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Arquivo da LCI, do PSR e da APSR, secção portuguesa da IV Internacional, e da sua imprensa, 1973–2013

Israel e Inquisição

António Louçã · setembro de 2006 · Revista Combate · 1.042 palavras

Guerra do Líbano · Combate n.º 286, outono de 2006, pp. 14–15

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EMPREENDER UM GENOCÍDIO, empreendê-lo na forma específica de uma limpeza étnica, conduz à repetição de determinados padrões de comportamento. Quem trabalha para obter o mesmo resultado, cai inevitavelmente na produção de algumas causas que são semelhantes e comuns. Salvaguardando o abismo de diferenças que vai do século XVI ao século XXI, as exigências dirigidas e as condições postas aos judeus durante a limpeza étnica da Península Ibérica são um livro aberto sobre as exigências dirigidas às elites palestinianas durante a limpeza étnica em curso no Médio Oriente desde 1948.

Ao comemorar-se o quinto centenário do massacre de judeus em Lisboa, recordou-se o papel criminoso que teve a Inquisição em discriminar, perseguir, torturar e matar pessoas da minoria judaica. O procedimento é conhecido: os judeus foram expulsos de Portugal ou obrigados a converterem-se ao catolicismo. E aqueles que fizeram profissão de fé pela religião imposta ficaram sempre marcados pelo estigma da hipocrisia. É natural: quando se obriga alguém a uma conversão, não se pode esperar que essa conversão seja sincera. Os mesmos zelotas da fé católica que brutalmente obrigaram à conversão dos judeus passaram depois a espiá-los e a denunciá-los pela alegada prática secreta dos ritos judaicos. Os “cristãos-novos” tornaram-se automaticamente suspeitos de cripto-judaísmo, e disso foram acusados, com ou sem fundamento, por delatores que depois eram premiados com os bens das vítimas. Rapidamente se assumiu que pouco valia a profissão de fé, porque o importante era o comportamento dos convertidos, em público e principalmente em privado.

Com o processo de Oslo e a revisão da Carta da OLP, Arafat fez também uma profissão de fé pela aceitação de um modelo de Estado em que a maioria devia ser obrigatoriamente judaica e em que deviam ser tantos palestinianos expulsos, ou impedidos de regressar, quantos fossem necessários para manter artificialmente essa maioria. Nos anos seguintes, e mesmo com a irrupção da Intifada de Al Acqsa, manteve sempre os termos dessa declaração. Também ele era um convertido, que realmente apostava numa coexistência pacífica entre o sionismo e a Autoridade Nacional Palestiniana, e não poucas vezes foi acusado por compatriotas seus de acatar a autoridade de Barak e Sharon como Pétain tinha acatado a dos invasores alemães.

Embora não acendesse em segredo círios à abjurada Carta da OLP, Arafat não podia controlar o descontentamento e a revolta da juventude palestiniana. Sob pretexto de acções espontâneas do seu povo, viu-se acusado de hipocrisia pelos ocupantes israelitas, viu-se submetido a um regime de residência fixa em Ramallah, teve metade da Mukata demolida por bulldozers israelitas, foi humilhado com a detenção e assassínio selectivo de alguns dos seus mais próximos colaboradores e morreu ele próprio em circunstâncias suspeitas. A tenaz perseguição que os ocupantes israelitas moveram contra Arafat foi sempre explicada com a mesma ladainha: não acreditamos nas profissões de fé deste converso enquanto não o virmos refrear, na prática, a resistência palestiniana. As acções contam mais do que as palavras.

Vieram depois as eleições, que o Hamas ganhou democraticamente. E o Hamas conseguiu aquilo em que Arafat sempre tinha falhado: durante vários meses, impôs um cessar-fogo de facto, e impediu mesmo reacções palestinianas significativas

perante os “assassínios selectivos” que os militares israelitas continuaram a cometer quase todos os dias. Como podia então Israel torpedear o novo governo palestiniano? Apenas invertendo os termos da sua propaganda: agora não contam as acções, mas as palavras. Embora tenha realizado a façanha de impor na prática um cessar-fogo, o Hamas não pronunciou ainda as palavras mágicas – o reconhecimento do Estado de Israel, do carácter judeu desse Estado, da discriminação de todos os israelitas não-judeus, da legitimidade do exílio de milhões de palestinianos e da sua expropriação pelos colonizadores. No diário liberal-conservador Haaretz, comentou-se mesmo com justificada ironia que a posição israelita era a de exigir que o Hamas se tornasse sionista.

Por não fazer essa profissão de fé, explicou o governo Olmert-Peretz, o Hamas tinha de ser submetido a um tratamento de asfixia financeira. E assim se fez, sempre na esperança de conseguir provocar a guerra civil entre o novo governo palestiniano e as forças de segurança afectas à Fatah, credoras daí em diante de salários em atraso. O Estado de Israel, que se vangloria de ser “a única democracia do Médio Oriente”, passou portanto uma esponja sobre a expressiva vitória eleitoral do Hamas - esse “detalhe da História”. E, para mais completamente apagar o “detalhe” e todos os seus vestígios, pretextou o rapto de um obscuro cabo do exército sionista para sequestrar metade do governo, boa parte do parlamento palestiniano e o seu presidente.

Quem assim despreza os governos eleitos do Líbano e da Palestina não pode levar a sério a democracia para os próprios judeus, de Israel ou da Diáspora. E assim começam a fazer-se ouvir vozes, como a do influente escritor Abraham B. Yehoshua, que recentemente surgiu a negar o carácter judeu da Diáspora. Isto é: os judeus russos, norte-americanos, franceses ou outros que pretendam permanecer nos seus países de origem como minoria religiosa e cultural ver-se-iam traiçoeiramente apunhalados pelo próprio Estado que, em teoria, surgiu para lhes fornecer um porto seguro em caso de necessidade. Se querem ser judeus, têm de tornar-se sionistas. Se não fizerem essa profissão de fé sionista, e se não procederem em conformidade, a única esperança de os fazer entenderem o seu “dever” de colonizadores do Médio Oriente será, para Yehoshua, em boa lógica, uma nova vaga de antisemitismo nos países de origem.

Esta boa lógica nada tem, aliás, de novo. O próprio Ben Gurion reagiu em 1938 ao pogrom de 9 de Novembro de forma displicente, afirmando que há males que vêm por bem e que o balanço final até seria positivo se as violências nazis convencessem mais judeus a imigrar para a Palestina. Inversamente, um fundamentalista cristão anti-semita como Richard Nixon foi o mais estrénuo defensor do Estado de Israel, na esperança de que a sua consolidação levasse uma vaga de judeus norte-americanos a deixar o país. Para levar a cabo a limpeza étnica na Palestina, é necessária carne de canhão judia imigrada, tornada colonizadora, expulsa por novas limpezas étnicas, europeias ou outras. Tal é o encadeamento, que o sionismo inevitavelmente produz, de atropelos aos direitos humanos de árabes e judeus de todo o mundo.

* António Louçã é historiador. [email protected]

Texto extraído do PDF da revista que o combate.info publicou; as citações em destaque e as legendas foram omitidas.

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