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Uma mensagem de protesto e desespero

27 de janeiro de 2011 · Internacional · 825 palavras

No dia 21 de Janeiro de 2011, todos os imãs das mesquitas do Egipto foram obrigados a evocar a interdição e a condenação do suicídio no Islão. Uma obrigação que visava a pregação durante a grande oração de sexta-feira. Uma situação que raramente se repete e só acontece em condições de emergência. Por Sabah Sabet.

Foi o ministério dos Waqfs (que se ocupa, designadamente, “dos negócios religiosos”) que impôs esta medida e dirigiu aos todos os imãs através de uma circular, que lhes ordenou que fosse explicado aos fiéis a proibição islâmica do suicídio. Isto dá seguimento à repetição das tentativas de suicídio por imolação na semana passada.

Das 8 tentativas de suicídio, uma pessoa morreu e dois ficaram feridos. Abdou Abdel-Moneim, 50 anos, começou a “série” quando se imolou em frente da Assembleia do Povo. Afirmava o seu direito a quantidades suplementares de pão subvencionado para o seu pequeno restaurante. Perante a atitude severa dos responsáveis e a recusa de acederem ao seu pedido, não encontrou outra solução do que a imolação.

No dia seguinte, um advogado de 40 anos perpetrou o mesmo gesto em frente à sede do governo, no Cairo. Entretanto, em Alexandria, um desempregado de 25 anos morria na sequência de queimaduras. Cinco outras pessoas não tiveram êxito ao imolarem-se. Uma família também ameaçou imolar-se em frente da Assembleia do Povo, mas as autoridades impediram de cometer esse gesto. Os motivos destes 8 casos foram diferentes, mas a miséria e a pobreza são os sentimentos comuns que estão na origem destes actos.

Várias instâncias reagiram face a esta situação. A Universidade de Al-Azhar [que faz referência no estudo do Islão] assegurou, terça-feira passada, que o suicídio era “proibido” no Islão. “O Islão proíbe categoricamente o suicídio por qualquer razão que seja e não permite a separação do corpo para exprimir uma indisposição, a ira ou um protesto”.

O porta-voz de Al-Azhar, Mohamad Rifaa Al-Tahtawi, acrescentou que Al-Azhar não podia comentar os casos das pessoas que se imolam pelo fogo. “Pode-se tratar de indivíduos cujo estado mental ou psicológico os levou a fazerem aquilo. Não se pode julgá-los. Entregam-se a Deus. Rezamos por eles”, concluiu.

Youssef Al-Qaradawi, presidente da União mundial dos oulemas muçulmanos, indicou que estes casos de suicídio, como o do jovem tunisino, se devem ao sentimento de injustiça nos cidadãos. Acrescentou que os presidentes dos países em questão devem assumir a responsabilidade do que se passa.

O exempo tunisino

Muitos imputaram estas tentativas de suicídio ao caso Bouazizi, o jovem vendedor ambulante tunisino falecido, em princípios de Janeiro de 2011, depois de se ter imolado a 17 de Dezembro, desencadeando a revolta na Tunísia.

Esta tendência para a imolação repetiu-se em vários países, como a Mauritânia, a Argélia e o Egipto. “A imitação é um fenómeno psicológico conhecido. É por isso que se tem assistido anteriormente que quando uma revolução se desencadeia num país, repete-se nos países vizinhos”, explica Hossam Sabri, psicólogo do hospital de Abbassiya. Acrescenta que o facto de ter recurso a este tipo de suicídio doloroso e num lugar famoso como a Assembleia do Povo é uma mensagem de protesto e de desespero.

Mas, do ponto de vista político, estas tentativas estão relacionadas com a situação política e económica actual. O Parlamento popular, um grupo de oposição formado por vários ex-deputados, activistas e políticos, anunciou, num comunicado, que a série de suicídios revela a má situação na qual vive o povo. “O que se passa mostra que o regime é mentiroso quando pretende a melhoria do nível de vida dos egípcios.

Nabil Abdel-Fattah, investigador ao Centro dos Estudos Políticos e Estratégicos (CEPAS) de Al-Ahram, pensa também que estes actos são a consequência das más condições do ensino, da economia, dos cuidados de saúde e um conjunto doutros factores.

De acordo com os números oficiais, os casos de suicídio aumentaram nos últimos 5 anos. O organismo central das estatísticas anunciou que, em 2009, foram assinaladas 104.000 tentativas de suicídio e que 66,6% destas pessoas são jovens entre 15 e 25 anos.

Mohamad Mahdi, professor de psicologia na Universidade de Al-Azhar, explica que com estes últimos números, o Egipto excedeu os limites do aceitável. Explica que as causas do suicídio também alteraram nestes últimos anos e que as causas sociais tomam a importância sobre as causas emocionais.

Além disso, outros casos teriam de ser contabilizados durante os últimos meses. Mas os medias não lhes deram o mesmo interesse que à últimas imolações. Ossama Heikal, editor chefe do diário Al-Wafd, explica que estas últimas tentativas de suicídio são meios para chamar a atenção dos responsáveis: “Todos os dias, os medias falam dos actuais problemas, mas ninguém responde. As pessoas encontraram nestes gestos outro meio de expressão”. Heikal teme que estas tentativas se tornem num hábito com o tempo e percam a sua importância.

* Sabah Sabet é jornalista de Al-Ahram (diário de maior circulação do Egipto, fundado em 1875 e propriedade maioritária do governo egípcio). Tradução: António José André.

Fonte: combate.info, cópia do Internet Archive de 2012.

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