A marcha mundial no Fórum de Porto Alegre
Mulheres · Combate, fevereiro de 2003, edição em linha
Jornal2003Andrea PenicheA maioria das feministas participa no Fórum Social Mundial enquanto parte da Marcha Mundial das Mulheres. A Marcha é já exemplo da construção de movimentos de resistência à escala global. Começou em 2000 e em 2003 continua a crescer, a propor e a agregar sempre mais gente.
Rebeldia nas Ruas
A abertura do Fórum, com a "Marcha pela paz e autodeterminação dos povos" mostrou que a luta contra a guerra e a política neoliberal não é uma iniciativa isolada. Mais de 100 mil mulheres e homens inundaram as ruas de Porto Alegre, misturando palavras de ordem em diferentes vozes e idiomas num coro afinado de ideais e valores.
A Marcha Mundial das Mulheres abria a manifestação com duas bonecas gigantes seguidas dos estandartes da Marcha e das faixas costuradas pelas próprias participantes, que traziam figuras femininas formadas da junção de retalhos de esperanças partilhadas. O som do batuque nordestino fortaleceu o grito: "A nossa luta é todo dia, somos mulheres e não mercadoria!".
No penúltimo dia o Bloco Feminista respondeu à Convocatória dos Movimentos Sociais, resultante das assembleias realizadas ao longo dos dias, e saiu novamente à rua integrando a manifestação "Contra a guerra, a ALCA e o neoliberalismo".
Desta vez sem bonecas, mas com firmeza no protesto. E o aviso ficou feito. "Que se cuide o imperialista, porque um dia, a América Latina vai ser toda feminista". E quem diz América Latina, diz o mundo inteiro!
Os debates
Discutir propostas de novas alternativas de inserção das mulheres no mercado de trabalho, sob uma óptica feminista, foi o tema de um dos seminários promovidos pela Marcha. O debate em torno do reflexo dos mercados comuns - como a ALCA - no trabalho das mulheres foi também colocado em evidência, salientando-se os efeitos perversos que estes mercados poderão ter em relação às mulheres que, por exemplo, comercializam produtos artesanais e daí retiram a sua subsistência.
Na oficina sobre a mercantilização do corpo das mulheres foram discutidos os diferentes campos em que a mulher se torna objecto de comércio. O turismo sexual e a exploração do corpo das mulheres pelos média foram as questões mais debatidas.
No acampamento da juventude foi organizada uma oficina de "Pixação Crítica e Libertação de Cartazes Publicitários". As jovens expressaram seu repúdio pelo padrão de beleza imposto pelos média, através da grafitagem.
Foi ainda organizada uma discussão em torno do "Feminismo e nova geração política", que apresentou as lutas que os vários movimentos travam, em diferentes países, em torno das questões feministas: Portugal e Itália pelo direito ao aborto legal e contra a ameaça conservadora da nova direita europeia; a Argentina e a experiência do colapso da economia imposta pelo FMI que fez das mulheres as primeiras e principais vítimas, mas simultaneamente a experiência do surgimento de novas lideranças femininas nos movimentos sociais; o Canadá e a luta em torno das questões LGBT; o Brasil e a introdução do feminismo no movimento estudantil, com o relato das dificuldades deste processo, mas também da constatação da premência deste eixo de intervenção.
As Propostas...
O FSM nesta terceira edição conseguiu avançar nas suas estratégias propositivas, indo além do campo da análise e da reflexão. Num seminário de construção das acções para 2005, a Marcha Mundial de Mulheres lançou duas propostas que deverão ser discutidas no Encontro Internacional deste movimento, em Março de 2003, na Índia.
De entre as ideias avançadas, está a da construção colectiva de uma Carta Feminista para a Humanidade baseada nos Direitos Humanos Universais e a da produção de uma colcha de retalhos com os símbolos das entidades e organismos regionais responsáveis pela Marcha.
...e o balanço que deve ser feito
Em Porto Alegre sente-se a esperança. Sente-se que a resistência global aterrou naquela cidade e a vestiu com as cores das reivindicações de todo o mundo. De ano para ano as coisas parecem crescer não apenas em número mas também na profundidade com que a discussão é feita. Porto Alegre já não depende de Davos. Porto Alegre não discute apenas. Convoca e organiza. E tem a capacidade de mobilizar internacionalmente. Mas a Porto Alegre ainda falta crescer e aprender o sentido e a justiça da paridade. A constatação da fraca representatividade das mulheres como conferencistas centrais, em contraponto com a forte representação das mulheres enquanto participantes, faz parte do balanço. Mas do balanço também faz parte a promessa de reflexão e inflexão desta situação.
As mulheres com as suas diversas vozes e as suas diversas cores encontraram-se na mesma cidade. Mas encontram-se sobretudo na esperança feita palavra de ordem: na luta pela dignidade das mulheres e pelo reconhecimento das demandas feministas como centrais na construção de um novo mundo. Um mundo que queremos tão distante do neoliberalismo como próximo do feminismo.
Andrea Peniche
Texto da edição em linha do jornal (1999–2003), recuperado das cópias do Internet Archive e do Arquivo.pt.