A guerra dos 33 dias e a resolução 1701 do Conselho de Segurança
Guerra do Líbano · Combate n.º 286, outono de 2006, pp. 16–21
Revista Combate2006Gilbert AchcarA RESOLUÇÃO adoptada pelo Conselho de Segurança das Nações Unidas a 11 de Agosto de 2006 não satisfez nem Israel nem Washington nem o Hezbollah. Isto não significa que não seja «justa e equilibrada», mas somente que ela é uma expressão temporal para um impasse militar. O Hezbollah não conseguiu infligir uma grande derrota militar a Israel — possibilidade excluída de todas as formas pela desproporção das forças em presença, tal como tinha sido impossível à resistência vietnamita infligir uma derrota militar decisiva aos Estados Unidos. Mas Israel tão pouco conseguiu infligir ao Hezbollah uma importante derrota militar ou, na realidade, nem sequer uma derrota militar. Neste sentido, o Hezbollah é, sem dúvida alguma, o verdadeiro vencedor no plano político e Israel o verdadeiro vencido desta guerra de 33 dias, desencadeada a 12 de Julho. E nenhum discurso de Ehud Olmert ou de George W. Bush poderá contradizer esta flagrante realidade (1).
A fim de compreender o que está em jogo, é necessário resumir os objectivos da ofensiva de Israel, endossados pelos Estados Unidos. O objectivo central que visava o ataque israelita era, supostamente, a destruição do Hezbollah. Israel tentou alcançá-lo através da combinação de três meios principais.
O primeiro meio consistia em dar um golpe ao Hezbollah levando a cabo uma campanha de bombardeamento «post-heróico» — dito de outra forma, de uma cobardia — tirando proveito da «superioridade esmagadora e assimétrica» da força de choque israelita. A campanha visava cortar o Hezbollah das suas linhas de reabastecimento, destruir uma boa parte da sua infra-estrutura militar (stock de mísseis, lança-mísseis, etc.), eliminar um grande número dos seus combatentes e decapitar o movimento, assassinando Hassan Nasrallah e outros dirigentes da organização.
O segundo meio utilizado consistia em voltar contra o Hezbollah a sua base de apoio entre os xiitas libaneses, designando-o para esse fim o Hezbollah como responsável da sua tragédia, por meio de uma campanha frenética de guerra psicológica. Isto supunha, bem entendido, que Israel infligiria aos xiitas libaneses um desastre em grande escala através de uma campanha extensiva de bombardeamentos criminosos arrasando deliberadamente povoações e bairros na sua totalidade e matando centenas e centenas de civis. Não era a primeira vez que Israel recorria a este tipo de estratagema, que constitui um crime de guerra clássico. Quando a OLP estava activa no sul do Líbano, no que se chamava a «Fatahland» antes da primeira invasão israelita, em 1978, Israel tinha por hábito ataques constantes e com força nas zonas habitadas à volta dos pontos de onde eram lançados os projécteis contra o seu território, mesmo se estes fossem lançados de terrenos muito amplos. Naquela época, este estratagema tinha conseguido alienar à OLP uma parte importante da população do sul do Líbano, facilitado pelo facto de que as direcções reaccionárias representavam ainda uma força importante na região e que os combatentes palestinianos podiam facilmente ser rejeitados intrusos, devido ao seu comportamento geralmente desastroso. Desta vez, dado o estatuto incomparavelmente melhor de que goza o Hezbollah entre a população xiita, Israel pensou que podia alcançar o mesmo resultado simplesmente aumentando de forma espectacular a extensão e a brutalidade da punição colectiva.
O terceiro meio consistia em perturbar massiva e gravemente a vida do conjunto dos libaneses, tomando-os reféns através de um bloqueio aéreo, marítimo e terrestre a fim de incitar a população, em particular as comunidades que não são xiitas, contra o Hezbollah e assim criar um clima propício para uma acção militar do exército libanês contra a organização xiita. É a razão pela qual, no começo da ofensiva, os responsáveis israelitas terem declarado que não desejavam ver nenhuma força, excepto o exército libanês, estender-se no sul do Líbano, rechaçando em particular a perspectiva de uma força internacional e denegrindo a que estava já no lugar: a FINUL. Este projecto era, de facto, o objectivo pretendido por Washington e Paris desde que tinham trabalhado conjuntamente para produzir a resolução 1559 do Conselho de Segurança da ONU em Setembro de 2004, que apelava à retirada das tropas sírias do Líbano e ao “desmantelamento e desarmamento de todas as milícias libanesas e não libanesas”, quer dizer o Hezbollah e as organizações palestinas nos campos de refugiados.
Washington acreditou que, uma vez retiradas as tropas sírias do Líbano, o exército libanês, equipado e formado principalmente pelo Pentágono, seria capaz de “desmantelar e desarmar” o Hezbollah. O exército sírio retirou-se efectivamente do Líbano em Abril de 2005, não devido à pressão de Washington e Paris, mas por causa das emoções políticas e da mobilização de massas que tinham resultado do assassinato, em Fevereiro do mesmo ano, do antigo primeiro-ministro libanês Rafik Hariri, um aliado muito próximo da classe dirigente saudita. O equilíbrio de forças no país, à luz das manifestações e contra-manifestações gigantescas que o assassinato tinha provocado, não permitiu à coligação aliada dos Estados Unidos contemplar uma resolução do desarmamento do Hezbollah pela força. Viu-se inclusivamente obrigada a participar nas eleições parlamentares, no mês de Maio seguinte, no âmbito de uma grande coligação que incluía o Hezbollah, e a governar logo a seguir o país com uma coligação que incluía dois ministros membros da organização xiita. Este resultado decepcionante fez com que Washington desse luz verde a Israel para a sua intervenção militar. Só faltava encontrar um pretexto adequado, que foi proporcionado pela operação levada a cabo pelo Hezbollah, a 12 de Julho, do outro lado da fronteira.
Uma ofensiva fracassada
Em relação ao objectivo central e aos três meios descritos anteriormente, a ofensiva israelita foi um fracasso total e flagrante. O mais evidente é que o Hezbollah não foi destruído, nem de longe. O partido manteve o essencial da sua estrutura política e da sua força militar, dando-se inclusivamente ao luxo de bombardear o norte de Israel até ao último momento anterior ao cessar-fogo da manhã do dia 14 de Agosto. Não foi afastado da sua base de massas, conseguindo ainda estendê-la consideravelmente, não só entre os xiitas libaneses, mas também no seio das demais comunidades religiosas libanesas, sem falar do imenso prestigio que esta guerra lhe outorgou, sobretudo na região árabe e no resto do mundo muçulmano. Para completar o quadro, tudo isto conduziu a uma evolução da balança de forças no Líbano numa direcção exactamente contrária ao que Washington e Israel desejavam: o Hezbollah
saiu da batalha muito mais forte e mais temido ainda pelos seus adversários declarados ou não declarados, os amigos dos Estados Unidos e do reino saudita. O governo libanês optou no essencial pelo Hezbollah durante os combates, fazendo do protesto contra a agressão israelita a sua prioridade (2).
Não é necessário insistir mais no fracasso flagrante de Israel: basta ler a avalancha de comentários críticos muitos reveladores que emanam de fontes israelitas. Uma das críticas mais forte foi expressa por Moshe Arens, três vezes ministro da “Defesa” de Israel, expert incontestável na matéria. Escreveu um pequeno artigo em Haaretz que diz muito a este propósito: “Eles (Ehud Olmert, Amir Peretz e Tzipi Livni) tiveram alguns dias de glória, quando acreditaram que o bombardeamento do Líbano, pela força aérea israelita, faria saltar em pedaços o Hezbollah e nos traria uma vitória quase sem trabalho. Mas quando se esgotava a guerra que dirigiram tão mal... desincharam progressivamente. Aqui e ali, fizeram ainda algumas declarações bélicas, mas começaram a procurar uma porta de saída - um meio de sair da roda dos acontecimentos que foram manifestamente incapazes de controlar. Tentaram agarrar-se a uma quimera e que melhor quimera do que o Conselho de Segurança das Nações Unidas. Nenhuma necessidade de alcançar uma vitória militar contra o Hezbollah. Que as Nações Unidas declarem um cessar-fogo, pois Olmert, Peretz e Livini poderão simplesmente declarar vitória, acredite-se ou não... A guerra que, segundo os nossos dirigentes, ia restabelecer a capacidade de dissuasão de Israel, conseguiu destrui-la num mês” (3).
Arens tem razão: quando Israel se mostrou, cada vez mais, incapaz de alcançar qualquer dos objectivos que se tinha fixado no começo da sua nova guerra, começou a procurar uma porta de saída. Enquanto compensava o seu fracasso, mediante uma escalada do seu furor destrutivo e vingativo sobre o Líbano, os seus mandatários americanos mudaram de atitude na ONU. Depois de ter ganho tempo para Israel bloqueando toda a tentativa de formular uma resolução do Conselho de Segurança apelando a um cessar-fogo - um dos casos mais graves de paralisia da instituição inter-governamental nos seus 61 anos de existência - Washington decidiu ter relevo continuando a guerra de Israel por meios diplomáticos.
Ao mudar de atitude, Washington aproximou-se de novo a Paris, quanto ao expediente libanês. Tendo em comum com os Estados Unidos, seus competidores, o desejo de tirar proveito da riqueza dos sauditas, principalmente vendendo-lhes material militar (4), Paris toma regularmente e de forma oportunista o partido dos sauditas, cada vez que emergem tensões entre os projectos de Washington e as preocupações dos seus mais
antigos clientes e protegidos do Médio Oriente. A nova guerra levada a cabo por Israel no Líbano proporcionou uma boa ocasião: enquanto a agressão criminosa de Israel se mostrou contraproducente, desde o ponto de vista da família reinante saudita, aterrorizada pela perspectiva de uma desestabilização crescente no Médio Oriente que poderia ser fatal para os seus interesses, os sauditas reclamaram o fim do conflito e a procura de soluções de mudança.
Paris pronunciou-se imediatamente a favor desta atitude e Washington acabou por lhe seguir, mas só após ter dado à agressão israelita alguns dias mais para tentar marcar alguns pontos e salvar a sua cara no terreno militar. O primeiro projecto de resolução preparado pelas duas capitais circulou nas Nações Unidas a 5 de Agosto. Era uma flagrante tentativa de conseguir diplomaticamente o que Israel não tinha conseguido no terreno militar. Uma vez que proclamava um “apoio firme” à soberania do Líbano, o projecto apelava sem dúvida à reabertura dos seus portos e aeroportos só “para fins estritamente civis de forma verificável” e previa a instauração de um “embargo internacional sobre a venda ou o uso de armas ou de material conexo ao Líbano, exceptuando o que esteja autorizado pelo seu governo”, noutros termos, um embargo ao Hezbollah.
A urgência do cessar-fogo
O projecto franco-americano reafirmava a resolução 1559, uma vez que apelava à outra resolução que haveria autorizado “em virtude do capítulo VII da Carta, o desdobramento de uma força internacional mandatada pelas Nações Unidas para ajudar as forças armadas e o governo do Líbano a estabelecer um envolvimento seguro e contribuir para pôr em prática um cessar-fogo permanente e uma solução a largo prazo”. Esta formulação é tão vaga que não podia senão designar, na realidade, uma força internacional autorizada a empreender operações militares (capítulo VII da Carta da ONU) com vista à aplicação da resolução 1559 pela força, em aliança com o exército libanês. Além disso, nenhuma disposição limitava esta força à zona sul do rio Litani, que, segundo o projecto de resolução, devia ser uma zona sem armamento do Hezbollah, a zona que Israel reivindicou como espaço de segurança após ter fracassado em desembaraçar-se do Hezbollah no resto do Líbano. Isto significava que a força das Nações Unidas teria podido ser chamada a intervir contra a organização xiita no resto do Líbano.
Sem dúvida, este projecto não podia basear-se, em absoluto, no que Israel tinha conseguido no terreno e deixou desbaratado. O Hezbollah opôs-se-lhe firmemente fazendo saber
claramente que não admitiria nenhuma força internacional diferente da FINUL, a força da ONU estendida ao largo da fronteira do Líbano com Israel (a “linha azul”) desde 1978. O governo libanês fez eco da oposição do Hezbollah e pediu a modificação do projecto, apoiado em coro pelos Estados Árabes, incluindo os clientes dos Estados Unidos. Washington não teve então outra opção que rever o projecto, que, de todas as formas, não tinha tido o aval do Conselho de Segurança. Além disso, o aliado de Washington neste assunto, Jacques Chirac, cujo país se considerava que ia proporcionar a maior parte da força internacional e a dirigiria, tinha declarado publicamente duas semanas depois do começo dos combates que nenhum desenvolvimento seria possível sem acordo prévio com o Hezbollah (5).
O projecto foi pois revisto e renegociado, enquanto Washington mandava Israel esgrimir a ameaça de uma maior ofensiva terrestre, que começava a executar como pressão para que Washington pudesse obter melhores condições possíveis do seu ponto de vista. A fim de facilitar um acordo que levasse a um cessar-fogo que se tornava cada vez mais urgente por razões humanitárias, o Hezbollah aceitou a deslocação de 15.000 soldados libaneses para o sul do Líbano e flexibilizou a sua posição geral. Assim a resolução 1701 pode ser aprovada no Conselho de Segurança a 11 de Agosto.
A concessão principal feita por Washington e Paris consistiu em abandonar o projecto de criar uma força multinacional “ad hoc” regida pelo capítulo VII. Em seu lugar, a resolução autoriza “o aumento da força da FINUL até um máximo de 15.000 soldados”, reorganizando assim e aumentando consideravelmente a força existente. A astúcia principal consistia, sem dúvida, em redefinir o mandato desta força de forma que pudesse “assistir às forças armadas libanesas tomando medidas” para “o estabelecimento entre a linha azul e o rio Litani de uma zona livre de todo o pessoal armado, equipamento ou armamento diferente dos do governo libanês e da FINUL”. A FINUL pode agora, também, “empreender toda a acção necessária nas zonas de deslocação das suas forças e segundo o que considere depender das suas capacidades, para assegurar que a sua zona de operações não seja utilizada para actividades hostis de qualquer natureza que seja”.
Combinadas, as duas formulações precedentes aproximam-se muito de um mandato à luz do capítulo VII ou, em qualquer caso, poderiam facilmente ser interpretadas dessa forma. Contudo, o mandato da FINUL é estendido de facto pela resolução 1701 para além das suas “zonas de deslocação” pois pode agora “ajudar o governo libanês sob o seu mando” nos esforços para “assegurar as suas fronteiras e outros
pontos de entrada a fim de impedir a entrada no Líbano de armas ou de material conexo” - uma frase que não se refere certamente às fronteiras do Líbano com Israel, mas claramente a sua fronteira com a Síria, que se estende do norte ao sul do país. São estes pontos os que representam as principais armadilhas contidas na resolução 1701 e não a formulação no que concerne à retirada do exército de ocupação israelita, sobre a qual se concentraram muitos comentários, posto que esta retirada foi determinada em qualquer caso pela força dissuasiva do Hezbollah e não por nenhum tipo de resolução da ONU.
O Hezbollah decidiu dar luz verde à aprovação pelo governo libanês da resolução 1701. Hassan Nasrallah pronunciou um discurso a 12 de Agosto, no qual explicou a decisão do partido de dar o seu acordo para a deslocação mandatada pelas Nações Unidas. O seu discurso compreendia uma avaliação da situação muito más sóbria que nalguns dos seus discursos precedentes, assim como uma boa dose de sabedoria política. “Hoje, diz Nasrallah, estamos perante os resultados naturais, razoáveis e possíveis da grande firmeza que os libaneses expressaram a partir das suas diversas posições”. Esta sobriedade era necessária, pois uma reivindicação presunçosa de vitória, como as que fizeram os aliados de Hezbollah em Damasco ou Teerão, teria obrigado Nasrallah a acrescentar, como o rei Pirro da Grécia antiga, “outra vitória como esta e estaria perdido”. O chefe do Hezbollah prudente e explicitamente rechaçou entrar numa polémica sobre os resultados da guerra, sublinhando que “a nossa verdadeira prioridade” é parar a agressão, recuperar os territórios ocupados e “conseguir a segurança e a estabilidade no nosso país, assim como o regresso dos refugiados e das pessoas deslocadas”.
Nasrallah definiu a posição do seu movimento como se segue: respeitar o cessar-fogo, cooperar plenamente com “tudo o que possa facilitar o regresso dos refugiados e pessoas deslocadas do seu país, das suas casas e tudo o que possa facilitar as operações humanitárias e de socorro”. Ao mesmo tempo, afirmou que o seu movimento está disposto a prosseguir o combate legítimo contra o exército israelita enquanto este permanecer em território libanês, uma vez que propunha respeitar os acordos de 1996, em virtude dos quais as operações dos dois campos seriam restringidas aos objectivos militares e evitariam os civis. Sobre este ponto, Nasrallah insistiu que o seu movimento não tinha começado a bombardear o norte de Israel mas como reacção aos bombardeamentos israelitas sobre o Líbano depois da operação de 12 de Julho, e que há que acusar Israel por ter sido o primeiro a estender a guerra às populações civis.
Nasrallah expôs logo uma posição sobre a resolução 1701 que poderia ser descrita da forma mais precisa como uma aprovação com muitas reservas, à espera da sua verificação na prática. Expressou um protesto contra o carácter injusto da resolução, que se absteve nos seus preâmbulos de condenar Israel pela sua agressão e crimes de guerra, acrescentando sem dúvida que poderia ainda ser bastante pior e manifestando o seu apreço pelos esforços diplomáticos que permitiram evitar isso. O seu argumento central foi sublinhar que o Hezbollah considera numerosos problemas tratados pela resolução como assuntos internos libaneses que devem ser discutidos e regulamentados pelos próprios libaneses. Colocou o acento, neste tema, na preservação da unidade e solidariedade nacionais libanesas.
Nas circunstâncias dadas, a posição de Nasrallah era a mais correcta possível. O Hezbollah teve que fazer concessões para facilitar o fim da guerra. Como toda a população libanesa estava tomada como refém por Israel, toda a atitude intransigente teria tido consequências humanitárias desastrosas para além dos resultados espantosos da fúria assassina e destrutiva de Israel. O Hezbollah sabe perfeitamente que o realmente importante está muito menos nos termos de uma resolução do Conselho de Segurança do que na sua interpretação e aplicação efectivas, e que são a situação e a correlação de forças no terreno os determinantes a este respeito. Em resposta às fanfarronices de Georges W. Bush e de Ehud Olmert, sobre se a sua vitória estaria traduzida na resolução 1701, basta citar a resposta anticipada de Moshe Arens no artigo já mencionado:
“A retórica apropriada começou a chover. Que importa se o mundo inteiro vê este arranjo diplomático, a que Israel se juntou, quando recebia uma dose quotidiana de mísseis, como a derrota infligida a Israel por alguns milhares de combatentes do Hezbollah? E que importa se ninguém crê que uma FINUL “reforçada” desarmará o Hezbollah e que o Hezbollah, com milhares de mísseis ainda no seu arsenal e verdadeiramente reforçado pela sua vitória num mês contra o poderoso exército israelita, vá agora converter-se num sócio para a paz?”.
Os desafios
A “continuação da guerra por outros meios” começou já com força no Líbano. Quatro questões principais estão em jogo, expostas aqui por ordem inversa à sua prioridade.
A primeira, no plano interno libanês é a sorte do governo. A maioria parlamentar existente no Líbano é o resultado de eleições levadas a cabo sob a cobertura de uma lei eleitoral defeituosa e deformadora, imposta pelo antigo regime domi
nado pelos sírios. Uma das suas maiores consequências foi a deformação da representação do eleitorado cristão, com uma forte sub representação do movimento conduzido pelo general Michel Aoun que, antes das eleições, tinha chegado a uma aliança com o Hezbollah. Além do mais, a recente guerra alterou profundamente a moral política da população libanesa e por isso a legitimidade da maioria parlamentar actual é muito discutível. Supostamente, uma mudança de governo a favor do Hezbollah e dos seus aliados alteraria radicalmente o sentido da resolução 1701 na medida em que a sua interpretação depende muito da atitude do governo libanês. Deste ponto de vista, uma das principais preocupações será evitar o deslize até uma nova guerra civil no Líbano: era isso que Hassan Nasrallah tinha na cabeça quando sublinhou a importância da “unidade nacional”.
A segunda questão, que concerne igualmente aos assuntos internos libaneses, é o esforço de reconstrução. Hariri e os seus aliados sauditas tinham construído a sua influência política no Líbano dominando os esforços de reconstrução após a guerra de quinze anos acabada em 1990. Desta vez, serão enfrentados com uma forte competição do Hezbollah, apoiado pelo Irão e com a vantagem dos seus estreitos laços com a população libanesa xiita, principal objectivo da guerra de vingança de Israel. Como o conhecido analista militar Ze´ev Schiff escreveu em Haaretz: “Muito dependerá também de quem ajudará à reconstrução do sul do Líbano. Se for o Hezbollah, a população xiïta do sul do Líbano ficaria dependente de Teerão. Haveria que o impedir” (6). Esta mensagem foi recebida claramente em Washington, Riad e Beirute e hoje mesmo há artigos que dão o alarme sobre este tema nos principais jornais dos Estados Unidos.
A terceira questão é naturalmente a do desarmamento do Hezbollah na zona delimitada do sul do Líbano para a deslocação do exército libanês e da FINUL reorganizada. O máximo que o Hezbollah está disposto a conceder sobre este tema é “ocultar” as suas armas a sul de Litani, quer dizer evitar expô-las e armazená-las em lugares secretos. Todo o passo maior, sem sequer mencionar o desarmamento do Hezbollah no conjunto do Líbano, está ligado pela organização a uma série de condições que vão da recuperação pelo Líbano das granjas de Chebaa, ocupadas por Israel desde 1967, à existência de um governo e de um exército capazes de defender a soberania do país contra Israel e determinados a fazê-lo. Esta questão representa o primeiro problema fundamental sobre o que a aplicação da resolução 1701 poderia dar, posto que nenhum país do mundo está actualmente em posição de desarmar o Hezbollah pela força, tarefa na qual o mais formidá
vel exército moderno do Médio Oriente e uma das principais potências militares do mundo, fracassou completamente. Isto significa que toda a outra força deslocada para sul de Litani, seja libanesa ou mandatada pela ONU, deverá aceitar a oferta do Hezbollah, com ou sem disfarce.
A quarta questão é, supostamente, a da composição e da missão dos novos contingentes da FINUL. O plano inicial de Washington e Paris era repetir no Líbano o que tem lugar no Afeganistão, onde uma força suplementar da NATO, com uma “parra” de soldados da ONU, leva a cabo a guerra de Washington. Mas a resistência militar, assim como a política do Hezbollah contrariou o plano. Washington e Paris acreditaram sem dúvida que ele se poderia executar gradualmente, sob camuflagem, até que as condições políticas estivessem reunidas no Líbano para uma prova de força que opusesse a NATO e os seus aliados locais ao Hezbollah. Efectivamente, os países que se supõe que vão enviar os principais contingentes são todos membros da NATO: França, Itália e Turquia são esperados, enquanto que a Alemanha e Espanha são solicitados com insistência para lhes seguirem. Sem dúvida que o Hezbollah não se engana. Está já a trabalhar para dissuadir a França de executar o seu plano de envio das tropas de elite, apoiadas pelo único porta-aviões que tem no Mediterrâneo ao largo das costas libanesas.
Sobre a última questão, o movimento anti-guerra nos países da NATO poderia ajudar muito a resistência nacional libanesa e a causa da paz no Líbano mobilizando-se contra o envio de forças de países membros da NATO, contribuindo assim para dissuadir os governos desses países de ajudar Washington e Israel no seu trabalho sujo. O que o Líbano necessita é de uma força verdadeiramente neutral de manutenção da paz na sua fronteira sul e, sobretudo, que permita ao seu povo resolver os problemas internos através de meios políticos pacíficos. Qualquer outra via conduziria à renovação da guerra civil libanesa no momento em que o Médio Oriente e o mundo inteiro já tem muitas dificuldades para enfrentar as consequências da guerra civil que Washington desencadeou e continua a alimentar no Iraque.
*Gilbert Achcar é de origem libanesa e ensina ciências políticas na Universidade de Paris-VIII. Escreveu diversos artigos no Le Monde Diplomatique e Inprecor. Publicou vários livros, entre os quais «Le choc des barbaries: Terrorismes et désordre mondial». Tradução de António José André.
Notas:
(1) Sobre as implicações regionais e mundiais destes acontecimentos, ver o meu artigo «Os planos imperiais dos Estados Unidos são um barco que se afunda», posto on-line a 7 de Agosto de 2006 em Znet.
(2) Como disse um observador israelita num artigo com um título muito revelador: “Foi um erro pensar que a pressão militar poderia gerar um processo que levaria o governo libanês a desarmar o Hezbollah”. Efraim Inbar, “Prepare for the next round”, Jerusalem Post, 15 de Agosto de 2006.
(3) Moshe Arens, “Let the devil take tomorrow”, Haaretz, 13 de Agosto de 2006.
(4) Tanto os Estados Unidos como a França concluíram importantes contratos de armamento com os sauditas em Julho.
(5) Entrevista concedida ao jornal Le Monde, 27 de Julho de 2006.
(6) Ze’ev Schiff, «Delayed ground offensive clashes with diplomatic timetable», Haaretz, 13 de Agosto de 2006.
Texto extraído do PDF da revista que o combate.info publicou; as citações em destaque e as legendas foram omitidas.