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Arquivo da LCI, do PSR e da APSR, secção portuguesa da IV Internacional, e da sua imprensa, 1973–2013

Articular agendas para uma Europa alternativa

Mamadou Ba · dezembro de 2004 · Revista Combate · 1.126 palavras

Fórum social europeu · Combate n.º 281, dezembro de 2004 a fevereiro de 2005, pp. 18–20

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VIERAM DE TODAS as partes da Europa e não só, são membros de diversas organizações sindicais, feministas, de direitos humanos, de intervenção local, são dos movimentos contra a guerra, ambientalistas, internacionalistas, com sensibilidades e tradições sócio-políticas bastante heterogéneas. Criaram espaços de expressão de múltiplas causas colectiva e individualmente tanto para as organizações bem estruturadas com para aquel@s que não têm voz.

Neste Fórum Social, à semelhança dos anos anteriores, em Florença e Paris, uma das palavras de ordem era: “contra o capitalismo neoliberal, contra a guerra, pela paz e por um mundo sem racismos”.

Além dos plenários, dos seminários, dos “workshops” e das mesas de controvérsia, um dos momentos mais importantes, apesar de se realizar à margem do FSE, é a Assembleia dos Movimentos Sociais. Este espaço, político por excelência, reflectiu no seu apelo final a pluralidade das preocupações e das agendas do movimento social europeu, procurando articulá-las de forma a potenciar uma intervenção política mais coesa, mais visível e mais eficiente no combate à guerra, e ao neoliberalismo.

As reivindicações e subsequentes iniciativas vão da oposição ao “muro do apartheid” de Sharon, às campanhas contra os perigosos OGM, passando por apelos a mobilizações europeias contra as cimeiras da NATO de Nice, em Fevereiro de 2005 e do G8 na Escócia em Julho de 2005, por mobilizações cidadãs no dia 8 de Março para combater a Europa patriarcal,

o sexismo e a violência contra as mulheres, lutando pelo direito à opção em matéria de IVG.

Nesta mesma lógica de articulação solidária das agendas políticas do movimento social europeu, na luta contra a Europa-Fortaleza, por um espaço de liberdade e de igualdade de direitos, contra o racismo e para a livre circulação e a livre instalação, juntar-se-ão milhares de cidadãos europeus para uma jornada europeia de solidariedade com os cidadãos imigrantes, no dia 2 de Abril de 2005.

Os movimentos sociais europeus reafirmaram neste mesmo apelo a sua oposição firme ao projecto de Constituição Europeia. Além de não ter nascido de um processo constituinte democrático, revela-se como uma imposição autoritária de teor conservador, neoliberal e militarista, ao incorporar geneticamente a NATO na sua arquitectura institucional. Este projecto de constituição europeia representa uma ameaça à democracia, porque assenta num ataque sem precedentes aos direitos básicos ao emprego, à saúde, à educação, à liberdade, baseando-se na doutrina neoliberal rentista, que visa mercantilizar todos os serviços públicos. Por isso, haverá mobilizações em no dia 30 de Outubro contra a assinatura do Tratado Constitucional e no dia 11 de Novembro contra a directiva Bolkestein.

Seguramente que o ponto alto destas mobilizações será a manifestação europeia em Bruxelas a 19 de Março, coincidindo com o segundo aniversário da invasão do Iraque, a 20 de Março, e a reunião do Conselho europeu, de 22 a 23 Março.

Se é verdade que o movimento social europeu ainda apresenta uma relativa debilidade organizativa, ele não deixa de ser uma plataforma política importante para responder às políticas neoliberais da Europa, a partir de um amplo leque de associações e organizações da sociedade civil.

O fórum social deve, por isso, dinamizar e favorecer, em primeiro lugar, o surgimento de múltiplas sensibilidades sociais e políticas, promovendo um diálogo e o intercâmbio entre elas, e em segundo lugar incentivar a sua participação – não só como espectador, mas sim como actor – fortalecendo a sua emancipação e auto emancipação. Por conseguinte, os eixos centrais devem contemplar todos os temas que mobilizam e motivam essas sensibilidades, procurando promover a participação igualitária e efectiva de todas e todos os intervenientes na construção de uma alternativa politica à Europa neoliberal.

Além de a sua força residir na sua diversidade, o que mais singulariza o Fórum Social Europeu é a abrangência do seu calendário político e a necessidade de articular esta agenda numa dinâmica de resposta política concreta a nível de coordenação da resistência ao neoliberalismo selvagem.

O processo dos fóruns sociais deve assumir uma postura transversal a todas as discussões políticas por uma Europa alternativa. O denominador comum destas causas é que todas aspiram a uma outra sociedade, lutam todas contra a doutrina neoliberal assente na guerra, nas exclusões, nas discriminações e nas injustiças! O Fórum Social Europeu deve então ser capaz de exprimir todas as formas de injustiças, todas as causas mas também e sobretudo dar igual espaço de expressão a todas essas causas, cada uma com a sua forma de expressão. É por isso, que na elaboração do programa tanto cultural como temático, quer nos eixos centrais, quer nas oficinas, nos workshops e ateliers, o fórum terá também que ter em consideração as diferentes sensibilidades e culturas políticas.

Enfim, há que reflectir à luz do balanço mitigado de todo o processo do Fórum social Europeu para tirar rapidamente as ilações que se impõem quanto às possíveis derivas de intolerância, estreitamento do espaço de expressão das diferenças. Há que definitivamente encontrar uma resposta consensual à tentativa de homogeneização ou de hierarquização do debate político no processo do Fórum Social Europeu, para que a próxima edição, na primavera de 2006 na Grécia, não cometa os mesmos erros.

* Dirigente da Associação SOS Racismo. [email protected]

Cerca de 25 mil pessoas participaram em Londres nesta terceira edição do FSE. Nos três dias de Fórum, tiveram de escolher por entre as mais de 500 conferências e debates, para além das actividades culturais e de iniciativas promovidas por colectivos e movimentos fora do espaço do FSE. Naturalmente, não se esperava um Fórum como os outros, logo a começar pelas características dos organizadores no terreno. Os movimentos e organizações políticas inglesas têm uma tradição bem conhecida de dificuldades na experiência de trabalho em comum, que se traduz num panorama organizativo disseminado por múltiplas organizações, muitas delas simplesmente proclamativas e sem enraizamento social. Este Fórum, embora tenha dado um passo importante ao juntá-las quase todas na mesma iniciativa, transportou naturalmente com elas as marcas de anos de confronto político, em grande medida estranho à realidade do resto da Europa. O facto de a organização contar com o apoio político e material do mayor de Londres, Ken Livingstone, entretanto regressado à família trabalhista, foi o maior foco de tensão presente num Fórum em que a crítica a Blair e aos trabalhistas pelo alinhamento com Bush na guerra do Iraque foi o tema dominante, quase abafando as questões ligadas aos serviços públicos, direitos laborais e constituição europeia. Com milhares de “foristas” acampados no Millenium Dome, o elefante branco que Blair construiu em Londres para assinalar a passagem do milénio, e a presença de segurança contratada, não faltou quem assinalasse as contradições entre o espírito do FSE e a forma como este foi organizado. Para evitar maiores dissabores, Livingstone acabou por cancelar a sua presença na abertura do evento e não foi visto nos corredores sempre sobrelotados do Alexandra Palace... LB

Texto extraído do PDF da revista que o combate.info publicou; as citações em destaque e as legendas foram omitidas.

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