combate

Arquivo da LCI, do PSR e da APSR, secção portuguesa da IV Internacional, e da sua imprensa, 1973–2013

Um texto (em) aberto

João Teixeira Lopes · março de 2006 · Revista Combate · 974 palavras

Rumo estratégico do Bloco · Combate n.º 285, primavera de 2006, pp. 7–8

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QUE A HISTÓRIA não está necessariamente do nosso lado. Que o progresso não é linear, nem permanente. Que é possível haver, por conseguinte, regressões mas que estas não são o retorno a um mero ponto anterior de um qualquer modelo evolucionista, antes uma recomposição. Que não há nenhum paradigma de sociedade ou de país que nos sirva de «farol», mas que não nos sentimos órfãos. Que o socialismo não dispensa a liberdade. Que o colectivo jamais pode esmagar a subjectividade dos activistas. Que a rede é mais do que uma metáfora – é já a realidade, embora embrionária e por explorar nas suas enormes potencialidades. Que só seremos vanguarda se não nos deixarmos toldar pela preguiça teórica e prática; se escaparmos ao activismo pelo activismo; se vencermos a tentação do controleiro; se tivermos mais dúvidas na mão do que verdades.

Estas são leituras – possíveis – de um texto aberto: o «rumo estratégico» do Bloco de Esquerda para os próximos três anos. Uma advertência, antes de prosseguir: a estratégia não é inimiga da táctica mas deve precedê-la lógica e ontologicamente. Nenhuma tarefa, nenhum conjunto de objectivos operativos, nenhum caderno de activista pode passar sem uma arquitectura, um fio condutor, um modelo ideológico que, longe de ser receituário ou cartilha, permita algo mais do que «navegar à vista» ou ficar preso nos golpes palacianos, no frenesim mediático da espuma dos dias. Se este é, pois, um texto aberto, retomemos, então, o conceito de «obra aberta» de Umberto Eco: não há um sentido único, tampouco uma interpretação unívoca ou oficial. O texto tem a plasticidade suficiente para uns realçarem certas dimensões e outros enfatizarem caminhos diversos. O texto será sempre incompleto e dialógico: a sua construção não depende apenas da vontade dos autores, dissemina-se nas leituras, interpretações e apropriações dos receptores. Apropriar um texto é torná-lo seu, adaptá-lo a uma estrutura cognitiva, «aconchegá-lo» a um quadro mental

e cultural. Mas, seguindo ainda Eco, há interpretações mais verosímeis do que outras e, sobretudo, há sobreinterpretações que se edificam em sentidos que nunca fizeram parte da intencionalidade dos autores. O texto, tem, pois, parâmetros. Não se trata de uma aventura niilista onde tudo se equivale e onde, supostamente, tudo pode ser lido.

Retomemos, então, algumas teses (ou parâmetros de inteligibilidade do texto) :

1. O Bloco afirma-se contracultural; a contracultura está longe de se confinar às «causas fracturantes»; é tão «fracturante» propor o casamento homossexual como um modelo alternativo de financiamento do sistema de segurança social. O Bloco é socialista, logo, anticapitalista. Ser anticapitalista é adoptar posturas e práticas contraculturais: o capitalismo não é apenas um modo de produção: é um sistema simbólico, uma mundividência, uma ordem cultural.

2. Avançaria, aliás, com um postulado que está, a meu ver, subjacente a toda a retórica argumentativa sem ser, todavia, explicitado: o Bloco, na senda de um marxismo heterodoxo e renovado, reconhece que é um retrocesso continuar a hierarquizar de forma evolutiva e universal as necessidades humanas: a luta toda requer uma noção de emancipação profundamente dialéctica e liberta do determinismo do factor fundamental e de qualquer tipo de centralidade exclusivista (nos estilos de vida e na inflação do estético encontramos as características estruturais do capitalismo avançado, do mesmo modo que as culturas de classe se diversificam, orientando-se muito mais pelos símbolos de referência do que de pertença).

3. O neoliberalismo e a globalização financeira são o capitalismo realmente existente. A alternativa não passa pelo modelo estalinista do PCP, pela lógica das trincheiras ou pela

Passados sete anos e dez eleições desde o nascimento do Bloco de esquerda, a

epopeia da resistência. Não passa, tampouco, pela matriz social-liberal da chamada social-democracia, essencialmente preocupada em criar almofadas sociais caritativas que evitem o alastrar da reivindicação e da insatisfação organizada e, deste modo, em facilitar a destruição da vaga conservadora e ultraliberal.

4. O Bloco procura a pluralidade nas suas formas de relacionamento com os movimentos sociais e não se coaduna, de igual modo, com qualquer tique ou tentação de aparelho, de profissionalização de vanguardas, fomentando uma acção colectiva organizada em que se cruzam militantes e simpatizantes, grupos temáticos e grupos de discussão transversal, modalidades organizativas ágeis e flexíveis que não asfixiem a permanente urgência da inovação teórico-prática. A organização é instrumental e sê-lo-á tanto mais quanto resolver com eficácia, celeridade, comunicação e democracia as necessidades quotidianas daí decorrentes.

Não creio que seja premente discutir os epítetos, apesar da linguagem ser intrinsecamente ideológica e desprovida de qualquer imaculada ingenuidade ou confortável neutralidade. Alguns camaradas gostariam de nomear esta esquerda de pós-moderna. Só teríamos, ao adoptar tal qualificativo, equívocos estéreis, tantas são as versões de tal paradigma. Além do mais, seria um convite para um salto mortal, no qual não entro: o de nos considerarmos pós-comunistas ou mesmo pós-socialistas, à semelhança do que acontece com a Refundação Comunista em Itália. É que, nessa ideia do advento da pós-modernidade (no seu estimulante caldo de pluralidade, intertextualidade, patchwork, interculturalidade e compreensão das sociedades pós-coloniais), existe, todavia, uma tremenda contradição e alguma arrogância mal disfarçada, herdeira do pior evolucionismo: a pós-modernidade, a despeito de recusar retoricamente qualquer exercício de imposição, apresenta-se, afinal, como a Superação da modernidade, uma nova Era que dissolve (por decreto...) todas as Eras anteriores e posteriores. Prefiro, francamente, a ideia de uma permanente reinvenção da teoria crítica neste processo de modernidade inacabada.

Mas a discussão mal iniciou. O pior que poderia acontecer a este texto seria resvalar, rapidamente, para a gaveta dos nossos tédios e inacções. Houve, apenas, uma primeira ronda, que culminou com a aprovação na Mesa Nacional. O importante, agora, está na inquietação criativa, na produção de novas ideias e práticas, longe de qualquer cristalização para os próximos três anos. Esta não é uma cartilha para ser debitada: é um argumentário para a busca metódica de nós mesmos.

* João Teixeira Lopes é dirigente do Bloco e professor universitário. [email protected]

Texto extraído do PDF da revista que o combate.info publicou; as citações em destaque e as legendas foram omitidas.

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