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Arquivo da LCI, do PSR e da APSR, secção portuguesa da IV Internacional, e da sua imprensa, 1973–2013

Do desaparecimento da Jugoslávia em banho de sangue

Catherine Samary · setembro de 2006 · Revista Combate · 7.553 palavras

Memória · Combate n.º 286, outono de 2006, pp. 22–31

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Catherine Samary * ilustrações de joanna latka

I. Recusa das abordagens binárias globalmente falsas

Slobodan Milosevic era geralmente apresentado, nomeadamente pela Procuradora do seu processo no Tribunal Penal Internacional para a ex-Jugoslávia (TPIJ) de Haia, como o “carniceiro dos Balcãs”, responsável principal pelos conflitos, guerras e limpezas étnicas, que marcaram a decomposição da ex-Jugoslávia: uma política da “Grande Sérvia” etnicamente pura, preconizada por Milosevic, estaria no centro dessa violência, ao longo de toda a década 90 e seria a causa de práticas genocidas.

Recusando estas teses, como caluniadoras, os defensores de Slobodan Milosevic apresentaram-no como resistente à ordem mundial imperialista e à desintegração da Jugoslávia, pretendida pelos outros nacionalismos, anticomunistas, armados e instrumentalizados pelas grandes potências, que queriam destruir a Jugoslávia socialista. Segundo eles, as campanhas enganosas de diabolização do “comunismo”, prepararam uma intervenção armada planificada pela NATO contra a Jugoslávia (Sérvia-Montenegro) e inculparam Milosevic no TPIJ, instrumento jurídico destas campanhas, nomeadamente, dos Estados Unidos.

Estas duas abordagens incorporam ambas verdades sem as quais não teriam tido impacto. Mas são globalmente falsas, no sentido em que uma e outra ocultam elementos fundamentais do que foi a política do líder de Belgrado e a das grandes potências. A não consideração destes elementos torna ininteligível o fiasco do processo Milosevic. Fiasco da tese, que a Procuradora teria querido ilustrar, de uma política da “Grande Sérvia” supostamente ambicionada por Milosevic, que teria propagado limpezas étnicas do Kosovo à Bósnia-Herzegovina, ao longo de uma década. Mas fiasco igualmente para os defensores de Milosevic, incapazes de fazer do seu processo uma tribuna de resistência ao capitalismo, anti-imperialista e “jugoslavo”, na real acepção internacionalista, porque tal não era a orientação de Milosevic.

Para compreender o papel deste último nos conflitos principais da crise jugoslava (Kosovo, conflitos sérvo-croatas e sobretudo na guerra de limpeza étnica da Bósnia-Herzegovina) é necessário integrar na análise, elementos que desmentem as duas teses acima mencionadas.

O regime Milosevic estava, a partir do fim dos anos 80, em plena mutação no plano sócio-económico e as leis de mudança da propriedade, votadas na Sérvia sob o regime de Milosevic, não são qualitativamente diferentes das que foram ins

tauradas nos anos 90 (sem qualquer resistência aos preceitos ultra-liberais) na vizinha Eslovénia, hoje membro da União Europeia (UE) (1).

Foram a guerra e as sanções, e não as escolhas sociais contrárias às privatizações, que atrasaram os processos das privatizações. O rótulo “socialista”, na Sérvia como na Polónia, na Hungria ou na Albânia, já não implicava uma oposição à lógica das privatizações.

E é por isso que Milosevic não era nem um “sérvo-comunista”, defensor da auto-gestão, nem um oponente irredutível à nova ordem mundial.

Mas que Estado procurava ele construir, sobre as ruínas do sistema e da federação titista, governando sobre que território?

Belgrado era a capital da Jugoslávia; o exército com que contava era de tradição jugoslava titista e agarrado, pelos seus privilégios, à manutenção de um Estado jugoslavo; a Sérvia era uma república multi-étnica, integrando no Kosovo a maioria albanesa, a Vojvodina com grande minoria húngara, Sandjak com grande população bósnia (eslavo-muçulmana). Contrariamente ao nacionalismo croata, que procurou consolidar o seu Estado com base num exclusivismo croata, Milosevic tinha interesse em jogar em dois tabuleiros - o jugoslavismo e o nacionalismo sérvio; um projecto “jugoslavo” baseado numa maioria e a dominação sérvias combinavam estas duas abordagens.

Esta dupla “linha” de ruptura reaccionária, simultaneamente com o socialismo autogestionário e com a igualdade entre nações, preconizada pelo titismo, não era portanto uma política da “Grande Sérvia” etnicamente pura: Milosevic nunca preconizou tal orientação, nem para o Kosovo, nem para outro lugar qualquer, contrariamente aos seus opositores e, por vezes, grandes aliados nacionalistas sérvios. Daí os impasses da Procuradora Carla del Ponte.

Milosevic procurava recentrar os poderes da federação, de acordo com procedimentos maioritários e favoráveis aos sérvios contra a lógica federal e as práticas de votação por consenso (onde os representantes de cada comunidade nacional tinham o mesmo peso) aplicadas desde meados dos anos 60. E o momento de viragem, do regime de Milosevic, em 1989, não foi uma impossível “limpeza étnica” do Kosovo (havia 80% da população albanesa; não se tratava nem de a expulsar, nem de a matar). Mas tratava-se das relações de dominação da “Grande Sérvia” sobre o povo albanês, que leva também à separação (quase apartheid) das populações, uma regressão nos estatutos e direitos dos albaneses, que tornará um facto irreversível a sua aspiração independentista.

1974 Nova constituição: confederalização da Jugoslávia. O Kosovo, província autónoma da Sérvia, é representado nas instâncias federais como direito de veto contra toda a decisão sérvia.

1980 Morte de Tito: substituído, à

cabeça do Estado, por uma presidência colegial.

1981 Dezenas de milhares de albaneses do Kosovo reclamam o estatuto de república. Repressão sangrenta.

1986 Petição dos sérvios do Kosovo. O projecto de Memorando da Academia das Ciências sérvia é tornado público.

1987 Milosevic afasta os opositores e consolida a sua posição de dirigente da Liga dos Comunistas da Sérvia.

1988 «Revoluções anti-burocráticas», em Voïvodina e Montenegro, favoráveis a Milosevic. Comícios de massa, na Sérvia, contra o «genocídio dos sérvios do Kosovo». Destituição dos dirigentes comunistas albaneses.

1989 Emendas constitucionais, aceites pela Federação, suprimindo o direito de veto do Kosovo no quadro de uma autonomia subordinada a Belgrado. Manifestações albanesas. Envio de tropas da polícia federal.

Greve de fome dos mineiros de Trepca. Repressão sangrenta e ratificação pela assembleia kosovar das emendas constitucionais sérvias. Celebração do 600º aniversário da batalha de Kosovo/Polje. Estado de urgência no Kosovo. Milosevic é eleito Presidente da República da Sérvia pelo parlamento sérvio. Leis de transformação da propriedade e terapia de choque liberal introduzida no plano federal por Ante Markovic.

A supressão do estatuto de “quase” República do Kosovo significou uma subordinação a simples província de Belgrado (nomeadamente nos programas escolares) com a exigência de juramento de fidelidade nos empregos públicos e despedimentos massivos de todos os recalcitrantes; um dos objectivos era inverter a tendência da partida massiva dos sérvios da província, proibindo a venda de terras a albaneses, criando colónias de repovoamento, fornecendo empregos com base nos despedimentos de albaneses, fazendo retornar à Albânia uma certa parte de população descrita como infiltrada.

Por último, as perseguições e brutalidades policiais eram praticadas contra presumíveis militantes separatistas. A resistência (pacífica e depois armada) dos albaneses do Kosovo aumentava para uma luta pela independência e libertação nacional contra uma política de estado da “Grande Sérvia” no sentido dominador de Belgrado, que as grandes potências e nomeadamente a França “jacobina” estavam mal posicionadas para apoiar.

A Jugoslávia estagnada (após a partida das repúblicas que deixam na Federação só a Sérvia e o Montenegro) abandonou, tal como noutros lugares, as referências socialistas (constituição de 1991), sem qualquer consulta popular.

A orientação “jugoslavo-sérvia” de Milosevic explica ao mesmo tempo os seus conflitos parciais (demasiado “jugoslavismo”) e as suas aproximações (apoio nas populações sérvias) a correntes nacionalistas sérvias verdadeiras propagadoras, com as suas milícias, da política da “Grande Sérvia”.

Estas diferenciaram-se, entre si, de acordo com a escolha da aceitação ou da rejeição de uma aliança com o partido “socialista”, por um lado; depois, para elas como para o regime de Milosevic, de acordo com o julgamento feito quanto às violências; e, por último, sobre a evolução das escolhas face às grandes potências.

O “buraco negro” das teses dominantes: desde 1992 e até fevereiro de 1999, Milosevic preferirá jogar a carta de um distanciamento para com as políticas de violência, apesar da utilização nos bastidores de uma polícia paramilitar baseada em mercenários, por detrás da fachada parlamentar do regime.

Preferiu “trair” os seus antigos aliados nacionalistas sérvios da Croácia e da Bósnia-Herzegovina (como lhe acusaram os seus opositores) e apoiar os planos de paz internacionais, em aliança com Franjo Tudjman, para obter o levantamento das sanções e um reconhecimento internacional.

E foi, em parte, bem sucedido.

Ii. Da aliança milosevic-tudjman ao recorte étnico da bósnia-herzegovina

O rótulo socialista diferenciava, em parte e provisoriamente, duas variantes “da transição” pós-titista. Diferenças iniciais tão grandes, como as que marcaram as diversas repúblicas jugoslavas, podiam notar-se entre a Roménia e a Hungria ou a Polónia, e hoje sabe-se bem o que valia o rótulo “socialista” numa Polónia onde os “ex” passaram a ser o ponto de apoio dos Estados Unidos na nova Europa e na guerra do Iraque.

O facto de o partido de Milosevic ter um rótulo socialista foi uma armadilha catastrófica para a esquerda jugoslava e não pode ser dado como seguro para todos e todas a quem importa voltar a dar sentido às palavras e às escolhas.

Pode sintetizar-se o que aproximou na prática o regime de Slobodan Milosevic e o de Franjo Tudjman, apesar das suas diferenças e conflitos parciais:

— a mesma vontade de apropriação territorial estatal da “propriedade social” que era, na constituição de 1974, “empresarial”, não territorializada assim como o clientelismo nas privatizações;

— as alterações constitucionais, introduzidas por Belgrado e Zagreb, no início dos anos 90, sob diferentes formas, mas com uma mesma lógica de degradação agressiva dos direitos nacionais adquiridos sob o titismo pelas comunidades minoritárias das duas repúblicas: o Kosovo perdia o seu estatuto de “quase” república e os albaneses deviam aceitar ser cidadãos “sérvios” do modo “universalista” francês. Paralelamente a Croácia perdia o seu carácter multinacional ao passar a ser Estado do único povo croata e os sérvios perdem o estatuto de “povo”;

— o mesmo tratamento ideológico e político da Bósnia-Herzegovina: direitos e povos que aí tinham sido consolidados, como “criações artificiais” de Tito;

— eles procuraram regular os seus próprios conflitos com base numa partilha étnica da Bósnia-Herzegovina;

— no plano dos regimes políticos, os dois poderes combinaram a acção das forças paramilitares nos bastidores, com um regime parlamentar e pluralista (suficientemente pluralista, de resto, para serem os dois postos em minoria em certas regiões ou cidades da sua respectiva república; o partido de Milosevic era minoritário em Belgrado e nas várias grandes cidades, desde 1996);

— nenhum dos dois assumiu explicitamente uma lógica de guerra; pelo contrário, os dois procuraram os compromissos que fizeram deles interlocutores das grandes potências, porque mais “moderados” que a sua extrema-direita;

1990 XIV e último congresso da Liga dos Comunistas da Jugoslávia (LCJ): abandono dos delegados croatas e eslovenos. Primeiras eleições livres nas repúblicas. Franjo Tudjman é eleito presidente da Croácia. Slobodan Milosevic é eleito presidente da Sérvia. Alija Izetbegovic é nomeado presidente da Bósnia-Herzegovina, no quadro da partilha dos mandatos entre partidos nacionalistas, tendo prometido governar em conjunto. Adopção de uma nova constituição

sérvia, reafirmando a soberania de Belgrado sobre as províncias. Adopção de uma constituição na Croácia suprimindo o estatuto de «povo» para os sérvios. O parlamento do Kosovo, dissolvido por decreto de Belgrado, reúne-se e proclama a República do Kosovo, no quadro da federação jugoslava. Demissões em massa dos albaneses. Organização paralela da sociedade albanesa. Referendo da independência eslovena (93 % de votantes; 89 % de «sim»).

1991 Crise na presidência colegial jugoslava. Plebiscito dos sérvios da Croácia pela sua manutenção na Jugoslávia. Incidentes armados nas zonas de população sérvia. Referendo da independência boicotado pelos sérvios (84 % de votantes: 92 % de «sim»). Declaração das independências da Croácia e da Eslovénia (25 de junho). Referendo dos albaneses do Kosovo a favor da independência (30 de setembro). Referendo da independência na Macedónia boicotado pelos

albaneses (79 % de votantes, 90 % de «sim»). Tomada de Vukovar (Croácia) depois de estar sitiada 86 dias pelo exército federal e milícias sérvias (Agosto-Dezembro). Auto-proclamação de uma República Sérvia na Krajina. A Comunidade Europeia define os critérios para o reconhecimento das repúblicas, que lhe devem ser enviados antes de 23 de Dezembro, para as que querem deixar a Jugoslávia. A 23 deDezembro, a Alemanha anuncia o reconhecimento da Eslovénia e da

Houve como que um jogo de espelhos entre os dois regimes de Belgrado e Zagreb.

A política de Franjo Tudjman foi tanto mais ocultada e branqueada quanto era denunciada em Belgrado. E reciprocamente a realidade reaccionária do regime Tudjman cegou os defensores do regime de Milosevic (ou conduziu-os a um culpado silêncio) a propósito dos trabalhos sujos efectuados pelas milícias do regime e do seu mercenário Arkan como pelas milícias dos aliados nacionalistas sérvios do Partido Socialista, no início da década 90, no Kosovo, na Croácia e na Bósnia-Herzegovina.

Os discursos anti-sérvios e anti-semitas de Tudjman, o regresso dos símbolos e milícias oustachis, incorporados no exército oficial croata, a diabolização do “comunismo” para melhor valorizar os pseudo “democratas” croatas e a reabilitação do passado e de líderes fascistas, tudo isso foi denunciado em Belgrado e por conseguinte largamente ocultado ou minimizado nos meios de comunicação social dominantes: o nacionalismo croata era, dizia-se, unicamente “defensivo”!

Ora o objectivo da “Grande Croácia”, potência institucional, ideológica e militarmente “visível”, para quem a quisesse ver(2), teria duas vertentes:

— Tratava-se, por um lado, no plano interno, de reconstruir uma “croaticidade” selectiva com base da nova constituição e alterar o estatuto dos sérvios para os levar ao estatuto de “minoria”.

— A lógica da “Grande Croácia” prolongava-se no plano externo para a Bósnia-Herzegovina. Primeiro, fê-lo hipocritamente: por um lado, com o direito de voto na Croácia atribuído aos croatas da Bósnia-Herzegovina, antecipando uma incorporação a só um e mesmo Estado; mas também, a partir de 1991, enquanto a soberania da Bósnia-Herzegovina era reconhecida, pela aplicação na prática de uma política de expansão territorial. Existiam várias alternativas: uma, defendida pelos bandos oustachis, que visava agregar o conjunto da Bósnia-Herzegovina à Croácia. Por conseguinte, “respeitava” publicamente a integridade da Bósnia-Herzegovina; a outra, mais “moderada”, e defendida pelo partido de Tudjman (HDZ), trabalhava para a territorialização dos croatas da Bósnia-Herzegovina, em Herceg-Bosna, junto à Croácia, com a sua “capital” Mostar, para poder afirmar-se pela “auto-determinação” do povo croata, simétrica à reivindicação separatista bósnio-sérvia.

Os nacionalismos sérvios e croatas da Bósnia-Herzegovina, respectivamente apoiados por Belgrado e Zagreb, partilhavam a mesma lógica de territorialização violenta e forçada “dos povos”, fragilizando sempre a Bósnia-Herzegovina da época.

Para o efeito, foi necessário destruir a “pele de leopardo” que era a Bósnia-Herzegovina, onde quase nenhuma região era etnicamente pura: “o direito dos povos [no sentido étnico-nacional] à autodeterminação” (separatista) passava na prática pelas limpezas étnicas dos territórios visando construir Estados “que se realizam” e possam estar unidos aos Estados vizinhos, fazendo fugir de maneira irreversível as populações localmente hostis a esta separação.

Para legitimar esta lógica, Belgrado e Zagreb, bem como os seus aliados no terreno, exploraram uma equação enganosa: “muçulmano” no sentido étnico-nacional = muçulmano religioso = islamista = terrorista em potência. Utilizaram a Declaração Islâmica, redigida em 1970, por Alija Izetbegovic e reproduzida, no início dos anos 90, e todas as ambiguidades da política de Izetbegovic, que não ajudou a consolidar a confiança num Estado comum. Alija Izetbegovic oscilou entre um projecto islâmico (por vezes, pronto a aceitar um Estado muçulmano, mesmo estagnado, nas negociações “de paz”) e o nacionalismo bósnio-muçulmano, unido primeiro à manutenção das fronteiras da Bósnia-Herzegovina; e em conflito, no seio dos bósnio-muçulmanos, com a orientação de uma resistência unida à laicidade e à mistura bósnia (3).

A propaganda de Belgrado e de Zagreb comportava dimensões “auto-realizadoras”: a violência exercida contra as populações muçulmanas, que foram 70% das 100.000 mortes da guerra, podia produzir uma certa radicalização islamista entre os muçulmanos; a solidariedade legítima do mundo muçulmano com a chegada à Bósnia-Herzegovina de moudjahidins, justificava por sua vez as teses de um perigo islamista, manipuladas por Belgrado e Zagreb.

No entanto, é principalmente nas regiões de maioria muçulmana, como a de Tuzla, que os partidos “cidadãos” marcaram mais pontos, contradizendo a equação evocada acima. O SDA, partido de Alija Izetbegovic, foi mesmo atravessado por numerosas correntes e cisões longe do integrismo muçulmano. O projecto de um Estado muçulmano não era atractivo no contexto bósnio, incluindo os que queriam propagar um renascimento religioso, protegendo-o dos prejuízos dos comportamentos clientelistas e das práticas corruptoras da integração no poder do Estado.

Se existiam, por conseguinte, correntes islamistas diversas, era falso pretender que a Bósnia-Herzegovina tivesse rebentado devido à ameaça de um “perigo islamista” e se este pudesse crescer, era em primeiro lugar como reacção às agressões sofridas pelas populações muçulmanas.

A tese do “único agressor sérvio” foi utilizada pelo discurso de Sarajevo, no início da guerra. Lutar em duas frentes e

Croácia. Encontro de Milosevic com Tudjman. Discussões sobre a partilha étnica da Bósnia-Herzegovina.

1992 A Comunidade Económica Europeia (CEE, percursora da UE, União Europeia) reconhece a Eslovénia e a Croácia, pedindo à Bósnia-Herzegóvina para organizar um referendo da independência. Proclamação da «República Federal Jugoslava» (Sérvia-Montenegro) na base de uma nova constituição.

Referendo da independência da Bósnia-Herzegóvina boicotado pelos sérvios (64 % de votantes ; 99 % de «sim»). Manifestação pacifista diante do parlamento bósnio. Começo dos confrontos. Auto-proclamação da «República Sérvia da Bósnia-Herzegóvina». O exército popular da Jugoslávia (JNA) retira-se oficialmente da Bósnia-Herzegóvina, mas deixa o grosso das infra-estruturas e armas às milícias bósnio-sérvias. Enquanto a Croácia apoia oficialmente a inde

pendência da Bósnia-Herzegóvina, o HDZ (partido de Tudjman) é purgado dos elementos “pró-bósnios» e o Herceg-Bósnia começa a aparecer no terreno com a bandeira e moeda croatas. O Conselho de Segurança da ONU impõe um triplo embargo (comercial, petrolífero e aéreo) à Sérvia a ao Montenegro. A Croácia, a Eslovénia e a Bósnia são admitidas nas Nações Unidas, que rejeitam o pedido de aí se sentar a nova República Federal Jugoslava (RFJ).

1993 O Conselho de Segurança da ONU decide criar um Tribunal Penal Internacional para a ex-Jugoslávia (TPIJ). Guerra entre croatas e muçulmanos. Encontro entre Milosevic e Tudjman, em Junho, onde se propõe a divisão da Bósnia-Herzegovina em três entidades étnicas. Plano Owen-Stoltenberg. Auto-proclamação da “República de Herzeg-Bosna” com Mostar, como capital. Os bairros muçulmanos da cidade são atacados pelas milícias croatas, apoiadas pelo exército de Zagreb.

denunciar quem os Estados Unidos apoiavam era certamente difícil: a resistência do Armija, em Sarajevo - multi-étnica e não apenas “muçulmana” - tinha necessidade de armas. A Croácia e o Herceg-Bosna estavam no caminho da entrega de toda a ajuda enviada à resistência e eram também a única “retaguarda” possível para com os refugiados muçulmanos, mas era uma “retaguarda” aprisionada, feita refém e que amordaça o discurso de maneira desastrosa (4).

No movimento de solidariedade contra as limpezas étnicas, as pressões croatas, para não designar um único agressor e um certo tipo étnico “de violador” (sérvio), foram terríveis. O movimento feminista sabe-o, nomeadamente Rasou Ivekovic, feminista croata denunciada como uma “bruxa”, porque tinha ousado dizer que os violadores também eram croatas (5).

A instabilidade dos sucessivos “planos de paz” até Dayton, esteve fundamentalmente ligada à progressão no terreno dos dois projectos estatais bósnio-sérvios e bósnio-croatas, como se pode seguir no traçado dos mapas. Radovan Karadzic e Ratko Mladic, à cabeça das milícias nacionalistas bósnio-sérvias, e Mate Boban, à cabeça das milícias nacionalistas bósnio-croatas, estiveram ligados às negociações dos “planos de paz” até Dayton. Eles encontraram-se em Graz, na Áustria, e no terreno podiam ver-se as milícias dos dois lados, juntas em redor de Sarajevo, acossada por “só um agressor”.

Uns tinham recebido armamento e infra-estruturas do exército popular jugoslavo, ao retirar-se da Bósnia-Herzegovina; os segundos, eram ajudados directamente pelo exército croata. Esta é a explicação central das guerras de limpeza étnica e a razão pela qual a população muçulmana (menos de 45% da população), num cálculo por alto, teve cerca de 70% das vítimas. III. AS EVOLUÇÕES DA POLÍTICA INTERNACIONAL

Inicialmente, a diplomacia norte-americana permaneceu ao largo na gestão directa da crise jugoslava. O FMI apoiava antes de tudo uma gestão centralizada da dívida jugoslava, fazendo privatizações à escala da federação. Após as secessões eslovena e croata, os Estados Unidos seguiram uma lógica próxima da Alemanha e retomam a propaganda croata contra o “sérvio-comunismo”, ocultando a realidade do regime croata.

Washington criticou os “planos de paz” da ONU e da UE para a Bósnia-Herzegovina. O que lhe permitia usar uma pedra para dar vários golpes: apresentar-se como amigo dos muçulmanos (albaneses e bósnios) contra o sérvio-comunismo para

tentar fazer “passar”, no mundo muçulmano, a sua política para o Iraque e o seu silêncio sobre a Chechénia, ridicularizando as tentativas da política autónoma europeia e da ONU.

Os jogos de política interna nos Estados Unidos e no mundo, eram o essencial para Clinton frente aos republicanos, apoiantes do isolacionismo. Tratava-se de reintegrar os Estados Unidos no jogo diplomático da Bósnia-Herzegovina, com os parceiros europeus, e fazendo relançar em frente a NATO. As circunstâncias e as escolhas diplomáticas, em Dayton (1995), iam permiti-lo.

A França e a Grã-Bretanha tinham procurado a manutenção da Jugoslávia, em primeiro lugar; seguidamente, visaram equilibrar o lado de Belgrado face aos apoios prestados a Zagreb pela Alemanha. Mas os governos europeus fizeram passar a “sua construção” europeia comum à parte dos seus desacordos. Por conseguinte, alinharam-se por detrás da Alemanha, no reconhecimento da independência da Croácia e da Bósnia-Herzegovina, para salvar a fachada de uma “política externa” da UE.

A guerra croato-muçulmana, em 1992-1993, abriu sem dúvida a possibilidade de um reequilíbrio dos aliados procurados, mas sem mudanças de discursos, nomeadamente dos Estados Unidos (continuava-se a falar do agressor único). Contudo iam ser construídos os alicerces para uma nova real-politik unificada: esta consistia na procura de uma estabilização dos Balcãs, pelo apoio baseado num acordo entre a Sérvia de Milosevic e a Croácia de Tudjman, afastando as forças nacionalistas mais radicais dos dois regimes e forçando Sarajevo a compromissos.

As posições da NATO na Bósnia-Herzegovina, em 1995, na véspera das negociações de Dayton, não eram de modo algum hostis a Milosevic; pelo contrário, este foi consolidado nessa época contra os líderes ultra-nacionalistas da Bósnia-Herzegovina e as sanções foram parcialmente levantadas, produzindo (para além da aceleração das privatizações) uma constatação de malogro no Kosovo, quanto à política de resistência pacífica impulsionada por Ibrahim Rugova, desde a mudança de estatuto da província.

O acordo de paz, em Dayton, foi obtido com base em dois conjuntos de condições. Os bombardeamentos da NATO contra alvos bósnio-sérvios, feitos totalmente à margem, como areia atirada aos olhos para “fazer passar”, como Richard Holbrook sublinhou, a vertente político-militar do acordo, que era global-regional, precisamente na esperança da estabilização global, mas portadora de impasses visíveis hoje:

Não havia nem vencedores, nem vencidos; o acordo assinado era, por conseguinte, eminentemente contraditório: o

Aprovação condicional do plano para Sarajevo e acordo sérvio-muçulmano. Levantamento e confrontos entre o exército de Sarajevo e a “província autónoma da Bósnia-Herzegovina “ocidental” fiel a Fikret Abdic.

1994 Mudança de pessoal nas forças croatas. Bombardeamentos da NATO contra alvos sérvios. Pressão dos Estados Unidos para o acordo de paz entre forças croatas e muçulmanas. Instauração da federação croato-muçulma-

na sob pressão norte-americana.

VERÃO 1995 Ofensiva do exército croata na Eslovénia ocidental. Ofensiva sérvia contra as zonas de segurança instauradas pela ONU, em Srebrenica (7000 mortos). Em Agosto, o exército croata reconquista Krajina e expulsa centenas de milhares de sérvios.

21 NOVEMBRO 1995 Reunidos em Dayton (Estados Unidos) Slobodan Milosevic, Franjo Tudjman e Alija Izetbegovic assinam um acordo que

implica a colaboração com o TPIJ, mantendo a Bósnia-Herzegovina nas suas fronteiras e ratificam a divisão étnica em duas entidades: a República Srpska (RS) e a Federação croato-muçulmana. Levantamento das sanções contra a Sérvia e o Montenegro.

1996-1997 Acções do Exército de libertação do Kosovo (UÇK). Condenação do “terrorismo” e separatismo pelo secretário de estado adjunto norte-americano, John Kornblum, e

pelos ministros dos negócios estrangeiros francês e alemão.

1998 Confrontos no Kosovo, em Drenica, contra uma base local do UÇK. O seu líder, Adem Jashari, e trinta e seis pessoas da sua família são mortos. Aumento de potencial do UÇK. Novos confrontos: 2.000 vítimas e 250.000 refugiados. Plano Holbrooke aceite por Belgrado: regresso dos refugiados, autonomia provisória do Kosovo, por três anos com a presença de 2.000 observa-

presidente bósnio assinava-o, porque permanecia presidente da Bósnia-Herzegovina, cujas fronteiras eram mantidas; os outros, porque as limpezas étnicas tinham sido ratificadas pela criação de duas “entidades” da Bósnia-Herzegovina e cujos laços de confederação de cada “entidade” com os Estados vizinhos continuavam a ser possíveis.

Franjo Tudjman, em nome dos croatas, e Slobodan Milosevic, em nome dos sérvios, assinavam porque os dois ficavam consolidados com estas assinaturas, ao plano internacional, na Bósnia-Herzegovina e nos seus países.

Com efeito, Franjo Tudjman apenas aceitou ser signatário, em Dayton, uma vez “regulada” a “questão sérvia”, na Croácia, depois da limpeza étnica de várias centenas de milhares de sérvios, durante o verão de 1995, fazendo passar a sua percentagem na população de 12% para 5%, visto e sabido pelas grandes potências, pelo TPIJ e por Milosevic;

Slobodan Milosevic, pelo seu lado, tinha ganho em aceitar a limpeza étnica dos sérvios da Croácia, anterior aos acordos de Dayton, porque aquilo lhe dava um certo reconhecimento internacional e o silêncio sobre o Kosovo. Além disso, Belgrado tentou canalizar os sérvios fugidos da Croácia para a Republika Srpska e para o Kosovo, para consolidar a presença étnica sérvia, ganhando igualmente em detrimento dos seus ex-aliados bósnio-sérvios: na véspera dos acordos de Dayton, Mladic e Radovan Karadzic, responsáveis directos dos massacres de Srebrenica, foram inculpados pelo TPIJ.

Foi o que permitiu a Milosevic assinar os acordos de Dayton por sua parte “em nome dos sérvios”. É necessário precisar que não o podia fazer, com uma certa legitimidade entre os sérvios da Bósnia-Herzegovina e porque a Republika Srpska, produto das limpezas levadas a cabo por Karadzic et Mladic, era reconhecida como uma das duas entidades da Bósnia-Herzegovina, no plano constitucional. O enclave de Srebrenica foi abandonado por Sarajevo. Devia ser protegido pelas forças da ONU e da NATO, mas não o foi.

Alguns “estragos colaterais” destes arranjos do TPIJ: — Os massacres de Srebrenica foram caracterizados como “genocídio” aquando do processo do general Krstic diante do TPIJ. Este foi condenado em recurso, não por ter querido um tal massacre ou genocídio, mas por não ter intervindo para impedi-lo. O TPIJ não tinha nenhuma prova de um elo de comando que implicasse Milosevic na decisão do massacre. Ele teria sido condenado provavelmente em bases similares às de Krstic, mas as grandes potências foram directamente responsáveis pela não protecção destas populações;

— Franjo Tudjman morreu, em 1999, sem nunca ter sido inculpado, enquanto o seu exército e o seu regime estiveram

directamente implicados nas violências contra os sérvios da Croácia e a limpeza étnica do Herceg-Bosna, nomeadamente de Mostar;

Por último, a resistência pacífica albanesa, dirigida por Ibrahim Rugova, perdeu em Dayton qualquer esperança de reconhecimento internacional e a activação do Exército de Libertação do Kosovo (UÇK) nasceu desta constatação. IV. DE DAYTON AO KOSOVO E À GUERRA PARA SALVAR A NATO

Dayton significou, por conseguinte, a consolidação dos poderes fortes da região. A esperança de um reconhecimento internacional da auto-proclamada República do Kosovo foi destruída.

Então emergiram críticas para com a estratégia da resistência pacífica prosseguida por Ibrahim Rugova e pelo seu partido o LDK (Liga Democrática do Kosovo) depois das mudanças constitucionais impostas por Belgrado, em 1989. Do balanço de Dayton nasceu uma estratégia alternativa de resistência pela independência, visando a internacionalização do conflito pela violência.

O Exército de Libertação do Kosovo (UÇK) tinha bases ideológicas heteróclitas. As suas acções começaram a estender-se, a partir de 1995, contra o aparelho policial sérvio que retaliava de forma desmedida, tanto mais quanto as fronteiras da resistência iam muito para além do UÇK. Famílias inteiras, nomeadamente nas aldeias, podiam ser solidárias “em torno” de alguns dos seus membros implicados: quanto mais o UÇK era reprimido, mais a sua luta se tornava popular, embora marginal, extremamente sectário nos seus comportamentos intra-comunitários e incapaz, por conseguinte, de pôr em causa a popularidade adquirida pelo seu adversário político Ibrahim Rugova.

Entre 1996 e 1998, o UÇK foi “classificado” como “terrorista”, não somente por Belgrado, mas também por todas as diplomacias ocidentais, incluindo os Estados Unidos, que pediam apenas a Belgrado uma certa “moderação”. Até ao fim de 1998, a engrenagem das violências, convenceu Madeleine Albright que podia tirar algumas vantagens geo-estratégicas para os Estados Unidos, prolongando a que foi adquirida, em Dayton, por Richard Holbrooke.

Globalmente, tratava-se doravante de instrumentalizar os conflitos do Kosovo com o objectivo de confirmar e estender a redefinição da NATO e o seu avanço para a Europa do Leste; de estabelecer bases militares norte-americanas nesta região e nomeadamente na zona estratégica dos Balcãs, com o acesso

dores.da Organização para a Segurança e Cooperação na Europa (OSCE).

JANEIRO-MARÇO DE 1999 Massacre de Racak, matando quarenta albaneses (Janeiro). Conferências de Rambouillet e de Paris. Malogro da primeira fase (6-20 de Fevereiro): a delegação albanesa recusa a autonomia e os sérvios afastam a presença da NATO. O líder do UÇK, Ashim Thaci, é recebido nos Estados Unidos. No seu regresso (15-19 de março), a delega

ção albanesa assina o projecto; “um anexo B militar” é acrescentado impondo a NATO no terreno. O projecto é rejeitado por parte da Sérvia.

23 MARÇO - 9 JUNHO 1999 Bombardeamentos da NATO. A resolução 1244 põe termo à guerra e faz do Kosovo “uma província da Jugoslávia” sob protectorado da ONU.

10 DEZEMBRO 1999 Morte de Franjo Tudjman, presidente da Croácia (reeleito duas vezes). Ao longo de toda

a década 90, até ao seu falecimento, o seu exército integrou as milícias de extrema-direita oustachi; o seu ministro da defesa Gojko Susak é directamente responsável pelas limpezas étnicas cometidas nomeadamente na Herzegovina contra os sérvios e depois contra os muçulmanos bósnios (com a construção do Herzeg-Bosna) e na Croácia contra os sérvios da Eslovénia e de Krajina (1995). Apoiado pelos Estados Unidos e pela Alemanha, morreu sem ter sido inculpado pelo TPIJ.

5 OUTUBRO 2000 Milosevic reconhece a sua derrota nas eleições de Setembro. Vojislav Kostunica torna-se presidente da federação jugoslava.

1 ABRIL 2001 Milosevic, inculpado pelo ministério do interior por pagamentos indevidos, entrega-se à justiça sérvia.

28 JUNHO 2001 Transferência de Milosevic para o TPIJ em Haia, com a decisão do governo sérvio de Zoran Djindjic, apesar do veto do Tribunal

ao mar, na Albânia e na Roménia; de trabalhar a integração da construção europeia num quadro atlantista, contra qualquer veleidade de política autónoma da UE.

Do lado do UÇK, tratava-se de se apoiar no discurso inicial dos Estados Unidos contra o sérvio-comunismo e em defesa dos albaneses para pôr em causa a dinâmica pós-Dayton de consolidação internacional do regime Milosevic e tentar ganhar o reconhecimento do direito à autodeterminação.

À força de tanto ameaçar foi necessário passar aos actos, sob pena de descrédito. Mas para legitimar os bombardeamentos da NATO sobre um país europeu, não era necessário menos que um Hitler e uma ameaça de “genocídio” anti-albanês.

Slobodan Milosevic, tal como Saddam Hussein, foi então catalogado como um “Hitler”. A 25 de Março de 1999, Le Monde intitulava: “Bill Clinton invoca Churchill contra Hitler para justificar a intervenção” e com um subtítulo: “O presidente norte-americano quer limitar as capacidades sérvios de prosseguir o seu genocídio” (6).

Em verdade, a diplomacia norte-americana tinha contado com um tríptico: a)- a autonomia substancial, mas não a independência da província, logo b)- a dominação de Belgrado e a manutenção das fronteiras na esperança de serem aceites por Belgrado c)- o desafio principal: a NATO quando estávamos longe de considerar que reinava um Hitler em Belgrado, preparando um genocídio para o Kosovo.

Mas a primeira fase das negociações tinha sido efectuada, em Rambouillet, pela França e Grã-Bretanha, que queriam fazer do Kosovo um Dayton da “política externa” da UE. Hubert Védrine e Robin Cook retomaram, por sua conta, as duas primeiras vertentes do tríptico norte-americano. Por conseguinte, o projecto de autonomia substancial, no âmbito das fronteiras existentes; mas a questão da NATO foi afastada e o “pior” chegou para os diplomatas: em Fevereiro de 1999, os albaneses do Kosovo recusaram assinar o projecto aceite por Belgrado, porque enterrava a independência do Kosovo. A vertente militar permanecia suspensa.

Este malogro da primeira fase Rambouillet, em fins de Fevereiro, foi comentado por Jean-Michel Demetz, no Express sob o título: “O duplo malogro de Madeleine: no Kosovo, nem acordo, nem emendas - a secretária de Estado norte-americana está decepcionada” (7).

Foi acordado um novo prazo com a decisão de retomar as negociações a 23 de março. Entretanto, o UÇK foi convencido por Madeleine Albright a assinar o acordo de autonomia, mediante o compromisso oral de uma presença da NATO no terreno, eleições rápidas e proceder a uma consulta popular ao fim de três anos.

O objectivo mantinha-se, para os Estados Unidos: a intervenção da NATO para obter seguidamente a sua presença em território da Sérvia, era “suficiente” para se impor como parte integrante do acordo e para “punir” com bombardeamentos a esperada recusa de Belgrado (8.

A “campanha aérea” degenerou em guerra, sem mandato da ONU.

A NATO esteve prestes a estoirar (9). Era manifesto que os bombardeamentos tinham catalizado uma catástrofe no Kosovo: 800.000 albaneses fugindo da província; uma população civil tomada como alvo, seja por erro perante os ajustes dos bombardeamentos, seja voluntariamente (o comando norte-americano esperava que a população sérvia se voltasse contra Milosevic).

E foi, visivelmente, o inverso que aconteceu: o patriotismo face as bombas percebidas como injustas, reforçava, pelo contrário e no imediato, Milosevic e atava a sua oposição (10): o jornalista de Belgrado, Stanko Cerovic, adversário declarado de Milosevic, analisou-o com amargura (11).

É a 22 de Maio de 1999, durante a própria guerra, que a magistrada canadiana Louise Arbour, procuradora do TPIJ, tomou a decisão de acusar Slobodan Milosevic, então presidente da República Federal Jugoslava e vários outros altos responsáveis políticos e militares do regime por “crimes contra a humanidade e violações das leis ou costumes da guerra”. A acusação incluía o período que vai desde 1 de Janeiro de 1999 (quando teve lugar o controverso massacre de Racak, que fez cerca de 45 mortes) até ao fim da guerra em Junho de 1999. De acordo com Pedra Hazan (12), tal decisão foi tomada de maneira “preventiva” pela magistrada canadiana (13), mais por desconfiança para com as grandes potências do que sob a sua pressão. Teria temido, de acordo com esta tese, que confrontados com uma guerra que se tornava um verdadeiro fiasco para a NATO, os governos da Aliança procurassem um acordo a todo o custo com o líder de Belgrado. Pelo contrário, pode constatar-se que a acusação de Milosevic ia no sentido exacto de quem difundia a propaganda da NATO para legitimar a sua acção (14), mas pode admitir-se que Louise Arbour (como Carla del Ponte) terá sido ela própria vítima dessa propaganda.

Previa-se então a inculpação de Milosevic pelo genocídio no Kosovo - centenas de valas comuns, dezenas em Srebrenica, dezenas se não centenas de milhares de mortes no genocídio - anunciado por Clinton e justificando a guerra (15).

Para fazer passar” o compromisso militar da Alemanha, que não era um pequeno desafio, nomeadamente para os Verdes, podia-se apenas jogar com “mais nunca daquilo”, evo

Constitucional. Em Setembro de 2001, a acusação contra ele estende-se à Croácia (Agosto 1991-Junho de 1992).

12 NOVEMBRO DE 2001 Carla del Ponte deposita um terceiro acto de acusação por crimes cometidos na Bósnia-Herzegovina, entre 1991 e 1995. A Procuradora pede a junção dos três actos num só processo, que o juiz Richard May recusa. Mas a Câmara de apelo aceita, a 1 Fevereiro de 2002, o pedido de um só

processo feito pelo acusado, que se afirma como não-culpado e pretende ser o próprio a defender-se.

12 FEVEREIRO 2002 Início do processo com base nos procedimentos anglo-saxónicos. A primeira parte (acusação sobre os três processos) terminou no verão de 2004.

11 MARÇO 2006 Slobodan Milosevic é encontrado morto na sua cela, durante a última fase do processo (a sua defesa). De acordo com o relatório

da autópsia (12 de Março) tratou-se de um falecimento por enfarte do miocárdio. A 17 de Março, o TPIJ exclui a tese de envenenamento num novo relatório de análises toxicológicas.

3 JUNHO 2006 Independência do Montenegro, pondo termo ao que, sob pressão da UE, tinha mantido, em 2003, a ficção de um Estado comum com a Sérvia (sem moeda comum!) suprimindo qualquer referência à uma Jugoslávia. Entre 1991 (independên-

cias da Eslovénia, Croácia, Macedónia e Bósnia-Herzégovina) e 2003, tinha subsistido uma República Federal Jugoslava (RFJ) composta pela Sérvia (com as suas duas províncias: Kosovo e Vojvodina) e Montenegro, cuja nova constituição tinha suprimido qualquer referência ao socialismo, sem qualquer consulta popular. A independência do Montenegro põe termo ao processo de separação das Repúblicas, enquanto se iniciam as negociações sobre o futuro estatuto do Kosovo.

cando o genocídio anti-judaico. O ministro da defesa alemão Rudolf Scharping, denunciou, por conseguinte, a existência de um plano “ferradura” de “deportação” dos albaneses, a 9 de Abril de 1999, assegurando que ele tinha começado a ser levado a cabo, a partir do Novembro de 1998, no Kosovo.

Salvo que: — O plano “ferradura” revelou-se uma impostura da qual o TPIJ deixou de falar;

— Desde o fim da guerra, enviaram-se observadores internacionais para o terreno para as anunciadas valas comuns (cf. GR pasta, 23/11/1999) com todos os meios de investigação e com a presença da NATO, supostamente para, além disso, proteger todas as comunidades.

Os resultados destas investigações não permitiram concretizar acusações.

Segundo o relatório da Human Right Watch, em 2001 (16), a expulsão em massa dos albaneses, durante a guerra da NATO podia servir, realmente, vários objectivos: uma modificação da composição étnica do Kosovo; uma negociação sobre a divisão territorial do Kosovo, mas também os objectivos inextricavelmente ligados à própria guerra da NATO – desestabilizar os Estados vizinhos e tornar mais difíceis as intervenções no terreno.

O relatório invoca o balanço dos corpos exumados pelo TPIJ, ao fim de dois anos de inquéritos, à data de Julho de 2001: 4300 albaneses mortos pelas forças sérvias e jugoslavas a menos de algumas horas de Srebrenica...

Enquanto Joshka Fisher, ministro dos negócios estrangeiros alemão, justificou a guerra da NATO com uma “catástrofe humanitária” evocando um genocídio, um relatório oficial dos serviços de segurança alemães, considerava, a 12 de Janeiro de 1999: “O Leste do Kosovo não está sempre implicado num conflito armado. A vida pública nas cidades como Pristina, Urosevic, Gnjilan, etc. tem continuado, no conjunto do período dos conflitos, em bases relativamente normais. As acções das forças de segurança não (eram) dirigidas contra albano-kosovars, como grupo étnico, mas contra um adversário militar [o UÇK] e os seus partidários reais ou supostos” (17).

Finalmente, a 6 de Setembro de 2001, o Tribunal Supremo do Kosovo, em Pristina, concluiu, após o inquérito, que não tinha havido genocídio no Kosovo durante o período incrimi

nado (cf. comunicação AFP 7 de Setembro de 2001).

Que sabem os parlamentos europeus ou o Congresso dos Estados Unidos? Que diz a França “republicana”, ela que recusa reconhecer um estatuto de povo para os corsos ou adoptar a carta das línguas minoritárias do Conselho da Europa? Porque é que os Verdes alemães apoiaram a guerra do Kosovo e não a do Iraque, enquanto os massacres de aldeias curdas no Iraque foram comparáveis ao que foi a repressão no Kosovo? Que balanço efectuam? Que contas pediram os parlamentos europeus e o Congresso dos Estados Unidos de uma guerra que se revelou um pesado precedente para os dias negativos que se seguiram?

Elementos de conclusão: Tornar a dar sentido aos combates por um outro mundo possível

Certo/as (frequentemente anti-imperialistas, no passado) constatando as violências cometidas e as dificuldades das resistências internas, concluíram que era necessário exigir e apoiar a intervenção militar das grandes potências; e, perante os impasses dos planos de paz da ONU e da comunidade Europeia, foi para a NATO, transformada em braço armado da ONU, que se voltou a sua esperança de emergência de uma polícia de um mundo supostamente “civilizado”. Para as correntes que aderiram a esta ideologia, a guerra da NATO, entre Março e Junho de 1999, a propósito do Kosovo, foi acolhida como “tardia” mas bem-vinda e legítima, mesmo não sendo legal perante o direito internacional.

Criticando estas ilusões, juntámo-nos a um bom número do/as que se mobilizaram contra a intervenção da NATO (Março/Junho de 1999) denunciando os impasses e as mentiras da pseudo guerra humanitária, que não protegeu nem as vidas, nem os direitos.

Os Balcãs estão hoje “integrados” claramente num projecto de enquadramento Euro-Atlântico, extremamente afastado das escolhas democráticas da sociedade e de uma verdadeira auto-determinação das populações, no que concerne às formas e conteúdos dos Estados onde se inserem e onde possam defender os seus interesses e a sua dignidade. O Kosovo alberga uma gigantesca base norte-americana (a de Bondsteel) e a generalização dos Estados precários nos Balcãs, contesta

NOTAS : 1. Propus uma análise comparada das transformações da propriedade, do Estado e dos relatórios sociais na Sérvia e nos outros países “em transição”, entre os quais a Eslovénia: Revista de Estudos Comparativos Este/Oeste, vol. 35 Março-Junho de 2004, n°1-2, CNRS, pp. 116-156. 2. Le Monde Diplomatique, Agosto de 1992: «a deriva de uma Croácia etnicamente pura». 3. Cf. Xavier Bougarel, «O Islão bósnio, entre identidade cultural e ideologia política», in “Le Nouvel

Islam balkanique. Les musulmans acteurs du post-communisme » 1990-2000, Maison Neuve & Larose, Paris, 2001. 4. Passando o fim do ano de 1992, em Sarajevo, por solidariedade, tive encontros com os conselheiros de Alija Izetbegovic, que explicavam a dupla agressão sofrida e vista a olho nu, mas cuja escolha foi não lutar em duas frentes ao mesmo tempo: os muçulmanos refugiados na Croácia encontravam-se reféns de Zagreb. No ano seguinte, o poder em Sarajevo foi confrontado com a ofensiva de limpeza étnica, por parte das

forças militares croatas, contra os muçulmanos no Herceg-Bosna. As pressões norte-americanas para restabelecer a aliança com os croatas e as escolhas políticas de Alija Izetbegovic, desfavorável a uma real mobilização multi-étnica que corria o risco de voltar-se contra ele, pesaram sobre uma propaganda pública simplificadora. 5. A instrumentalização da causa feminina e das associações de mulheres, nesta guerra, como noutras, encontrou, no entanto, resistências essenciais. Advogadas sérvias denunciaram, nos anos 80, em Belgrado, uma propaganda

estigmatizando como únicos os violadores albaneses de mulheres sérvias; durante a guerra da Bósnia-Herzegovina, Tudjman procurou controlar uma conferência internacional feminista, bloqueando a chegada das “mulheres de preto”, feministas sérvias que se manifestavam regularmente contra a guerra em Belgrado. Mas esta intenção foi gorada. 6. Patrice de Beer, Le Monde, 25 Março de 1999. 7. Ver: www.lexpress.fr/info/monde/dossier/kosovo/dossier.asp? 8. O que os Estados Unidos obtive

ram hoje: Cf. Le Monde diplomatique, Janeiro de 2006. 9. Numa emissão teledifundida pela BBC, a 20 de Agosto, o subsecretário dos Negócios Estrangeiros norte-americano, Sr. Strobe Talbott, declarou que as divergências na NATO eram tão marcantes “que teria sido realmente muito difícil preservar a união e a resolução da Aliança” sem o acordo concluído com o presidente jugoslavo Slobodan Milosevic, no início Junho. Ver :www.wsws.org/francais/ News/1999/sept99/10sept_kosovo.shtml 10. Quando, mais de um ano de-

pois e após terem esperado em vão levantamentos populares, os ocidentais apostaram nas eleições para terminar com Milosevic, paradoxalmente descrevendo-o como Hitler, detectaram por sondagem que ele não vencia, nem Zoran Djindjic, devotado à NATO, mas Vojislav Kostunica, mais nacionalista que Milosevic (acusando-lo de ter abandonado os sérvios da Croácia, da Bósnia-Herzegovina e do Kosovo) radicalmente hostil aos bombardeamentos da NATO e não corrompido. 11. Stanko Cerovic, Dans les griffes des humanistes, Éd. Climats, 2001.

12. Pierre Hazan, in «La justice face à la guerre: De Nuremberg à la Haye», Stock, Paris 2000. 13. Ler: «Serbie, Louise Arbour: frappe préventive» (Institute for War & Peace Reporting), 29-05-99, Archives, Courrier des Balkans. 14. A imagem «política» do TPIJ foi reforçada no momento da acusação de Milosevic e pelo facto de Carla del Ponte ter considerado que não havia matéria a prosseguir contra a NATO com as queixas levadas contra ela. A Amnistia Internacional e Human Right Watch, em 2001, pelo contrário, consideraram que, tanto nos alvos civis

como na utilização das bombas de fragmentação, a NATO não respeitou as convenções humanitárias internacionais. 15. « L’opinion, ça se travaille...Les médias & les «guerres justes: Du Kosovo à l’Afghanistan» de Serge Halimi e Dominique Vidal, Éd. Agone, Coll. Contre feux. 16. Este relatório estabeleceu também o balanço das agressões cometidas por membros do UCK contra sérvios ou albaneses e minorias «colaborando» com os sérvios em 1998 e depois da guerra. Ver: www.hrw.org/reports/2001/ kosovo/undword.htm

dos e incapazes, pela sua adesão às políticas neoliberais, de assegurar uma coesão social, ilustra a não estabilização da região, após a guerra da NATO e seis anos após a queda de Milosevic.

Mas recusámos as lógicas binárias (Milosevic ou a NATO). Não porque tivéssemos colocado os dois no mesmo plano, mas porque escolher um contra o outro, não era nem necessário, nem clarificador. Era necessário mobilizar-se em dois planos:

— à escala dos desafios geo-estratégicos, da ordem mundial e europeia, Milosevic não pesava; era necessário denunciar a reorganização da NATO, as lógicas imperialistas e neoliberais norte-americanas e europeias e as mentiras da sua propaganda;

— mas em relação à procura do “sentido” para as resistências contra a ordem mundial imperalista, era necessário dissociar-se claramente das políticas reaccionárias efectuadas por Milosevic, porque impediam qualquer aproximação multinacional de povos e desvirtuavam qualquer projecto socialista. Conduziu o povo sérvio aos piores impasses e foi o principal artíficie da sua própria queda.

* Catherine Samary é economista e membro do Comité internacional da IV Internacional. Publicou, entre outros: «Plan, marché, démocratie l’expérience des pays dits socialistes», «Le marché contre l’autogestion-l’expérience yougoslave», «La fragmentation de la Yougoslavie», «La déchirure yougoslave» e «Les conflits yougoslaves de A à Z». Texto de Julho de 2006. Tradução de António José André

Texto extraído do PDF da revista que o combate.info publicou; as citações em destaque e as legendas foram omitidas.

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