, jovens licenciados, todos vão engrossando as estatísticas do desemprego, apesar do desemprego oculto, dos falsos recibos verdes ou do biscate que não figuram na estatística oficial.

Quem se lembra do grande argumento de Bagão Félix para defender o novo Código de Trabalho, a competitividade e a produtividade, pode agora confirmar o ditado popular: "Mais depressa se apanha um mentiroso que um coxo". A Autoeuropa, empresa modelo com as mais elevadas taxas de produtividade nacionais e ao nível europeu, luta agora contra a possibilidade de despedimento de 500 trabalhadores. "Quebra nas encomendas", dizem os patrões. "Redução voluntária de salários", através de dias sem trabalho e sem salário é, segundo eles, a perspectiva que pode evitar uma situação de desemprego.

Aprender a gerir a miséria

Mas o Estado, através da Segurança Social, está atento e fornece os necessários amortecedores à crise. Subsídio de desemprego... pago com sete meses de atraso. Problemas informáticos, disse no verão de 2002 o ministro. Parece que ainda não se resolveram e ai do desempregado que não tenha quem lhe empreste dinheiro ou qualquer coisa que possa vender para pagar as prestações que não esperam. Ele, ou ela, é que tem de esperar e sem desesperar, a benesse do subsídio para que esteve a descontar durante todo o tempo de trabalho efectivo.

Mas para os mais crentes o Instituto de Emprego e Formação Profissional oferece cursos intensivos para... gestão de empresas. Nada como a formação para combater o desemprego e assim como assim, os desempregados inscritos nos centros de emprego são obrigados a estarem disponíveis para a formação. Quando os desempregados deste país forem todos gestores de empresas, o desemprego deixa de ser um problema. É óbvio. Obrigado Bagão por nos iluminares o caminho para a redenção!

lusomundo.net: como David desafiou Golias

Após quatro árduos dias de braço-de-ferro contra o encerramento da lusomundo.net, os seus trabalhadores receberam a notícia, sexta-feira 28 de Fevereiro, do recuo da Portugal Telecom perante a sua intenção inicial.

A PTMultimédia (PTM) pretendia, por um lado, encerrar o site através de um processo de rescisões amigáveis no espaço de quatro dias. Do outro lado encontravam-se jornalistas, produtores de conteúdos e webdesigners que aspiravam salvaguardar os seus postos de trabalho usando como argumento as promessas da PTM em integrar as pessoas noutras empresas do grupo.

Os trabalhadores, mantendo-se unidos, deram um exemplo de força que deverá servir de exemplo para o sector da comunicação social. Com a ajuda de audiências com todos os grupos parlamentares, alento por parte dos sindicatos, cartas a figuras de referência da sociedade portuguesa e e-mails a todos os órgãos de comunicação social, os trabalhadores conseguiram manter a firmeza da sua decisão até à notícia do recuo da PTM.

O processo de selecção e auscultação dos trabalhadores ainda está a decorrer não havendo data exacta para a sua conclusão.

Jovens do Bloco reúnem conferência nacional

Desemprego, precariedade e a angústia de terminar a escolaridade com pouca ou nenhuma esperança de conseguir trabalho na área para que se estudou a vida inteira. Estes temas vão de certeza estar presentes nos debates da IIª Conferência Nacional de Jovens do Bloco de Esquerda, a realizar na Faculdade de Letras do Porto nos dias 5 e 6 de Abril. Neste encontro a juventude bloquista vai aproveitar para discutir e coordenar as campanhas em que está envolvida, nomeadamente na luta contra a guerra infinita dos EUA. Os textos preparatórios do debate - que podem ser pedidos para a morada de email [email protected] - incluem um projecto de “manifesto para uma juventude inconformada” com a crítica à globalização neo-liberal, à guerra e ao imperialismo e propostas para as alternativas às políticas de imigração, ambiente, sexualidade e toxicodependência. Também no Porto, e na véspera do início desta Conferência, as jornadas parlamentares do Bloco têm na agenda a crise económica e social que se agudiza à medida que as falências são decretadas à revelia e à margem do interesse de quem trabalha nessas empresas. O grupo parlamentar vai igualmente apresentar e debater em público a proposta de lei sobre o divórcio, na cooperativa Árvore, dia 4 de Abril às 21h.

Texto da edição em linha do jornal (1999–2003), recuperado das cópias do Internet Archive e do Arquivo.pt.

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